Ciência & Meio Ambiente

Impacto jeans: o custo oculto da peça que nunca sai de moda

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Você provavelmente tem pelo menos uma peça jeans no seu armário, talvez esteja usando uma agora. A moda jeanswear é confortável, acessível e atemporal. Por outro lado, o impacto do jeans, causado pela produção em alta escala, gera degradação ambiental e problemas sociais.

O jeans se tornou peça-chave em muitos guarda-roupas ao redor do mundo pois é versátil. Mas em tempos de crise climática, a versatilidade deve ir além. Para ser versátil, tem que ser sustentável.

Qual é o impacto do jeans e por que ele preocupa

A produção de jeans se dá a partir do tecido conhecido como denim, que é produzido com fios de algodão entrelaçados. 

O tecido foi patenteado em 1873, nos Estados Unidos. Desde então o jeans, que era utilizado exclusivamente em calças, passou de geração em geração e ganhou o mundo com diversas peças.

Com o aumento da produção, aumentou também o impacto socioambiental causado pela indústria do jeans. Antes de chegar até você, o jeans passa por um processo longo – que começa no cultivo do algodão.

O algodão é tão sustentável quanto parece?

A produção de algodão, base do jeans, está diretamente ligada a impactos ambientais significativos. Dados da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa) mostram que a área plantada, em 2025, chegou a 2,05 milhões de hectares. A escala é tão grande que nem três milhões de campos de futebol dão ideia do tamanho.

As principais regiões de cultivo do algodão no Brasil são o nordeste e o centro-oeste. O Mato Grosso se destaca, abrangendo uma grande área do Cerrado brasileiro. 

Como o cultivo de algodão afeta o Cerrado

O Cerrado é um dos biomas mais ameaçados do País. Estima-se que cerca de 50% do bioma já se extinguiu. Os dados são de 2024. A expansão da agricultura, incluindo o cultivo de algodão, está entre os principais fatores dessa degradação, junto com a agropecuária, a mineração e a expansão urbana. 

O uso de agrotóxicos no algodão e seus impactos

Segundo a Embrapa, até 2022 o Brasil era o 4º maior produtor de algodão do mundo, atrás da China, Índia e Estados Unidos. Em 2023, com o aumento da produção, o Brasil passou para o 3º lugar. 

O cultivo de algodão sustenta um dos pilares do agronegócio brasileiros (junto com soja, milho e cana-de-açúcar). Esse fato está diretamente associado ao uso intensivo de agrotóxicos

Entre janeiro de 2019 e junho de 2022, 1081 novos agrotóxicos foram aprovados no Brasil – sendo 386 destinados ao algodão. 

Além de afetar os ecossistemas e causar contaminação do solo, ar e água, essas substâncias estão entre as principais causas de intoxicação humana no campo. Também podem afetar diretamente a fauna aquática.

Estudos mostram que, em menos de 24 horas de exposição, embriões de peixes podem morrer em contato com esses compostos. Além das questões relacionadas ao cultivo do algodão, a produção do denim tem outras etapas que também impactam na vida das pessoas e do meio ambiente.

Foto de Trisha Downing no Unsplash

O jeans pode ser mais poluente do que você imagina

O impacto do jeans vai muito além do que você imagina: a produção envolve alto consumo de água, uso de produtos químicos e descarte inadequado de resíduos, tornando o processo altamente poluente. Em algumas regiões do Brasil, esses efeitos já prejudicam o meio ambiente e a saúde da população.

Produção de jeans no Brasil: impactos reais

No Brasil, um dos principais polos de produção de jeans é o Polo de Confecções do Agreste Pernambucano. 

Toritama: a capital do Jeans e seus desafios

O polo é formado por cerca de 18 mil empresas, entre confecções e lavanderias industriais. Essas lavanderias estão distribuídas nas cidades de Caruaru, Toritama, Riacho da Almas, Santa Cruz do Capibaribe e Surubim. Dessas, Toritama é também conhecida como a capital do jeans.

Consumo de água e poluição no processo do jeans

O azul clássico do seu jeans pode estar contaminando rios inteiros. A cidade, com um pouco mais de 41 mil habitantes, faz parte da Caatinga e sofre com estiagem e secas a maior parte do ano. Ainda assim, segundo a prefeitura de Toritama, a cidade conta com cerca de 70 lavanderias industriais, que dispõem de uma enorme demanda de água para a lavagem do jeans

Essa etapa do processo de produção despeja água não tratada em rios e córregos da região, principalmente no rio Capibaribe. O rio, que abrange 42 municípios pernambucanos, fica com suas águas na cor índigo, do corante que tinge as peças. Além disso, o rio também recebe outros resíduos tóxicos, em consequência dos produtos químicos utilizados na lavagem.

Impacto jeans na saúde das comunidades

Grande parte das lavanderias, e até mesmo as facções de costura, vem de empresas familiares, instaladas em zonas residenciais. Além da pegada hídrica causada pelo uso e descarte inadequados da água, outros fatores contribuem para impactos socioambientais. O ruído das máquinas, o descarte impróprio de resíduos sólidos – que degrada o solo – e a emissão de gases tóxicos, resultante da ausência de filtros no maquinário, afetam diretamente a saúde da comunidade local, causando problemas respiratórios recorrentes.

Tingimento do jeans: onde está o maior impacto 

Um estudo, publicado pela Nature, sugere um novo método, que promete diminuir a toxicidade do processo de tingimento do jeans.

