Estudo mostra que a distribuição das áreas de corte influencia mais o risco de inundações do que o volume de árvores removidas e reforça a necessidade de avaliações ambientais independentes
As florestas exercem papel determinante na regulação do ciclo da água, e alterações provocadas pelo desmatamento podem transformar profundamente esse equilíbrio. Um estudo recente revela que a exploração florestal intensiva elevou de forma expressiva a frequência das enchentes em uma bacia hidrográfica da Colúmbia Britânica, no Canadá, demonstrando que decisões sobre o uso da paisagem podem gerar impactos econômicos, sociais e ambientais duradouros.
As inundações figuram entre os desastres naturais que mais afetam populações em todo o planeta. Nas últimas três décadas, mais de 2,8 bilhões de pessoas sofreram consequências desses eventos, enquanto mais de 500 mil perderam a vida. No Canadá, episódios recentes evidenciam a dimensão do problema. As enchentes registradas em 2021 no Vale do Fraser provocaram prejuízos estimados em cerca de 14 bilhões de dólares e interromperam atividades em diversas comunidades.
A pesquisa analisou uma bacia hidrográfica localizada na margem oeste do Lago Okanagan, próxima à cidade de Summerland, onde aproximadamente 40% da área passou por corte raso. Os resultados indicam uma mudança expressiva na recorrência das enchentes. Um evento que anteriormente tinha probabilidade de ocorrer a cada 50 anos passou a apresentar intervalo médio de apenas três anos após a exploração madeireira.
Outro dado chamou atenção dos pesquisadores. Enchentes consideradas raras e de grande magnitude responderam de maneira ainda mais intensa às alterações da cobertura florestal do que os eventos menores. Essa conclusão contrasta com avaliações técnicas frequentemente adotadas por órgãos públicos e estudos anteriores, que costumavam atribuir maior sensibilidade apenas às inundações de pequeno e médio porte.
A explicação está nas características da paisagem. As áreas exploradas concentram-se em altitudes médias e elevadas, principalmente em encostas voltadas para o sul e sudeste. Nesses locais, a retirada das árvores elimina a sombra que retardava o derretimento da neve. Como consequência, ocorre um acúmulo maior de neve durante o inverno e um derretimento mais rápido e sincronizado na primavera, aumentando significativamente o volume de água que escoa simultaneamente para os rios.
Os pesquisadores também verificaram mudanças expressivas na frequência de eventos extremos. Uma enchente anteriormente esperada a cada 20 anos passou a ocorrer, em média, a cada dois anos na área analisada. Estudo semelhante realizado no estado do Colorado identificou comportamento semelhante, embora com intensidade menor: após a remoção de aproximadamente 40% da cobertura florestal, enchentes que antes aconteciam a cada duas décadas passaram a ocorrer a cada 12 anos.
Os resultados reforçam que a localização do corte exerce influência mais significativa do que a quantidade total de árvores removidas. A forma como a exploração é distribuída ao longo da bacia hidrográfica determina a intensidade das alterações no regime hidrológico e, consequentemente, o aumento do risco de inundações.
Outro aspecto relevante da pesquisa foi a separação entre os efeitos das mudanças climáticas e os impactos diretos da exploração florestal. Enquanto grande parte do debate público associa o aumento das enchentes exclusivamente ao aquecimento global, a análise mostrou um cenário mais complexo.
Na região estudada, as mudanças climáticas reduziram parte da cobertura de neve, fator que tende a diminuir naturalmente o risco de enchentes provocadas pelo degelo. Entretanto, esse efeito foi superado pelas alterações causadas pelo desmatamento, que elevaram o risco geral de inundação mesmo diante da redução da neve acumulada durante o inverno.
Esse resultado evidencia que diferentes fatores ambientais podem atuar simultaneamente sobre uma mesma bacia hidrográfica. Quando esses elementos são avaliados em conjunto, sem distinção entre suas contribuições, parte dos impactos provocados pela atividade humana pode permanecer oculta.
Os autores também chamam atenção para limitações presentes em métodos amplamente utilizados para previsão de enchentes. Muitas análises ainda consideram que as condições climáticas permanecem estáveis ao longo do tempo, premissa que dificulta a identificação dos efeitos combinados das mudanças climáticas e das transformações no uso do solo. Para superar essa limitação, a equipe desenvolveu uma metodologia capaz de separar a influência de cada fator sobre o risco de inundação.
As conclusões possuem implicações diretas para políticas públicas e para o setor florestal. Comunidades afetadas por enchentes já recorreram à Justiça em ações contra governos e empresas madeireiras, buscando responsabilização pelos prejuízos causados pelas alterações na paisagem.
Segundo os pesquisadores, estratégias de manejo florestal devem considerar cuidadosamente a localização das áreas destinadas ao corte, adaptando as decisões às características de cada bacia hidrográfica. Essa abordagem amplia a capacidade de reduzir riscos e evitar custos que acabam sendo absorvidos pela população.
O estudo também defende mudanças nos processos de licenciamento. Atualmente, avaliações hidrológicas realizadas antes das operações florestais frequentemente permanecem restritas aos órgãos responsáveis e, em muitos casos, sequer são obrigatórias. A pesquisa propõe que esses estudos passem a ser exigidos por lei, elaborados por profissionais independentes e disponibilizados para consulta pública.
A adoção de critérios técnicos mais rigorosos fortalece o planejamento ambiental, reduz prejuízos econômicos e amplia a segurança das comunidades situadas em áreas vulneráveis às enchentes. Também contribui para tornar mais transparentes as decisões relacionadas à exploração dos recursos florestais e à gestão das bacias hidrográficas.