Estudo global revela que áreas de vegetação campestre e alagadas são substituídas por pastagens e lavouras quase quatro vezes mais rápido do que as florestas, impulsionadas pelo apetite do mercado por carne, grãos e biocombustíveis
Em um momento em que os olhos do mundo se voltam para o desmatamento das florestas tropicais, um ecossistema silenciosamente essencial para o equilíbrio do planeta está desaparecendo em uma velocidade muito superior. Pesquisadores alertam que os campos nativos, savanas e áreas úmidas estão sendo engolidos pela expansão agropecuária em um ritmo que supera em quase quatro vezes o da perda de cobertura florestal em escala global. O alerta, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, escancara uma lacuna nas estratégias de conservação e aponta o dedo para a demanda internacional por alimentos e bioenergia.
Longe de serem meras paisagens abertas ou “terras vazias”, esses biomas funcionam como verdadeiros bancos naturais. Eles abrigam cerca de um terço dos hotspots de biodiversidade do mundo e estocam entre 20% e 35% de todo o carbono absorvido pelo solo no planeta, um serviço ambiental vital para a regulação do clima. A conversão dessas áreas para pastagens ou monoculturas não só libera esse carbono na atmosfera como também destrói habitats e compromete a proteção do solo contra a erosão e a capacidade de armazenamento de água, benefícios que sustentam comunidades locais e ecossistemas inteiros.
A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional com participação da Universidade de Tecnologia Chalmers, na Suécia, analisou dados de 2005 a 2020 para mapear onde, por quê e para quem essa transformação ocorre. O resultado é um retrato detalhado de uma pressão insustentável: o apetite global por carne, leite, cereais, nozes e sementes oleaginosas dita o ritmo da destruição, tanto para abastecer mercados internos quanto para atender à demanda de exportação. O Brasil aparece no topo desse preocupante ranking, concentrando sozinho 13% de toda a área de vegetação não florestal convertida no período, seguido por Rússia, Índia, China e Estados Unidos, cada um com cerca de 6%.
Diferentemente do desmate em florestas, concentrado em países tropicais, a devastação desses outros ecossistemas ocorre também em nações de renda alta e no Leste Europeu, frequentemente dentro das fronteiras da União Europeia. Os pesquisadores ressaltam que a expansão da fronteira agrícola sobre esses territórios permaneceu por muito tempo fora do foco dos debates ambientais. O novo estudo reforça a necessidade de políticas de conservação mais abrangentes, que não se limitem às florestas, e coloca a responsabilidade sobre os ombros de produtores e consumidores integrados nas cadeias de suprimento globais.
A mensagem central da pesquisa é clara: proteger o planeta exige um olhar mais atento a ecossistemas até então negligenciados. Ignorar o desaparecimento acelerado de campos e áreas úmidas significa comprometer a biodiversidade e a estabilidade climática em uma frente muito mais ampla do que se imaginava. A transformação para pasto ou lavoura, uma vez feita, apaga séculos de construção ecológica, e o custo dessa perda se reflete muito além das fronteiras onde a terra é arada ou gradeada.