Amazônia

Como sua tigela de açaí pode estar deixando os tucanos sem floresta

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Por Suzana Camargo – Mongabay | “Ah-sigh-ee.” Talvez muitos estrangeiros ainda precisem aprender a pronúncia correta da fruta amazônica, mas existe uma enorme chance de que eles já tenham visto o nome “açaí” em cardápios mundo afora, sobretudo em cafés e lanchonetes especializadas em alimentação saudável, onde é o principal ingrediente de sucos, tigelas e sorvetes.

No Brasil, cerca de 95% da produção da fruta está concentrada no Pará. Ela é uma das bases da dieta da população local, que a consome batida, com peixe, farinha de mandioca e outros ingredientes amazônicos. Por causa de seus benefícios nutricionais — rica em antioxidantes, fibras e com alto valor energético —, a fama do açaí como “superalimento” rapidamente chegou a outras regiões brasileiras e, eventualmente, a outros países.

Mas o aumento da produção da fruta para atender tanto à demanda nacional quanto à internacional está reduzindo a diversidade de aves em florestas de várzea da Amazônia. Segundo um estudo publicado recentemente no jornal Biological Conservation, áreas com maior adensamento de palmeiras de açaí apresentam um declínio de 28% no número de espécies.

“Nosso objetivo era entender quais eram as consequências da expansão do cultivo do açaí e suas diversas formas de manejo sobre as aves, com um foco principal nas frugívoras, aquelas que se alimentam de frutos”, disse à Mongabay o biólogo e mestre em ecologia Raphael Vasconcelos Nunes, pesquisador da Universidade Federal do Pará e um dos coautores do estudo.

Segundo Nunes, as matas de várzea — onde ocorre a maior parte dos cultivos de açaí – já são um dos ambientes florestais mais impactados no bioma. Elas ficam na beira dos rios e sofrem inundações constantes, que trazem nutrientes e sedimentos, tornando o solo muito fértil. Para aumentar o volume da produção de açaí, porém, produtores muitas vezes cortam o restante da vegetação nativa nessas áreas.

“Com isso, começamos a ter uma bola de neve. Há uma queda dos animais, dispersores de sementes e polinizadores, que ajudam na manutenção e renovação dessa floresta. Por outro lado, se não há cobertura vegetal, o solo fica mais seco”, alerta Nunes. “São efeitos que podem parecer pequenos inicialmente, como essa redução do número de aves, mas que vão se somando, e causarão um grande problema lá na frente.”

Cestas de açaí pronto para venda após a colheita. Foto cedida por Raphael Nunes.
O estudo indicou declínio de aves como o rabo-branco-de-bigodes (Phaethornis superciliosus). Foto: Hector Bottai via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Intervenção humana

Os pesquisadores monitoraram a presença de aves em 36 áreas de cultivo da fruta, em menor e maior escalas, nos municípios de Belém, Barcarena, Abaetetuba e Igarapé-Miri — esta conhecida como “a capital mundial do açaí”. Pela manhã e no final do dia, quando as aves estão mais ativas, os cientistas realizaram um levantamento acústico das espécies presentes durante 45 minutos, em pontos específicos de cada área. No total, eles coletaram 127 horas de gravações de campo, registrando o canto de quase 3.580 indivíduos.

Os resultados apontam não apenas a redução de aves frugívoras, mas também a das insetívoras, aquelas que se alimentam de insetos no solo da floresta. Nunes explica que, para facilitar o trabalho de coleta dos frutos, assim como o escoamento da safra até a margem do rio, os produtores retiram também a mata de sub-bosque, que fica abaixo do dossel da floresta.

“Esses ecossistemas estão em um caminho de desequilíbrio. Nossas estatísticas demonstraram também essa redução das aves insetívoras, muito associadas à cobertura florestal no estrato baixo da floresta, onde há arbustos e pequenas ervas”, revela o pesquisador.

Segundo o estudo, entre as aves cuja população diminuiu em áreas de várzea cultivadas com açaí, estão o rabo-branco-de-bigodes (Phaethornis superciliosus), um tipo de beija-flor, e o tucano-de-papo-branco (Ramphastos tucanus). Aves de porte maior, que consomem grandes frutos, como o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), já desapareceram da região estudada, alerta Nunes. Outras espécies, como o anambé-una (Querula purpurata), também não são encontradas em açaizais mais próximos da monocultura.

Por outro lado, o estudo indicou que algumas espécies se beneficiam com o adensamento do cultivo do açaí, mostrando-se mais abundantes. É o caso do bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), notadamente conhecido por se adaptar em áreas modificadas por seres humanos.

O biólogo Raphael Nunes durante trabalho de campo. Foto cedida por Raphael Nunes.
Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), uma das poucas espécies que se beneficiam do manejo intensificado do açaí. Foto: Félix Uribe via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

“O que existe é uma homogeneização biótica, que na ecologia significa uma simplificação das espécies, já que as plantas que ficam junto com o açaí são muito simples e não conseguem manter a biodiversidade que encontramos em áreas preservadas”, diz o biólogo Madson Freitas, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e principal autor do estudo.

Os pesquisadores ressaltam que a expansão dos açaizais vai muito além da perda de alimentos para muitas espécies. O ambiente das aves está sendo modificado, e elas não encontram mais locais para descansar, dormir ou se reproduzir, como é o caso do tucano-de-papo-branco, que constrói seus ninhos em ocos vazios de árvores altas, cada vez mais raras nas áreas de cultivo.

