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A opção por um turismo com maior participação da população trouxe benefícios sociais e econômicos a uma comunidade indígena no Amazonas

Uma dissertação desenvolvida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP permitiu constatar que o desenvolvimento de um novo tipo de turismo, numa comunidade indígena da Amazônia, trouxe diversos benefícios, como a maior participação da população nos processos de organização e desenvolvimento, e o fortalecimento da economia local. “Mas há também o crescimento do processo de interculturalidade, com maiores trocas entre visitantes e visitados, o que resulta num turismo de baixo impacto negativo”, descreve a turismóloga Ana Rosa Guimarães Bastos Proença, que analisou o turismo desenvolvido na Comunidade Indígena Nova Esperança “Pisasú Sarusawa”, no Amazonas. A dissertação de mestrado foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Turismo – PPGTUR, da EACH, sob a orientação do professor Alexandre Panosso Netto e obteve o 1o lugar na categoria Mestre Destaque no “XVII Seminário ANPTUR 2020”, evento nacional da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo.

Para realizar o estudo intitulado Turismo em territórios indígenas: desenvolvimento e impacto sociocultural na Comunidade Indígena Nova Esperança “Pisasú Sarusawa” (Amazonas – Brasil) Ana Rosa analisou os aspectos que envolvem o turismo local entre os anos de 2010 e 2018. “Traçamos um histórico desses oito anos e, em 2018, permaneci na comunidade por dois meses”, conta a pesquisadora ao Jornal da USP. Naquele período, ela entrevistou 21 pessoas, sendo 14 indígenas, três de instituições não governamentais (ONGs) e um representante de uma agência de viagens. “Uma das motivações de minha pesquisa é que boa parte dos estudos sobre a questão do turismo, povos indígenas e impactos socioculturais traz abordagens que mostram a atividade como sendo apenas prejudicial. No entanto, temos muito a aprender com o caso de Nova Esperança, onde o turismo, a partir da mudança de sua forma de ocorrer, foi benéfico”, enfatiza.

Houve um planejamento que envolveu desde a recepção dos turistas até a determinação das rotas de visitas em pontos determinados da comunidade.

Nova Esperança está localizada no Rio Cuieiras – afluente do Rio Negro – distante 80 quilômetros (km) de Manaus. A comunidade fica dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, gerida pelo governo do Estado do Amazonas, e é formada, predominantemente, pela etnia Baré. “Existe uma delimitação da Unidade de Conservação, mas não há a demarcação como terra indígena. Além de Nova Esperança, há outras comunidades indígenas situadas na RDS que trabalham com o turismo”, descreve Ana Rosa.

Com a experiência de sua residência temporária em Nova Esperança, nas entrevistas e no histórico do turismo naquela comunidade, Ana Rosa pôde traçar um paralelo e acompanhar o processo de transição do turismo convencional para o que ela denomina de turismo de base comunitária. Durante as atividades de turismo convencional, que duraram até o ano de 2010, navios de cruzeiros levavam visitantes à comunidade. “Nessa modalidade, o visitante desembarcava, apreciava as danças indígenas, fazia algum passeio e comprava alguns artesanatos”, conta Ana Rosa. “Ou seja, eles levavam ao turista um pacote pronto. Havia pouca participação da comunidade indígena na organização desse turismo”, destaca.

Planejamento e participação

A partir de 2010, a comunidade passou a experimentar o “turismo comunitário”. E foi com base numa proposta apresentada pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE), uma ONG sediada em São Paulo e que atua na Amazônia, em parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas, foi implantado na comunidade o turismo comunitário. “Aliás, esse tipo de gestão do turismo já era indicado para as comunidades no plano de gestão do Parque Setor Sul, a Unidade de Conservação anterior à atual Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga Conquista ”, lembra Ana Rosa.

Ao contrário do turismo praticado anteriormente, a atividade turística de Nova Esperança atualmente é organizada de forma que não venha a prejudicar as rotinas diárias de seus moradores.

