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Estudo prevê perdas de habitat e revela consequências da expansão da agricultura para a biodiversidade no planeta

Imagem de VgBingi em Pixabay

A perda crescente de biodiversidade no mundo é um fato. É consenso também que a próxima onda de expansão agrícola, alavancada pelo aumento da população global e pelo consumo cada vez maior, poderá levar a perdas imensuráveis de habitats para diversas espécies animais. Diante desse cenário, o que se deve fazer para minimizar os danos? Para encontrar as respostas, pesquisadores britânicos e italianos se reuniram em torno do estudo Proactive conservation to prevent habitat losses to agricultural expansion (“Conservação proativa para prevenir perdas de habitat para a expansão agrícola”), publicado segunda-feira (21) na revista Nature Sustainability.

O objetivo da equipe era descobrir exatamente quais paisagens e quais espécies têm mais probabilidade de sofrer as consequências da expansão da agricultura no futuro, com base nos dados que conhecemos hoje. Além disso, eles se propuseram a revelar que mudanças específicas no sistema alimentar devem acontecer para que a humanidade tenha chances maiores de salvaguardar a biodiversidade selvagem em várias partes do mundo.

Em artigo publicado no periódico The Conversation, dois dos autores do estudo, David Williams e Michael Clark, afirmam que será necessário expandir as ações de conservação convencionais para que essa onda de expansão agrícola não leve a perdas generalizadas de biodiversidade. No entanto, para além dessas medidas, é preciso desde já identificar e enfrentar as causas subjacentes da questão, porque as abordagens convencionais podem não ser capazes de dar conta de todos os fatores que a envolvem.

Segundo os pesquisadores, a ciência conhece as dimensões do problema, mas ainda não sabe o que fazer para combatê-lo. Em parte, isso acontece porque as ações de conservação não recebem financiamento como deveriam; por outro lado, as causas subjacentes do declínio da biodiversidade ficam mais fortes a cada ano. Uma das maiores ameaças à biodiversidade é a destruição dos habitats naturais para expandir a agricultura. Williams e Clark apontam que, até 2050, teremos, segundo previsões mais otimistas, 2 milhões de quilômetros quadrados de novas terras agrícolas no mundo. Esse número, no entanto, pode chegar a 10 milhões, de acordo com algumas estimativas.

Macaco-de-Sclater
Macaco-de-Sclater: este animal da Nigéria pode perder até 99% de seu habitat restante para a agricultura. Imagem editada e redimensionada de LaetitiaC, disponível no Wikimedia e licenciada sob CC-BY 3.0

Perdas serão mais graves na África Subsaariana

Os pesquisadores desenvolveram um método para prever para quais regiões as terras agrícolas provavelmente vão se expandir em escalas espaciais muito finas (1,5 km x 1,5 km). Em seguida, sobrepuseram essas previsões com mapas de habitat para quase 20 mil espécies de anfíbios, pássaros e mamíferos, adicionando observações, como a possibilidade de sobrevivência de cada espécie em terras agrícolas. Isso permitiu à equipe calcular a proporção de habitat que as espécies, individualmente, perderiam entre 2010 e 2050.

Os resultados mostraram que aproximadamente 88% das espécies sofrerão perda de habitat, dentre as quais 1.280 perderão mais de um quarto de seu habitat restante. Observando o impacto sobre as espécies individuais dessa maneira, e numa escala espacial tão fina, foram identificadas regiões específicas, e até mesmo espécies, que provavelmente precisarão seriamente do suporte de ações de conservação nas próximas décadas.

Segundo as estimativas, as perdas serão, provavelmente, mais graves na África Subsaariana, especialmente no Vale do Rift e na África Ocidental equatorial, mas também haverá sérios declínios aqui na América Latina, particularmente na Mata Atlântica, e no Sudeste Asiático. É importante ressaltar que muitas das espécies projetadas para perder uma grande quantidade de habitat não estão ameaçadas atualmente e, portanto, é possível que os conservacionistas não se preocupem com elas. Por isso, estudos como este são importantes para a prevenção proativa das perdas de biodiversidade.

Mudanças proativas para salvar a biodiversidade

De acordo com Williams e Clark, é possível adotar algumas medidas, desde já, para aliviar essas perdas no futuro. Aumento da produção, dietas mais saudáveis, redução do desperdício de alimentos e até mesmo uma abordagem global de planejamento do uso de terra, que desviasse a produção de alimento das regiões com maior risco, são alguns exemplos. Para os pesquisadores, a combinação dessas quatro ações, com esforços conjuntos de governos, empresas, ONGs e sociedade civil, poderia evitar a maior parte das perdas de habitat previstas pelo estudo.

A abordagem permitiu identificar quais abordagens poderiam ter os maiores impactos em diferentes partes do mundo. Na África Subsaariana, por exemplo, os resultados sugerem que o aumento da produção é uma das ações mais efetivas para salvar a biodiversidade. A ideia é que a produção fosse estimulada em áreas muito menores, reduzindo drasticamente a probabilidade de eliminação do habitat.

A adoção de dietas mais saudáveis, por sua vez, pode ter um impacto enorme na América do Norte, reduzindo a demanda por produtos de origem animal e, portanto, a demanda por novas terras agrícolas. Novamente, isso contrasta com a África Subsaariana, onde dietas mais saudáveis ​​podem, na verdade, envolver maior consumo de calorias e de produtos animais e, portanto, não trarão grandes benefícios para a biodiversidade.

É importante ressaltar que o estudo observou somente o impacto da expansão agrícola sobre a biodiversidade, sem considerar outras ameaças que a natureza selvagem enfrenta atualmente, como mudanças climáticas, poluição e extração excessiva de recursos. Por isso, mesmo com as ações propostas pelos pesquisadores, é muito provável que as perdas de biodiversidade aconteçam em larga escala – e que os esforços conservacionistas não sejam capazes de lidar com o problema.

No entanto, a pesquisa sugere que com ações rápidas, ambiciosas e coordenadas, será possível fornecer uma dieta saudável e segura para a população mundial, sem maiores perdas de habitats. Muitas dessas ações deveriam ser prioridade em todos os níveis, de ações individuais até políticas internacionais. Dietas mais saudáveis, menor desperdício de comida e aumento da produção agrícola para melhorar a segurança alimentar são, como apontam os pesquisadores, importantes por si mesmas.



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