Cientistas usam micose de mosquito para controlar malária

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Fungo geneticamente modificado se mostrou eficaz para matar mosquitos contaminados pelo Plasmódio, o protozoário causador da malária

Mosquito

Ainda não existem vacinas capazes de combater a Malária, que atinge 215 milhões de pessoas por ano, matando 500 mil delas. A doença tem cura, mas se espalha rapidamente em ambientes urbanos, onde o mosquito contaminado pelo Plasmódio pode picar várias pessoas em um espaço pequeno.

A melhor forma de prevenção, atualmente, é combater os mosquitos, em geral usando inseticidas e acabando com os locais onde eles se reproduzem. O problema é que os inseticidas são tóxicos para humanos e os mosquitos estão se tornando resistentes. Foi pensando em alternativas que cientistas conseguiram usar um fungo que causa micose em mosquitos para ajudar no combate à malária.

"A ideia é simples", segundo conta Fernando Reinach em artigo publicado neste sábado no jornal O Estado de S. Paulo. "Você pega um pedaço de pano preto (o mosquito prefere pousar em lugares escuros) e pincela no pano uma mistura de óleo de linhaça com esporos do fungo Metarhizium pingshaense, inimigo natural dos insetos. Quando pousa no pano, o esporo gruda no maldito, germina e invade o corpo, provocando enorme micose. Logo o inseto morre e o fundo pode ser observado se reproduzindo no cadáver", explica o biólogo.

Embora funcione bem, o fungo leva muito tempo para matar o mosquito. Para diminuir esse tempo, reduzindo as chances de contaminação de humanos por insetos contaminados com o causador da malária, um grupo de biólogos fez alterações genéticas no fungo, introduzindo nele uma toxina já aprovada como inseticida natural que bloqueia as proteínas necessárias para o funcionamento das células dos mosquitos, acelerando sua morte após a contaminação.

Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Science e explicam o teste feito em Soumousso, perto da capital de Burkina Faso, um dos países africanos mais afetados pela malária. Foram erguidas três casas no meio da cidade, em uma região onde a malária é endêmica. As casas foram completamente isoladas por telas anti-mosquito.

Os cientistas coletaram larvas de mosquitos na cidade e, depois de crescidos, colocaram 100 mosquitos em cada uma das casas. Uma delas tinha apenas um pano preto com óleo de linhaça pendurado, a outra um pano com óleo de linhaça e esporos do fungo sem modificação genética. Na terceira casa, o pano preto continha o óleo e esporos com o fungo modificado com a toxina letal aos insetos.

Um bezerro foi colocado em cada casa como isca, assim como alguns recipientes com água parada. O cenário ideal para a reprodução dos insetos.

Na casa que tinha apenas o óleo de linhaça, 90% dos insetos sobreviveram 14 dias. Na segunda casa, 50% estavam mortos no 10º dia, enquanto na 3ª casa metade dos mosquitos morreu em apenas 6 dias. Porém, com a água e o sangue do bezerro como alimento, novos mosquitos nascem a cada 20 dias.

Para entender se essa taxa seria suficiente para acabar com a reprodução dos insetos, o experimento foi repetido com 2,5 mil mosquitos em cada casa. O resultado foi monitorado por 45 dias e é impressionante.

"Na casa sem esporos [do fungo], os mosquitos se reproduziram e, após 40 dias, sua população explodiu. Na casa com esporos normais no pano preto, a população de insetos não cresceu, mas tampouco foi extinta em 45 dias. Já na casa com os esporos geneticamente manipulados, os mosquitos estavam extintos após 20 dias. Sucesso total", comemora Reinach em seu artigo.

A conclusão é que o fungo contendo a toxina realmente extermina os insetos e pode se tornar uma arma poderosa contra a malária. O kit vai consistir em um pano preto, um vidrinho de óleo de linhaça e um envelope com esporos de fungos, algo barato e fácil de produzir. Então basta a família preparar o pano e colocar na casa. Outra vantagem é que os mosquitos que caem no chão estão lotados de esporos prontos para atacar novos mosquitos.

É possível que os mosquitos se tornem resistentes ao fungo, mas o fungo também deve evoluir sua capacidade de infectar mosquitos, observa Reinach.



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