Estudo amplo associa prática a fatores ecológicos, pressão de predadores e estrutura social, desafiando antigos paradigmas científicos
Um novo estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution demonstra que o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo em primatas não humanos está longe de ser um desvio ou anomalia. A pesquisa, que analisou dados de 491 espécies, revela uma prática enraizada na evolução, impulsionada por pressões ambientais hostis, ameaça de predadores e pela complexidade da organização social desses animais.
A investigação, liderada por Vincent Savolainen do Imperial College London, identificou a ocorrência desses comportamentos em 59 espécies distintas, incluindo lêmures, grandes símios e macacos dispersos pelas Américas, África e Ásia. A ampla distribuição geográfica e taxonômica indica uma origem evolutiva profunda, que desafia a antiga visão do chamado “paradoxo darwiniano”. Durante décadas, parte da comunidade científica considerou tais comportamentos como um contra-senso evolutivo, por não resultarem diretamente na reprodução.
Os resultados apontam que ambientes adversos, com escassez de recursos alimentares, como os habitados pelos macacos-da-berberia, apresentam maior frequência dessas interações. Espécies sob constante ameaça de predadores, a exemplo dos macacos-vervet na África, que precisam evitar felinos e cobras, também exibiram padrões semelhantes. Uma hipótese levantada pelos pesquisadores sugere que o comportamento homossexual pode atuar como um mecanismo de alívio da tensão social e de coesão de grupo em cenários de alto estresse.
A organização social das espécies mostrou-se outro fator determinante. Em sociedades com hierarquias mais rígidas e competição intensa, onde os machos são significativamente maiores que as fêmeas – como observado nos gorilas-das-montanhas –, a incidência é mais comum. Nesses contextos, interações entre machos do mesmo sexo podem fortalecer alianças, facilitar a gestão de conflitos e, paradoxalmente, garantir acesso privilegiado às fêmeas, beneficiando o sucesso reprodutivo indireto.
Pesquisas anteriores da mesma equipe em macacos rhesus já haviam demonstrado que alianças formadas através desses comportamentos podiam levar a mais acasalamentos com fêmeas. Um estudo de 2023 ainda apontou uma herança genética parcial para a característica, com transmissão observada em mais de 6% dos casos, dependendo de uma conjugação de fatores.
O trabalho ressalta que o comportamento funciona como uma estratégia social flexível, moldada pelas pressões ecológicas e sociais específicas de cada espécie. Embora os pesquisadores admitam que fatores similares possam ter influenciado os ancestrais humanos, eles fazem um alerta contra extrapolações simplistas. A complexidade da orientação e preferência sexual nas sociedades humanas modernas possui dimensões culturais e identitárias que transcendem as observadas em outros primatas.
Antropólogos como Isabelle Winder, da Universidade de Bangor, destacam o valor da pesquisa por aplicar métodos comparativos modernos para iluminar a evolução de comportamentos complexos. O estudo conclui enfatizando a necessidade de interpretações cuidadosas, evitando o uso indevido de suas descobertas para alimentar noções equivocadas sobre a natureza humana ou a diversidade sexual.
Mais informações: Vincent Savolainen, Pressões ecológicas e sociais impulsionam o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo em primatas não humanos,
Nature Ecology & Evolution (2026).
DOI: 10.1038/s41559-025-02945-8 .
www.nature.com/articles/s41559-025-02945-8