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A contribuição dessas pequenas propriedades tem sido sistematicamente subestimada por análises anteriores, que focavam apenas na produção dentro das fronteiras nacionais

Em um cenário global de cadeias de abastecimento complexas e rótulos que citam origens distantes, um estudo publicado na revista Nature Food revela um paradoxo fundamental: a maior parte dos alimentos consumidos diariamente em nações desenvolvidas tem suas raízes em pequenas propriedades agrícolas, muitas vezes localizadas em países de baixa renda. A pesquisa, que analisou padrões de produção e comércio em 198 países, desmonta a narrativa convencional de que a segurança alimentar global é sustentada predominantemente pela agricultura industrial de grande escala.

A contribuição dessas pequenas propriedades – geralmente definidas como terras menores que 20 hectares – tem sido sistematicamente subestimada por análises anteriores, que focavam apenas na produção dentro das fronteiras nacionais. A nova abordagem, que rastreia o consumo final, mostra que um terço dos alimentos consumidos em países como Estados Unidos e Reino Unido vem desses agricultores. Eles são responsáveis por fornecer grande parte das frutas, verduras, leguminosas e tubérculos que chegam às mesas das nações mais ricas.

Essa dinâmica de exportação, no entanto, carrega contradições profundas. Enquanto exportam cultivos diversificados e nutritivos, os países de origem, concentrados na África Subsaariana e em partes da Ásia, frequentemente se veem obrigados a importar cereais e oleaginosas básicas de grandes produtores industriais para cobrir suas necessidades internas. Esse fluxo reforça padrões extrativistas e cria dependência, exacerbando a insegurança alimentar nas regiões que, ironicamente, nutrem o mundo desenvolvido.

Os pequenos agricultores, que sustentam a alimentação diária de cerca de 5 bilhões de pessoas globalmente e são a principal fonte de abastecimento em 46 países, enfrentam ameaças constantes. Insegurança fundiária, vulnerabilidade climática, condições comerciais desiguais e a crescente consolidação corporativa das cadeias de suprimentos põem em risco seus meios de subsistência. A erosão do apoio financeiro internacional para uma agricultura resiliente agrava ainda mais o quadro.

A proteção desses produtores exige ações coordenadas que vão além das fronteiras. Medias como a garantia de títulos de propriedade, o acesso a microcrédito, a garantia de salários dignos e a revisão de acordos comerciais predatórios são fundamentais. Subsídios e políticas que favorecem apenas o agronegócio em grande escala corroem os pilares que sustentam a produção dos alimentos mais saudáveis.

Dar visibilidade a esses atores invisíveis das cadeias globais é o primeiro passo para transformar a governança do sistema alimentar. O futuro de uma dieta sustentável, com maior consumo de vegetais como preconizado pela ciência, está intrinsecamente ligado ao destino dessas pequenas propriedades, que tipicamente cultivam uma diversidade maior de culturas, apresentam maior biodiversidade e, em muitos casos, rendimentos mais elevados por unidade de área. Reconhecer seu papel central é condição básica para construir segurança alimentar genuína para todos.


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