Com a nova modalidade, todas as atividades de turismo passaram a ter participação coletiva da comunidade, no planejamento e execução. “A visitação, a participação de mais pessoas da comunidade e atividades como o artesanato passaram a ser mais organizadas, em grupos de trabalho por exemplo, e o foco já não era mais no estereótipo de ‘índio’ dos livros de história. As pessoas da comunidade deixaram de utilizar suas indumentárias indígenas e suas danças para esse fim, e focaram em construir um turismo baseado no dia a dia da comunidade, na construção de relações mais próximas entre visitantes e visitados e que ressalta a cultura baré em sua culinária, língua e hospitalidade”, conta a pesquisadora. Houve um planejamento que envolveu desde a recepção dos turistas até a determinação das rotas de visitas em pontos determinados da comunidade.

Essa organização se dá também fora do território de Nova Esperança, onde pessoas da comunidade participam do conselho deliberativo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável e, dentre os assuntos tratados, o turismo é um deles. “Nesse conselho há participantes de instituições de ensino superior, do Estado e de lideranças de comunidades da RDS”, destaca a pesquisadora.

Regras e lucratividade

A população da comunidade de Nova Esperança é composta de 27 famílias. Com o incremento do turismo alternativo, os moradores tiveram melhoradas as condições de seus trabalhos de uma forma geral. “A maioria trabalha com artesanato, turismo, pesca e agricultura familiar, entre outras atividades”, lembra Ana Rosa. No artesanato, por exemplo, os produtos confeccionados podem ser adquiridos virtualmente no site Jirau da Amazônia.

A iniciativa on-line, segundo a pesquisadora, é fruto de uma parceria entre as Lojas Americanas e a Fundação Amazônia Sustentável (FAS). “Com os recursos obtidos desde o início do turismo, Nova Esperança conta atualmente com um posto de saúde e com a capela principal da comunidade. Há também painéis de luz solar a partir da parceria com a FAS”, destaca a pesquisadora, ressaltando ainda que na comunidade há a biblioteca UKA, uma escola indígena que ensina o português e o nheengatu, que é a língua dos barés, e as casas de farinha que compõem o roteiro de visitação.

Ao contrário do turismo praticado anteriormente, a atividade turística de Nova Esperança atualmente é organizada de forma que não venha a prejudicar as rotinas diárias de seus moradores. De acordo com Ana Rosa, o melhor período de visitação ao local é durante a cheia do rio, que acontece entre dezembro e junho, quando as embarcações conseguem chegar ao pequeno porto da comunidade. “Mas há limites nessas visitações”, alerta a pesquisadora. Por um período de cinco anos havia um contrato com um navio cruzeiro, onde em uma visita chegavam cerca de 150 turistas, um número maior do que o de moradores na época. Mas, desde o início do turismo de base comunitária, a comunidade tem contratos celebrados com três empresas de turismo, dentre elas, uma com foco em impacto social positivo.

Um dos benefícios apontados pela pesquisadora é o sentimento de valorização da comunidade, a partir das trocas com turistas que vêm de diferentes lugares do Brasil e do exterior. “Uma fala recorrente nas entrevistas era o orgulho em mostrar quem são os barés, como vivem, qual a cultura, a culinária e, principalmente, que eles se sentiam muito felizes por pessoas virem de longe para os visitar”, ressalta Ana Rosa.

Segundo ela, há a possibilidade de os visitantes ficarem hospedados numa residência indígena. Mas isso é limitado a quatro pessoas e por um período de quatro a seis dias, o que pode acontecer em duas ou até três vezes por mês. Com relação a grupos maiores, em torno de 10 a 15 pessoas, a visitação se resume a passeios rápidos. “Nesse tipo de visitação há, inclusive, a possibilidade de se jogar futebol com as pessoas da comunidade nos finais de tarde”, lembra Ana Rosa. Todas essas atividades são organizadas previamente pela comunidade junto às operadoras de turismo. Como informa a pesquisadora, as empresas pagam uma taxa por visitação. Esse valor cobrado é repassado ao caixa da comunidade para necessidades gerais”, conta.

Atualmente, devido à pandemia de covid-19, as viagens presenciais estão suspensas e como forma de lidar com o impacto econômico, Nova Esperança, em parceria com a agência Braziliando, promove uma viagem on-line à comunidade chamada Conexão Baré. A pesquisa de Ana Rosa contou com  financiamento do programa bolsa demanda social da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) Mestrado e contou também com verba PROAP/CAPES para a realização do Intercâmbio Internacional na Universitat de Girona – Espanha (UdG).

Mais informações: anarosaproenca@alumni.usp.br