Foto de Bill Salazar no Pexels
Por Lucas Berti – Mongabay | Muito além de ser um dos cartões-postais da Amazônia, o açaí (Euterpe oleracea) é reconhecido pela ciência como um “superalimento” por seus antioxidantes, vitaminas e minerais. A fruta cresce naturalmente no bioma tropical, mas não se limitou às fronteiras amazônicas: ao longo da história, tornou-se um trunfo para a bioeconomia brasileira, impulsionando um setor que já movimenta 1 bilhão de dólares em todo o mundo.
De forma complementar, um número crescente de pesquisas vem mostrando que as propriedades do açaí não se restringem ao consumo direto da fruta. Um desses achados é resultado de um estudo conduzido por cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA).
Entre as principais descobertas, pesquisadores identificaram o potencial farmacêutico de um creme formulado com o própolis de espécies de abelhas sem ferrão, também chamadas de melíponas. Nativas da Amazônia, muitas dessas espécies polinizam os açaizais da região.
Ao estudar uma espécie de abelha amazônica, a abelha-canudo (Scaptotrigona aff. postica), a pesquisa detectou propriedades curativas e anti-inflamatórias em substâncias extraídas do própolis, um composto resinoso que o inseto coleta das árvores e utiliza (após a adição de saliva e enzimas) para preencher fendas e “selar” os favos de mel. Os testes dermatológicos foram considerados reveladores. As amostras apresentaram resultados curativos comparáveis aos de pomadas cicatrizantes disponíveis no mercado, o que, segundo os cientistas, abre perspectivas positivas para a criação de novos subprodutos.
“O creme à base de própolis influenciou diretamente o processo de maturação da lesão e apresentou uma resposta inflamatória mais branda”, diz o estudo, publicado em outubro de 2024. “Biofármacos, como cremes a partir de própolis, oferecem vantagens como efeitos colaterais mínimos, baixos resíduos químicos e conservantes [em níveis] insignificantes.”
Apesar de muito menos numerosas e conhecidas do que suas famosas “primas” com ferrão — sobretudo por não produzirem o mel na mesma quantidade e velocidade —, as melíponas desempenham um papel fundamental na dinâmica da floresta, sendo responsáveis por importantes serviços ecossistêmicos.
A pesquisa investigou insetos que vivem ao redor de monoculturas de açaí. O recorte se justifica: segundo um estudo de 2020, realizado pela Embrapa, pela UFPA e pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), as abelhas sem ferrão respondem por 60% da polinização dessa espécie de palmeira, sendo essenciais para a produção do fruto e para toda a cadeia de cultivo.
“Elas visitam as flores com mais frequência, quase sempre carregam pólen e possuem colônias mais populosas. São as espécies mais consistentes na polinização do açaí e podem ser criadas e manejadas”, disse Alistair Campbell, biólogo da Embrapa e coautor desse estudo.
Daniel Santiago, também da Embrapa, complementa o raciocínio. Com doutorado em Ciência Animal, ele estuda abelhas nativas há anos e participou da investigação sobre melíponas publicada em 2024. Em sua visão, as espécies sem ferrão desenvolveram uma enorme “afinidade” pelas flores do açaí ao longo do tempo. Essa relação, por sua vez, trouxe diversos benefícios.
“Isso tornou o manejo de abelhas sem ferrão [meliponicultura] um elemento essencial na cadeia produtiva do açaí. A ponto de a cadeia do açaí começar a realmente demandar abelhas-canudo para a polinização”, disse à Mongabay.
A pesquisa da qual Santiago fez parte revelou que as qualidades do própolis “rico em bioativos” produzido pelas melíponas estão atreladas às flores do açaí, cujas palmeiras criam “um ambiente específico que influencia diretamente as características e a composição” da resina.
O apicultor Joaquim dos Reis Rodrigues, morador do município de Concórdia do Pará, acompanha esse processo com os próprios olhos. Descrevendo-se como um “pequeno agricultor familiar”, título que ostenta com orgulho, Rodrigues conta que passou a maior parte da vida profissional em contato com a vida selvagem da Amazônia.
Em suas palavras, os animais, as plantas e as frutas “dependem mutuamente um dos outros”.
“O mel das abelhas sem ferrão tem diferenciação. Essas abelhas contribuem para o meio ambiente e, de certa forma, trabalhar com elas é trabalhar por esse propósito mais profundo”, disse, em entrevista. Segundo o agricultor, o mel “especial” das abelhas sem ferrão pode ser vendido por até R$ 180 por litro — o equivalente ao triplo do preço do mel comum.
