Poluição

Mineração ilegal deixou vestígio de mercúrio 50 anos após exploração na Mata Atlântica

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Por Sthephany Oliveira – Jornal da USP | Pesquisa conduzida em quatro biomas brasileiros avaliou qualidade de solos que passaram por atividades ilegais de mineração. Amostras coletadas na Mata Atlântica indicam persistência de contaminação por mercúrio 52 anos após garimpo na região. Diante dos impactos desse resíduo metálico no ecossistema, pesquisadores da USP trazem uma solução baseada no uso de biocarvão, material que absorve o mercúrio e pode repor o carbono no solo.

estudo, realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, investigou de que forma práticas ilegais de mineração e variações climáticas sazonais influenciam a mobilidade do mercúrio no meio ambiente, a qualidade da matéria orgânica e a estrutura da comunidade bacteriana de solos de quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.

Estima-se que cerca de 700 toneladas de mercúrio são depositadas no meio ambiente a cada ano devido à mineração ilegal de ouro, que tendem a se acumular no solo e em ambientes aquáticos. Segundo Matheus Bortolanza Soares, pesquisador e autor do artigo que estudou os impactos da prática no solo, a quantidade de mercúrio despejada é muito maior quando o processo é artesanal, com baixa tecnologia, ferramentas inadequadas ou falta de conhecimento para extrair o minério de forma menos poluidora.

“O mercúrio é usado na mineração para recuperar o pó de ouro, formando a pepita. Então, existe uma razão ideal de mercúrio para a quantidade de ouro. Mas, na mineração ilegal ou artesanal, essas proporções não são necessariamente respeitadas”, afirma Soares ao Jornal da USP.

“Como a mineração ilegal não tem fiscalização adequada, as pessoas que a praticam não são diretamente responsabilizadas e cobradas para recuperar ou mitigar as consequências ambientais do uso da terra garimpada”, explica o autor do artigo, que comparou amostras de solo garimpado com amostras de solo usado para pastagem, observando a perda biológica do solo decorrente da atividade de mineração.

A persistência da contaminação

Entre as áreas avaliadas, apenas as minas no Cerrado e Pantanal permaneceram ativas, ou seja, ainda eram garimpadas e recebiam resíduo de mercúrio continuamente. As minas da Amazônia ficaram inativas por cinco meses, e, na Mata Atlântica, estavam inativas por 52 anos. “Alguns locais monitorados estavam há mais de 50 anos sem exploração de ouro ou outro minério, e ainda apresentavam vestígio do impacto da mineração. Em longo prazo, o mercúrio permaneceu ativo no solo, o que representa um risco para a microbiota, os animais e até os seres humanos, porque esse elemento pode entrar na cadeia alimentar”, afirma Bortolanza.

O trabalho ainda avaliou a influência das condições climáticas na dinâmica do carbono e do mercúrio, que são fortemente controladas pela disponibilidade de oxigênio e pela entrada sazonal de matéria orgânica fresca na terra: “No nosso estudo, foi possível quantificar, de forma inédita, o efeito das chuvas e da seca na reposição de matéria orgânica no solo, que impactam o microbioma”, afirma o autor.

As amostras de solo coletadas foram submetidas a diversas análises, incluindo extração, sequenciamento e processamento de DNA, com o objetivo de avaliar o impacto da atividade de mineração na estrutura e composição da comunidade bacteriana.

O mercúrio é usado na mineração para aglutinar o ouro e formar a pepita – Foto: Wikimedia Commons

Empobrecimento do solo e seleção artificial de bactérias

Com condições climáticas tão diferentes, de bioma para bioma, foi observada a criação de “filtros ambientais”, que refletem as condições hidrológicas e químicas de cada região. Esses filtros foram responsáveis por selecionar comunidades microbianas específicas, que foram favorecidas pela tolerância ao mercúrio e foram capazes de sobreviver e se multiplicar em ambiente de escassez de nutrientes e contaminação. Com o estresse cumulativo por despejo de mercúrio, os pesquisadores acreditam que as mudanças no microbioma do solo alteram os caminhos de decomposição da matéria orgânica e o equilíbrio do solo, ameaçando o armazenamento de carbono e a resiliência do ecossistema.

