Foto de Ricardo Gomez Angel no Unsplash
Você provavelmente tem pelo menos uma peça jeans no seu armário, talvez esteja usando uma agora. A moda jeanswear é confortável, acessível e atemporal. Por outro lado, o impacto do jeans, causado pela produção em alta escala, gera degradação ambiental e problemas sociais.
O jeans se tornou peça-chave em muitos guarda-roupas ao redor do mundo pois é versátil. Mas em tempos de crise climática, a versatilidade deve ir além. Para ser versátil, tem que ser sustentável.
A produção de jeans se dá a partir do tecido conhecido como denim, que é produzido com fios de algodão entrelaçados.
O tecido foi patenteado em 1873, nos Estados Unidos. Desde então o jeans, que era utilizado exclusivamente em calças, passou de geração em geração e ganhou o mundo com diversas peças.
Com o aumento da produção, aumentou também o impacto socioambiental causado pela indústria do jeans. Antes de chegar até você, o jeans passa por um processo longo – que começa no cultivo do algodão.
A produção de algodão, base do jeans, está diretamente ligada a impactos ambientais significativos. Dados da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa) mostram que a área plantada, em 2025, chegou a 2,05 milhões de hectares. A escala é tão grande que nem três milhões de campos de futebol dão ideia do tamanho.
As principais regiões de cultivo do algodão no Brasil são o nordeste e o centro-oeste. O Mato Grosso se destaca, abrangendo uma grande área do Cerrado brasileiro.
O Cerrado é um dos biomas mais ameaçados do País. Estima-se que cerca de 50% do bioma já se extinguiu. Os dados são de 2024. A expansão da agricultura, incluindo o cultivo de algodão, está entre os principais fatores dessa degradação, junto com a agropecuária, a mineração e a expansão urbana.
Segundo a Embrapa, até 2022 o Brasil era o 4º maior produtor de algodão do mundo, atrás da China, Índia e Estados Unidos. Em 2023, com o aumento da produção, o Brasil passou para o 3º lugar.
O cultivo de algodão sustenta um dos pilares do agronegócio brasileiros (junto com soja, milho e cana-de-açúcar). Esse fato está diretamente associado ao uso intensivo de agrotóxicos.
Entre janeiro de 2019 e junho de 2022, 1081 novos agrotóxicos foram aprovados no Brasil – sendo 386 destinados ao algodão.
Além de afetar os ecossistemas e causar contaminação do solo, ar e água, essas substâncias estão entre as principais causas de intoxicação humana no campo. Também podem afetar diretamente a fauna aquática.
Estudos mostram que, em menos de 24 horas de exposição, embriões de peixes podem morrer em contato com esses compostos. Além das questões relacionadas ao cultivo do algodão, a produção do denim tem outras etapas que também impactam na vida das pessoas e do meio ambiente.
O impacto do jeans vai muito além do que você imagina: a produção envolve alto consumo de água, uso de produtos químicos e descarte inadequado de resíduos, tornando o processo altamente poluente. Em algumas regiões do Brasil, esses efeitos já prejudicam o meio ambiente e a saúde da população.
No Brasil, um dos principais polos de produção de jeans é o Polo de Confecções do Agreste Pernambucano.
O polo é formado por cerca de 18 mil empresas, entre confecções e lavanderias industriais. Essas lavanderias estão distribuídas nas cidades de Caruaru, Toritama, Riacho da Almas, Santa Cruz do Capibaribe e Surubim. Dessas, Toritama é também conhecida como a capital do jeans.
O azul clássico do seu jeans pode estar contaminando rios inteiros. A cidade, com um pouco mais de 41 mil habitantes, faz parte da Caatinga e sofre com estiagem e secas a maior parte do ano. Ainda assim, segundo a prefeitura de Toritama, a cidade conta com cerca de 70 lavanderias industriais, que dispõem de uma enorme demanda de água para a lavagem do jeans.
Essa etapa do processo de produção despeja água não tratada em rios e córregos da região, principalmente no rio Capibaribe. O rio, que abrange 42 municípios pernambucanos, fica com suas águas na cor índigo, do corante que tinge as peças. Além disso, o rio também recebe outros resíduos tóxicos, em consequência dos produtos químicos utilizados na lavagem.
Grande parte das lavanderias, e até mesmo as facções de costura, vem de empresas familiares, instaladas em zonas residenciais. Além da pegada hídrica causada pelo uso e descarte inadequados da água, outros fatores contribuem para impactos socioambientais. O ruído das máquinas, o descarte impróprio de resíduos sólidos – que degrada o solo – e a emissão de gases tóxicos, resultante da ausência de filtros no maquinário, afetam diretamente a saúde da comunidade local, causando problemas respiratórios recorrentes.
