Imagem de Arezzo Brasil – YouTube publicada no Wikimedia está licenciada sob CC-BY-30
Quando a modelo Gisele Bündchen atribuiu o abandono do veganismo a um quadro de anemia e desconforto digestivo com feijão, reacendeu-se um debate antigo — e frequentemente mal compreendido — sobre a suficiência nutricional de dietas à base de plantas.
A médica Cláudia Esteves, formada pela Universidade Federal de São Paulo e pós-graduanda em nutrologia, é categórica: os motivos apresentados não se sustentam do ponto de vista fisiológico.
“A anemia é um diagnóstico laboratorial, não uma causa em si”, explica a médica. Trata-se da redução da hemoglobina — proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue —, que pode decorrer de múltiplos fatores.
Embora a deficiência de ferro (anemia ferropriva) seja uma das causas possíveis, ela está longe de ser a única. Em mulheres em idade fértil, o principal fator é a perda sanguínea mensal pela menstruação. Gestação e parto também contribuem para o esgotamento das reservas de ferro.
Isso significa que abandonar o veganismonão resolve o problema e parte de uma premissa equivocada:
anemia não se trata com dieta, mas com suplementação adequada.
A médica detalha: uma pessoa com anemia ferropriva pode necessitar de 30 a 60 mg de ferro por dia. Em comparação, 100 g de filé mignon oferecem cerca de 2,7 mg. Para atingir a dose terapêutica apenas com carne, seria necessário consumir mais de 2 kg diariamente — algo impraticável e fora de qualquer recomendação de saúde pública.
Outro ponto central da entrevista é a distinção entre ferro heme (de origem animal) e não-heme (de origem vegetal). Embora o ferro heme tenha maior taxa de absorção, isso não o torna superior em termos absolutos.
Na prática, alimentos vegetais frequentemente apresentam maior concentração de ferro por caloria. Um exemplo comparativo:
Ou seja, mesmo com menor biodisponibilidade, o ferro vegetal pode resultar em maior aporte líquido.
Além disso, estratégias simples potencializam a absorção:
Ainda assim, a médica reforça: essas medidas otimizam a dieta, mas não substituem suplementação em casos de deficiência instalada.
O segundo ponto levantado por Gisele — gases e desconforto com feijão — também tem explicação fisiológica clara.
Leguminosas podem gerar maior produção de gases devido à fermentação de fibras no intestino. No entanto, isso está frequentemente relacionado:
“Quando há uma transição para uma dieta rica em fibras, ocorre uma reorganização da microbiota. Isso pode aumentar temporariamente a produção de gases”, explica.
A tendência, porém, é de melhora em poucos dias.
Há ainda alternativas dentro da própria alimentação vegetal:
Ou seja, o desconforto não exige exclusão do grupo alimentar — mas ajuste.
Segundo a médica, atribuir anemia ao veganismo é uma simplificação inadequada.
“Quando alguém se declara vegano, sabemos apenas o que essa pessoa não consome. Isso não diz nada sobre a qualidade ou variedade da dieta”, afirma.
Dietas monótonas e pobres em nutrientes podem ocorrer tanto em padrões onívoros quanto veganos. E, do ponto de vista epidemiológico, a maioria das pessoas com anemia não é vegana — simplesmente porque a maioria da população consome produtos de origem animal.
A conduta ideal, segundo a especialista, incluiria:
E, sobretudo, acompanhamento por profissional capacitado em nutrição vegetariana.
O caso expõe mais do que uma decisão individual: revela a persistência de conceitos ultrapassados na nutrição pública.
Não há evidência de que o veganismo, quando bem planejado, seja incapaz de atender às necessidades de ferro do organismo. Tampouco há base fisiológica para afirmar que carne “cura” anemia.
Entre mitos e evidências, a entrevista com Cláudia Esteves aponta para um consenso técnico:
não é a exclusão de alimentos que determina a saúde, mas a qualidade, o planejamento e — quando necessário — a intervenção clínica adequada.
Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.
Saiba mais