Estruturas são essenciais para aplicações em inteligência artificial e para o desenvolvimento da economia digital. Pesquisadores apontam que, para além do uso de energia renovável, políticas públicas devem considerar condições locais para a segurança hídrica e transparência nas informações
Por Marcos do Amaral Jorge – Jornal da Unesp | Com a ampla popularização dos recursos de inteligência artificial, cresce também a demanda pelo armazenamento e processamento de quantidades massivas de dados necessários para essas atividades. Nesse cenário, grandes projetos de data centers tem se expandido pelo mundo, frequentemente vinculados a importantes empresas de tecnologia, as big techs.
Por serem estruturas com consumo intensivo de energia, o Brasil desponta como um potencial destino para esses projetos, principalmente em virtude da sua matriz elétrica predominantemente renovável. De olho na expansão da economia digital no país, o governo federal se mobiliza para elaborar incentivos e atrair esses investimentos. Especialistas alertam que, se por um lado o alto consumo energético dos data centers seja conhecido e amplamente discutido pela opinião pública, o impacto hídrico dessas estruturas não têm recebido a mesma atenção, mas é igualmente preocupante.
Na visão de alguns desses especialistas ouvidos pelo Jornal da Unesp, debater as condições e as consequências da instalação dessas estruturas é essencial para orientar a atração de investimentos, especialmente em um contexto de incertezas climáticas e de recorrentes períodos de estiagem e crises hídricas observadas em diferentes regiões do Brasil, nos últimos anos.
De fato, estimativas sobre o consumo hídrico de grandes servidores apresentadas por pesquisadores em diferentes regiões do mundo impressionam. Em um artigo publicado na revista Applied Energy, no ano passado, cientistas da Beijing Normal University calcularam que os data centers da China consumiram, em 2022, o equivalente a 15,7 bilhões de litros de água, o que representou 2,7% do total da água consumida no país naquele ano. Para fins de comparação, esse volume equivale a aproximadamente metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu.
Na mesma linha, a Agência Internacional de Energia aponta que o consumo global de água por data centers está atualmente em 560 bilhões de litros por ano. O relatório do órgão internacional publicado no ano passado vai além, prevendo que, em virtude da crescente demanda pelos recursos de IA, essa cifra deve alcançar 1,2 trilhões de litros até 2030.
Incentivos para atração de data centers
O Brasil ainda aparece como um mercado discreto para esses projetos. De acordo com o Data Center Map, plataforma que mapeia essas instalações em todo o mundo, o país possui cerca de 200 data centers, mas a maior parte de pequeno e médio porte, que costumam atender às necessidades internas de uma empresa ou fornecer serviços de processamento e armazenagem para clientes externos. As estruturas de grande porte, chamados hyperscale, estão presentes em menor número, e costumam estar vinculados a projetos de processamento de dados para a inteligência artificial e serviços de armazenamento em nuvem oferecidos pelas big techs.
Este cenário, entretanto, pode mudar em breve. Os data centers hyperscale estão no foco dos esforços do governo federal para criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento da economia digital no país, o que inclui incentivos para a atração de empresas multinacionais do setor. No final de 2025, foi assinada uma medida provisória que concedia isenção de impostos (PIS/Pasep, Cofins e IPI) para a aquisição de equipamentos destinados à implantação, ampliação e manutenção de data centers, chamada Redata.
Como contrapartida, o texto exigia a adoção de medidas que garantissem a soberania digital, como o armazenamento dos dados no território brasileiro, bem como a destinação de 2% dos investimentos no país em pesquisa e desenvolvimento das cadeias produtivas digitais brasileiras. Após ser aprovada pela Câmara dos Deputados, a MP não foi votada pelo Senado, perdendo sua validade. Agora, o mesmo texto tramita na forma do Projeto de Lei 278/2026.

Avaliar apenas a eficiência não é o suficiente
“A atividade de processamento desses data centers geram muito calor, ao mesmo tempo, esses dispositivos são extremamente sensíveis à alta temperatura. O recurso hídrico aparece como a principal estratégia de resfriamento para a maioria dessas estruturas”, explica Leopoldo Lusquino, cientista da computação e professor do Departamento de Engenharia de Controle e Automação da Unesp, no câmpus de Sorocaba. Entre suas áreas de atuação, o docente elabora modelos para tornar a IA mais eficiente e, portanto, mais “verde”. Segundo ele, as empresas estão atentas ao impacto das suas atividades sobre os recursos naturais e têm investido no desenvolvimento de tecnologias de resfriamento mais eficientes, mas atualmente as principais opções envolvem o resfriamento a seco, com o uso de ar condicionado, por exemplo. “Isso pode ser útil em países frios, mas em países mais quentes, como o Brasil, isso aumentaria ainda mais o consumo energético”, explica.