As abelhas sem ferrão são abundantes na Amazônia — Santiago estima que 75% de todas as espécies brasileiras vivam no bioma. Além disso, pesquisas recentes, conduzidas por diferentes instituições científicas, mostraram que mais de 100 espécies são exclusivas da floresta tropical.
Embora não sejam as abelhas preferidas para a produção de mel, sua “pequena contribuição” é conhecida por apresentar características especiais, o que resulta em uma substância de alto valor bioeconômico e ambiental. Brasil afora, o mel das melíponas chama a atenção até mesmo da alta gastronomia, sendo descrito por especialistas do setor como “novo caviar”.
“É um animal com múltiplas contribuições para o ecossistema e que fornece produtos de alto valor agregado”, disse Rodrigues.
O valioso fluido reluzente colhido nos meliponários tende a ser mais líquido e ácido devido às particularidades de sua composição química, explica a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas. Ele também é menos doce, à medida que concentra mais água do que açúcar — o que explica sua aplicação em receitas sofisticadas.
“[O produto] contém, ainda, um teor natural de bactérias e leveduras, microrganismos que induzem sua fermentação. Logo, os méis de abelhas sem ferrão não são tão estáveis quanto o mel da abelha melífera [Apis mellifera, de origem europeia], característica que demanda tratamento diferenciado”, diz a associação em seu site oficial.
Em sua forma final, esse tipo de mel também pode apresentar uma variedade de sabores, cores e aromas. Esses aspectos variam dependendo da espécie, mas também do habitat e da estação do ano; de forma geral, isso ocorre porque fatores biogeográficos exercem grande influência no ambiente da floração que, posteriormente, será polinizada pelos insetos.
“O própolis é conhecido há muito tempo por seus efeitos curativos. Ele só ‘perdeu valor’ após [a descoberta da] penicilina [na década de 1920]. Até então, era usado para curar feridas de guerra — e sempre foi considerado um bálsamo”, disse Santiago.
Na visão do pesquisador, essas nuances químicas, somadas à produção em volumes menores, são os aspectos que o tornam “um tipo de mel mais ‘gourmet’, ou de nicho”. Ao mesmo tempo, o “processo único” para se chegar ao produto, segundo o especialista, também o torna um item “essencial” para toda uma cadeia produtiva sustentável da Amazônia.
A ciência tem se lançado em uma busca árdua pelas propriedades desconhecidas dos produtos sustentáveis fornecidos pelos principais biomas do país. Em muitos casos, a jornada só é possível graças ao manejo ancestral, abastecido pelo conhecimento de comunidades indígenas e tradicionais. É o caso do licuri (Syagrus coronata), palmeira nativa do semiárido nordestino, que já foi destaque nesta reportagem da Mongabay.
Na Amazônia, a lista é longa. Entre os exemplos está o jambu (Acmella oleracea), bastante conhecido por seu efeito de formigamento. A planta, no entanto, é muito versátil, entrando no radar dos pesquisadores para o desenvolvimento de óleos, filmes orais de dissolução rápida (que auxiliam no tratamento de pacientes com câncer) e até enxaguantes bucais sem álcool.
Já no Arquipélago do Marajó, banhado pela foz do rio Amazonas e pelo Oceano Atlântico, o esforço científico, o conhecimento ancestral e a biodiversidade se unem para a produção de um óleo formulado a partir das larvas do besouro da espécie Speciomerus ruficornis, que se reproduz dentro dos caroços do tucumã (Astrocaryum aculeatum). Cada vez mais requisitado, o produto tem propriedades medicinais, antioxidantes e até culinárias.
Hoje em dia, embora a bioeconomia brasileira ainda encontre obstáculos para superar os efeitos do desmatamento e do agronegócio, a matriz de sustentabilidade vem acompanhada de cifras expressivas: relatórios internacionais estimam que o setor é capaz de gerar até 8 bilhões de dólares em receita para famílias e comunidades que vivem na Amazônia.
Pesquisadores, enquanto isso, observam a natureza de perto e buscam preparar o terreno para futuros avanços no campo científico. Daniel Santiago explica que o trabalho com as melíponas também tem uma função socioambiental: “redescobrir” o conhecimento tradicional amazônico e empoderar a agricultura de pequena escala.
“Quando vimos o impacto das abelhas sem ferrão na polinização, percebemos que a Embrapa poderia ajudar [os agricultores] a evoluir [suas práticas] para que o número mínimo de enxames pudesse gerar a mesma produtividade”, disse. “Já estamos progredindo com a polinização orientada, com técnicas de dispersão e falando de métodos sistemáticos e eficientes [de meliponicultura]. O própolis vem nesse contexto.”