Um estudo, publicado pela Nature, sugere um novo método, que promete diminuir a toxicidade do processo de tingimento do jeans.
De acordo com o estudo, o índigo é a única molécula conhecida capaz de produzir o tom azul clássico do jeans. No processo normal, o corante índigo necessita de substâncias, como o ditionito, para que possa se dissolver.
O ditionito, ou hidrossulfito de sódio, é uma substância:
Cientistas escandinavos encontraram uma solução que mantém o jeans azul, reduzindo os impactos ambientais: o indican (indoxil-β-glicosídeo). Na prática, isso significa uma tentativa de manter a cor azul do jeans com menos impacto ambiental.
O indican é a forma natural de armazenamento do índigo nas plantas, formado por:
O índigo é obtido naturalmente por meio de fermentação de folhas de espécies de plantas anileiras (esse nome vem da cor “anil”, sinônimo de índigo). A Indigofera suffruticosa é uma dessas espécies vegetais.
O indican pode ser usado sem agentes redutores, como o ditionito, graças a um processo de engenharia enzimática do indoxil, que envolve:
De acordo com o estudo, o substrato deve ter efeitos neutros na produção de corantes, já que não envolve produtos químicos agressivos e nem representa riscos à saúde, como o corante índigo convencional.
A partir daí, foram testados alguns processos de tingimento do tecido:
Segundo o estudo, o impacto ambiental do tingimento do jeans pode ser reduzido em:
Os cientistas calcularam esses percentuais considerando principalmente a potencial redução do aquecimento global:
Apesar de não terem encontrado um método ideal e livre de impacto, a substituição do corante índigo convencional pelo indican pode:
Além dos processos produtivos, o capital humano é essencial na produção do jeans. Os problemas desses trabalhadores vão além da exposição a produtos químicos.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostrou que a região padece de condições precárias de trabalho. São frequentes as violações de direitos trabalhistas e até trabalho infantil.
Grande parte da força de trabalho em Toritama se concentra em micro e pequenas fábricas ou lavanderias. Nesses locais, sem qualquer fiscalização, as relações e condições de trabalho são extrapoladas. Carteira assinada e direitos trabalhistas garantidos apenas aos trabalhadores formais das fábricas de médio e grande porte.
Uma grande parcela dos trabalhadores prefere ser pago de acordo com a quantidade de peças produzidas. Quanto maior a produção, maior o lucro. No entanto, o ganho com as longas jornadas ainda é baixo, implicando em problemas físicos e emocionais. O estudo aponta que 52% dos trabalhadores de Toritama têm jornadas de trabalho de 12 horas ou mais por dia.
Outra pesquisa, realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) mostrou que as facções de jeans em Toritama, em sua maioria, são lideradas por mulheres. Muitas vezes, essas mulheres têm sua trajetória escolar interrompida devido ao acúmulo de tarefas. A soma do trabalho nas facções com o trabalho doméstico evidencia a desigualdade de gênero. Além disso, a maior parcela dessas trabalhadoras atua na informalidade. É uma conta que não fecha.
Depois de entender os impactos ambientais e sociais da produção de jeans, fica claro que nossas escolhas de consumo fazem diferença.
Uma pesquisa realizada pela PwC e pelo Instituto Locomotiva analisou o comportamento de consumidores e líderes corporativos. Os resultados mostram que:
No entanto, muitos consumidores ainda não têm o costume de imaginar todo o processo produtivo por trás dos bens que consomem. O consumo consciente e o compromisso com aquilo que aprovamos, incentivamos e financiamos é de extrema importância.
Além das questões sociais, o consumo consciente envolve também questões ambientais. Notícias sobre o aquecimento global, suas causas e suas consequências estão em evidência diariamente – e os efeitos já começam a ser sentidos.
A maneira como nos vestimos diz muito sobre nós. É uma forma de demonstrar personalidade, trabalhar nossa visão de nós mesmos, elevar a autoestima. Mas nos tempos, consumir vai além do simples ato de comprar: é um compromisso com sustentabilidade e impacto social.
Buscar saber sobre os processos produtivos de tudo o que consumimos nos traz uma valiosa oportunidade de reflexão e consequente construção de novos hábitos, além de apoiar iniciativas sustentáveis e que colaboram para o bem-estar das pessoas e do planeta. O impacto jeans começa antes mesmo da peça existir. Da próxima vez que você for comprar uma peça, vale a pena se perguntar: de onde ela veio e qual impacto ela deixou pelo caminho?
Quer saber como aderir ao slow fashion na prática? A gente te mostra no vídeo:
Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.
Saiba mais