“Imagine que os microrganismos do solo participam de uma sociedade, onde cada um tem uma função para a manutenção do sistema. Se você reduz a diversidade, algumas funções são perdidas. Como na organização humana, se não houver uma pessoa para tirar o lixo, ele vai se acumular, e isso vai gerar um problema, um desequilíbrio. Quando a mineração reduz o teor de carbono do ambiente, o alimento do microrganismo é removido e ele começa a desaparecer. Somado a isso, quando o mercúrio, que é um contaminante tanto para eles como para a gente, é introduzido no solo, mais espécies de bactérias são eliminadas. Assim, o resultado é uma sociedade com menos quantidade e diversidade de microrganismos, o que compromete diversas funções essenciais”

Segundo Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni, professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq e supervisor do estudo, a sobrevivência de poucas espécies que resistem ao contaminante representa um problema para o solo, que depende da variedade microbiana para manutenção do ecossistema. “Alguns elementos, quando estão na concentração correta no solo, são nutrientes para as plantas. Em doses altas, esses elementos podem se tornar contaminantes. O caso do mercúrio é pior ainda, porque ele não é um nutriente; ou seja, não é importante para a manutenção da vida das plantas nem dos animais, e é extremamente tóxico”, afirma.

Nada se perde e nada se cria, tudo se transforma

O impacto do mercúrio nas regiões de garimpo é ampliado devido à retirada das camadas superficiais do solo que são ricas em matéria orgânica, e que, de acordo com as variações climáticas locais, podem afetar em maior ou menor grau os ciclos biogeoquímicos e causar a degradação de funções ecossistêmicas.

Nas interações entre seres vivos e meio ambiente, alguns elementos químicos são essenciais para a manutenção da vida, como o carbono e o nitrogênio – elementos que circulam entre o solo, a atmosfera e os organismos vivos. Esses ciclos são fundamentais para o funcionamento dos organismos e para o equilíbrio do meio ambiente. A perda de carbono e nitrogênio do solo reduz os nutrientes e a energia disponível para microrganismos, diminuindo a atividade microbiana, a decomposição e a mineralização de nutrientes, que impactam todo o local e ameaçam comunidades humanas adjacentes.

“Os microrganismos são mediadores de uma série de reações que mantêm o equilíbrio do ecossistema. Então não adianta tentar recuperar o solo pensando nele como um sistema não vivo, é preciso pensar estratégias de recuperação que considerem esses seres vivos e as funções que eles desempenham no ambiente.”, destaca Alleoni.

Restauração “viva”

Segundo o especialista, estratégias de restauração ambiental devem priorizar a reconstrução dos estoques de matéria orgânica, a redução da mobilidade do mercúrio e a preservação da diversidade funcional microbiana, focando nas trajetórias de recuperação em longo prazo. “Conhecendo os microrganismos nativos que foram sumindo do solo, qual função eles deixaram de desempenhar, e sabendo que a presença deles é importante para reequilibrar esse ambiente é possível desenvolver estratégias de recuperação, direcionando nutrientes, fertilizantes ou qualquer outro insumo”, destaca Bortolanza.

O pesquisador ainda traz uma solução verde inicial: a utilização de biocarvão. “Como o biocarvão é composto de quase 100% de carbono, ele funcionaria para repor esse elemento no solo, além de reter água e atuar como uma esponja que absorve o mercúrio e reduz a toxicidade e a circulação dele no ambiente. Essa técnica seria a base das estratégias para recuperar uma área minerada, porque ele retém o contaminante, que é extremamente caro e difícil de retirar por outros meios.”

Por permanecer por décadas no solo, o mercúrio acaba sendo absorvido por plantas e animais que interagem com o ambiente e com as comunidades humanas locais. Por isso, a presença do contaminante também oferece risco à saúde humana, podendo infiltrar-se na dieta das pessoas e causar graves intoxicações.

“O solo é sempre lembrado por conta da produção de alimentos, mas ele também funciona como um depósito de lixo, resíduos de indústria e construção civil, poluentes, óleos e todo tipo de material. A química ambiental é uma área crescente que estuda o solo que não necessariamente tem um fim agrícola, mas é afetado pela ação humana. O próprio estudo do Matheus mostra que um elemento tóxico decorrente da mineração ilegal fica por décadas disponível e oferecendo risco à saúde pública”, afirma Alleoni.

Por fim, o professor destaca que, por causa desse impacto na saúde pública, o trabalho apresenta um resultado que pode servir para a formação de novas políticas públicas. “Esse é um papel muito importante que a universidade e os centros de pesquisa cumprem.”

O estudo contou com o apoio do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e foi conduzido em colaboração com o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri (Esalq/USP e CCARBON) e Lucas William Mendes (Cena).

O artigo Illegal gold mining filters soil bacterial communities and enhances mercury mobility across Brazilian biomes: A multi-season study, publicado no Journal of Hazardous Materials, pode ser acessado neste link.

Mais informações: bortolanza@usp.br, com Matheus Bortolanza Soares

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Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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