“O ser humano não deu tempo para essas espécies se adaptarem”, diz Nunes. “Elas existem há milênios, mas o homem chegou e, em menos de cem anos, conseguiu alterar todas as redes de interações que um animal e uma planta tinham estabelecido.”

Monocultura de açaí, sem outras espécies de árvores na área, na ilha do Combu, em Belém, no Pará. Foto cedida por Raphael Nunes.

Demanda crescente

Segundo outro estudo recente, a produção de açaí teve um aumento de 14 vezes desde 1987, atingindo 1,9 milhão de toneladas em 2024. O Pará é tanto o maior consumidor interno quanto o principal exportador.

Embora a exportação ainda represente uma fatia pequena da produção total brasileira, as vendas internacionais do Pará de derivados do açaí, principalmente a polpa e o suco, cresceram quase 885% na última década, chegando a US$ 177,2 milhões, de acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa).

O principal destino de exportação são os Estados Unidos, mas as vendas também estão aumentando para Austrália, Japão e Holanda, que atua como importante porta de entrada para o mercado europeu.

De olho nessa demanda e na possibilidade de aumentar a renda, pequenos produtores plantam mais pés de açaí. Apesar de existir uma instrução normativa que regulamenta o número máximo de touceiras (conjunto de plantas) por hectare nas propriedades ribeirinhas, na prática a legislação é frequentemente ignorada.

Há mais de uma década, Freitas, que nasceu e vive no Pará, estuda os impactos do aumento do cultivo do açaí. Em 2021, ele publicou um estudo que alertava sobre a destruição das matas de várzea, associando a produção intensiva da fruta à redução do número de espécies vegetais e de funções ecológicas nesse ecossistema amazônico.

“Nessas áreas de florestas alagadas, onde o açaí é cultivado em quantidade maior do que a recomendada, temos ali mais de 200 ou 300 espécies [vegetais] que são perdidas e substituídas pelo açaí”, explica.

Para ele, a solução seria desestimular a monocultura e encorajar a população ribeirinha a plantar outros produtos, como o cacau e a andiroba, que poderiam gerar renda na época da entressafra e favorecer a biodiversidade nessas áreas.

Anambé-una (Querula purpurata), uma das aves de maior porte afetadas pela intensificação do cultivo de açaí. Foto: lwolfartist via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Risco reputacional

Nos últimos anos, produtos da Amazônia surgiram como uma solução para conter o desmatamento. A lógica dessa abordagem da “bioeconomia” é que a floresta tropical pode gerar renda por meio de sua rica biodiversidade. Ao mesmo tempo, órgãos estaduais e federais no Brasil têm fornecido financiamento e capacitação para que comunidades locais e indígenas desenvolvam cultivos e habilidades comerciais.

Mas, à medida que a bioeconomia cresce para atender a demanda de consumidores globais em busca de alimentos saudáveis e sustentáveis, ela também tem encontrado obstáculos, entre eles as armadilhas do capitalismo, como as plantações industrializadas de açaí.

“O estudo apresenta evidências claras de que o distanciamento de práticas tradicionais de cultivo do açaí reduz a biodiversidade localmente e em escalas espaciais maiores”, diz Danielle Leal Ramos, doutora em ecologia e biodiversidade e gerente de projetos de soluções baseadas na natureza da Universidade de Exeter (Reino Unido).

“Esses resultados implicam riscos econômicos em curto e médio prazos: a perda de oportunidades no emergente mercado verde, risco reputacional ao mercado de açaí e redução de resiliência dos sistemas produtivos intensivos”, acrescenta a especialista, que não esteve envolvida na elaboração do estudo.

Plantação de açaí mantida por pequeno produtor à beira de um rio na Amazônia. Foto cedida por Madson Freitas.

O relatório “Panorama do Açaí”, publicado em outubro de 2025 pelo projeto Amazônia 2030, demonstrou preocupação com o modo como a “açaização” predatória — o crescimento da monocultura de açaí em detrimento de outras espécies —, pode transformar um símbolo de sustentabilidade em sinônimo de degradação.

“O corte de florestas nativas para abrir espaço à implantação de cultivos de açaí é bastante prejudicial ao meio ambiente, não muito diferente do desmatamento para a criação de gado ou o cultivo de soja”, ressalta Salo Coslovsky, professor associado de planejamento urbano e serviço público da Universidade de Nova York (EUA) e um dos autores do relatório.

“A urgência das crises climáticas e de biodiversidade nunca tiveram tanta atenção dos atores políticos e econômicos”, destaca Danielle. “A Amazônia tem uma oportunidade única de aproveitar essa demanda, desenvolvendo alternativas de produção que realmente beneficiem o clima, a biodiversidade e a sociedade.”

Além da falta de fiscalização governamental para assegurar que pequenos produtores cumpram a legislação, especialistas concordam que é necessário um maior trabalho de conscientização ambiental e suporte a essas comunidades.

“Precisamos oferecer apoio técnico e financeiro, e um caminho plausível, para que os produtores consigam cumprir com as exigências ambientais, sem criar exceções que alimentam a competição desleal”, reforça Coslovsky. “É uma mistura de contundência com carinho, onde os dois tipos de instrumento, controle e fomento, são bem adaptados para as especificidades de cada caso.”

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Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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