Os impactos positivos dessa relação benéfica também explicam parte da reviravolta na vida pessoal e profissional de Rubens José Pinon. Conhecido como “Rubinho”, o empresário e agricultor mora com a família no município de Breu Branco, no Pará, a cerca de 400 quilômetros de Belém, cidade que recebeu a COP30 em novembro de 2025.
No início, Pinon utilizava suas terras para criar gado leiteiro. No entanto, a dinâmica familiar mudaria completamente com a aprovação do Código Florestal, em 2012 — o que, segundo o proprietário, passou a exigir “maior preservação no uso da terra”.
De uma necessidade, surgiu uma ideia. “Naquele momento, pensamos em reflorestar a área. E percebemos que poderíamos usar árvores frutíferas. Foi quando plantamos açaí”, disse.
O plantio de frutas levou Rubinho e sua família a um momento de reflexão. E, a partir dessa mudança, os Pinon dizem que um verdadeiro horizonte se abriu.
“Aos poucos, percebemos que precisávamos de agentes polinizadores. Primeiro, com as abelhas com ferrão; depois vieram as sem ferrão. Esses animais ficavam dentro da plantação. Por fim, isso levou à ideia de aproveitar o mel produzido por elas.”
Segundo o proprietário, a produção de mel das melíponas não poderia, por si só, complementar a renda familiar, uma vez que rendia menores quantidades da substância. Foi então que ele e a esposa, Camélia, decidiram examinar os subprodutos do animal com mais atenção.
“Percebemos que, apesar de produzir pequenas quantidades de mel e própolis, a qualidade de ambos era muito boa. Percebemos que o potencial do própolis era enorme. E quando você está na Amazônia, tem uma variedade imensa de árvores e plantas. Elas potencializam o própolis”, disse à Mongabay.
Com o apoio e a orientação de Daniel Santiago e de outras atividades de pesquisa realizadas pela Embrapa, os Pinon depositaram suas fichas no comércio sustentável feito a partir da cera “especial” produzida pelas melíponas. Assim, nasceu um novo negócio.
O resultado do trabalho familiar com as abelhas, o açaí e seus subprodutos levou à fundação da AmaBee Cosméticos. O projeto, que tem registro oficial desde agosto de 2024, foi forjado por meio de parcerias com a Embrapa e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), além do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio) e do Ministério Público do estado.
Entre seus carros-chefes, a AmaBee desenvolve produtos dermocosméticos à base de mel e de própolis, exportando-os para todo o Brasil.
O catálogo da empresa conta com shampoos, géis, cremes hidratantes e vários tipos de sabonetes, incluindo uma linha própria para a higiene íntima. Os itens podem custar entre R$ 10 e R$ 40, excluindo as despesas de frete. Segundo Rubinho, oito produtos já possuem a certificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A empresa está ansiosa para desenvolver novas criações”, disse.
Muito além do sucesso nas vendas, o casal valoriza os benefícios socioambientais da atividade que paga as contas da família. “Quando mexíamos com gado, eu vivia estressado; a atividade em si era estressante”, relata. “Trabalhávamos duro por pouco dinheiro. Hoje, vivemos em harmonia com os animais. Quando você trabalha com abelhas, não se trata apenas de lucro: trata-se de cuidar da natureza ao redor. Hoje, somos mais felizes. Vivemos em harmonia, sob o mesmo objetivo: cuidar da natureza, o que também significa cuidar dos outros.”
A rede de sustentabilidade por meio da qual Rubinho e Camélia desenvolveram seu sustento também se estende à esfera social. Como puderam colher os frutos de treinamentos e cursos de capacitação no passado, os Pinon, agora, buscam “compartilhar o conhecimento” para expandir o setor e aumentar a produção sustentável.
Atualmente, a AmaBee promove projetos socioeducativos em diferentes escolas e áreas rurais de Breu Branco, ensinando novos alunos e pequenos agricultores sobre o manejo dos meliponários — sempre reforçando os benefícios ecológicos que acompanham a atividade.
Enquanto as abelhas se espalham pelos açaizais, a palavra da família segue o mesmo caminho, levando instrução e valorização ecológica a quem precisa. “Quando começamos a trabalhar com o açaí e as abelhas, a mudança foi drástica em termos ambientais. E a natureza nos retribuiu”, disseram.
Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.
Saiba mais