A proposta do Redata elaborada pelo governo federal não ignora a pegada hídrica dos data centers. Segundo o texto, para ser elegível aos benefícios fiscais, a empresa deve apresentar um Índice de Eficiência Hídrica (WUE) igual ou inferior a 0,05 L/kWh por ano, além de apresentar esses dados em seus respectivos relatórios de sustentabilidade. O cálculo do volume de água dividido pelo consumo de energia é a principal métrica usada pela indústria para quantificar a eficiência hídrica de um data center. A exigência apresentada pelo governo federal, entretanto, parece fora dos padrões praticados pelas principais empresas do setor, atualmente. Em 2025, a Microsoft reportou uma média anual de 0,3 L/kWh em suas estruturas de processamento e armazenamento de dados, enquanto a Amazon publicou que seu WUE foi de 0,15 L/kWh, em 2024. A Meta, por sua vez, reportou que em 2023 obteve um WUE de 0,18 L/kWh. Nos três casos, o índice foi celebrado como uma melhora em relação aos resultados dos anos anteriores, um objetivo alcançado devido à adoção de novas tecnologias de resfriamento.
Embora seja a métrica mais usada pela indústria, especialistas apontam que o WUE, isoladamente, não deve ser o único instrumento regulatório para se determinar a pegada hídrica de um data center, sob o risco de subestimar os verdadeiros riscos sobre a água e direcionar políticas de forma inadequada. Isso porque outros fatores como uma redução esporádica no consumo de energia ou o funcionamento durante as estações mais frias do ano (que demandam menos resfriamento) podem ajudar a mascarar este índice.
Soma-se a isso o fato de que a divulgação desses dados não é uma prática comum entre todas as big techs. A Open AI, responsável pelo assistente de inteligência artificial Chat GPT, não apresenta dados do consumo de água do seu principal produto desde a versão 3, lançada em 2020. Essa falta de transparência da empresa tem despertado a curiosidade dos pesquisadores. Um artigo publicado por cientistas da Universidade da Califórnia estimou que apenas o treinamento da versão 3 da ferramenta utilizou 700 mil litros de água, e que a ferramenta consome 500 mil (equivalente a uma garrafa plástica) para cada 20 a 50 interações. Segundo os autores, essa variação se deve às condições geográficas e climáticas em que o data center é instalado.
Alto consumo em uma região em estresse hídrico
Atualmente, dos cerca de 200 data centers em funcionamento no Brasil, mais de 80 estão em um eixo entre São Paulo e Campinas. A proximidade dessas estruturas a grandes empresas e indústrias e a disponibilidade de mão de obra qualificada ajudam a entender a escolha desses projetos pela região. Ao mesmo tempo, com 59% de sua energia produzida a partir de fontes renováveis, o estado de São Paulo atende às exigências do Redata que demandam fontes de energia limpas para abastecer os projetos.
Ainda assim, a presença de novos empreendimentos em regiões localizadas nas bacias hidrográficas do Alto-Tietê e Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) pode ser preocupante. As duas bacias estão entre as mais populosas e mais pressionadas do Brasil em termos de recursos hídricos, e viveram episódios de restrição de consumo nos últimos anos em virtudes de períodos de estiagem. “No caso da bacia do PCJ, ela já é naturalmente uma bacia deficitária porque ela transfere água para o sistema Cantareira, que abastece boa parte da população da cidade de São Paulo”, explica o hidrólogo Rodrigo Manzione.
Docente no Departamento de Geografia e Planejamento da Unesp, no câmpus de Ourinhos, Manzione chama a atenção ainda para o perfil de consumo desses data centers, que precisam do fornecimento contínuo de água para o resfriamento dos processadores. “Como seria possível, numa região de intenso consumo de água, garantir a segurança hídrica para um empreendimento como esse? Somente por meio da exploração de água subterrânea”, afirma. “Nesse contexto, retirar do solo uma água de altíssima qualidade que foi naturalmente filtrada ao longo de 15 mil anos para resfriar um data center não me parece um fim muito nobre para esse recurso”, questiona.
Diante do estímulo governamental e da popularização do uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial, o aumento no número de data centers no país parece inevitável. Os especialistas, entretanto, concordam que a formulação das políticas de incentivo devem ir além da oferta de fontes renováveis ou de métricas de consumo de água e precisam contemplar particularidades territoriais, segurança hídrica e a transparência de dados para que o crescimento da economia digital no país não se torne mais uma atividade econômica de alto impacto em nossos recursos naturais.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.