O problema do corante índigo

De acordo com o estudo, o índigo é a única molécula conhecida capaz de produzir o tom azul clássico do jeans. No processo normal, o corante índigo necessita de substâncias, como o ditionito, para que possa se dissolver. 

Por que o ditionito é perigoso 

O ditionito, ou hidrossulfito de sódio, é uma substância:

  • nociva, tóxica e inflamável; 
  • perigosa para a saúde humana, podendo provocar irritação nos olhos, nos sistemas respiratório e gastrointestinal, além de queimaduras, vermelhidão, coceira e dor;
  • prejudicial para o meio ambiente, contaminando solo e água, e nociva para os seres vivos aquáticos, principalmente durante sua decomposição.

Indican: alternativa mais sustentável

Cientistas escandinavos encontraram uma solução que mantém o jeans azul, reduzindo os impactos ambientais: o indican (indoxil-β-glicosídeo). Na prática, isso significa uma tentativa de manter a cor azul do jeans com menos impacto ambiental.

O indican é a forma natural de armazenamento do índigo nas plantas, formado por:

  • glicosídeo: composto orgânico formado a partir de açúcar (glicona) e genina (aglicona, molécula sem açúcar) de uma substância;
  • indoxil: composto orgânico precursor do índigo. Em outras palavras, é a forma de armazenamento natural do índigo.

O índigo é obtido naturalmente por meio de fermentação de folhas de espécies de plantas anileiras (esse nome vem da cor “anil”, sinônimo de índigo). A Indigofera suffruticosa é uma dessas espécies vegetais. 

Como o indican é obtido e aplicado

O indican pode ser usado sem agentes redutores, como o ditionito, graças a um processo de engenharia enzimática do indoxil, que envolve: 

  • desenvolvimento de produtos biotecnológicos;
  • estudo de enzimas como catalisadoras de reações químicas (aumentam a velocidade das reações);
  • técnicas de mutagênese (alteração genética) na espécie vegetal Persicaria tinctoria, para produzir o substrato indican quimio-enzimático

De acordo com o estudo, o substrato deve ter efeitos neutros na produção de corantes, já que não envolve produtos químicos agressivos e nem representa riscos à saúde, como o corante índigo convencional. 

Testes de tingimento: enzimático e fotolítico

A partir daí, foram testados alguns processos de tingimento do tecido:

  1. Tingimento enzimático apresentou problemas, como: 
  • aumento do consumo de água em 118%; 
  • aumento da eutrofização marinha em 228%.
  1. Tingimento fotolítico – combina o indican com luz artificial (mais eficiente do que a luz natural), podendo ser competitivo com lâmpadas de LED. Esse método também envolve etapas de imersões no indican e em uma solução aquosa ácida. Ou seja, ainda há uso de água e descarte de substâncias químicas.

Resultados e potencial de redução ambiental

Segundo o estudo, o impacto ambiental do tingimento do jeans pode ser reduzido em:

  • até 73% com tingimento fotolítico;
  • 92% com tingimento enzimático, apesar das questões relacionadas ao consumo de água e outros impactos.

Os cientistas calcularam esses percentuais considerando principalmente a potencial redução do aquecimento global:

  • O tingimento fotolítico utiliza menos recursos minerais e terrestres. 
  • O tingimento enzimático diminui a toxicidade hídrica e humana, a eutrofização em água doce, a radiação ionizante e o consumo de água.

Impacto social e capital humano

Apesar de não terem encontrado um método ideal e livre de impacto, a substituição do corante índigo convencional pelo indican pode: 

  • evitar a emissão de 3,5 megatoneladas de CO2 por ano (considerando a comercialização anual de 4 bilhões de peças jeans); 
  • reduzir a exposição de milhares de trabalhadores a produtos químicos nocivos à saúde. 

Além dos processos produtivos, o capital humano é essencial na produção do jeans. Os problemas desses trabalhadores vão além da exposição a produtos químicos.

Impacto social da indústria do jeans

Condições de trabalho em Toritama

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostrou que a região padece de condições precárias de trabalho. São frequentes as violações de direitos trabalhistas e até trabalho infantil

Informalidade e jornadas excessivas

Grande parte da força de trabalho em Toritama se concentra em micro e pequenas fábricas ou lavanderias. Nesses locais, sem qualquer fiscalização, as relações e condições de trabalho são extrapoladas. Carteira assinada e direitos trabalhistas garantidos apenas aos trabalhadores formais das fábricas de médio e grande porte. 

Uma grande parcela dos trabalhadores prefere ser pago de acordo com a quantidade de peças produzidas. Quanto maior a produção, maior o lucro. No entanto, o ganho com as longas jornadas ainda é baixo, implicando em problemas físicos e emocionais. O estudo aponta que 52% dos trabalhadores de Toritama têm jornadas de trabalho de 12 horas ou mais por dia.

Desigualdade de gênero no setor

Outra pesquisa, realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) mostrou que as facções de jeans em Toritama, em sua maioria, são lideradas por mulheres. Muitas vezes, essas mulheres têm sua trajetória escolar interrompida devido ao acúmulo de tarefas. A soma do trabalho nas facções com o trabalho doméstico evidencia a desigualdade de gênero. Além disso, a maior parcela dessas trabalhadoras atua na informalidade. É uma conta que não fecha.

Como diminuir o impacto jeans e o que você pode fazer a respeito

Depois de entender os impactos ambientais e sociais da produção de jeans, fica claro que nossas escolhas de consumo fazem diferença.

Uma pesquisa realizada pela PwC e pelo Instituto Locomotiva analisou o comportamento de consumidores e líderes corporativos. Os resultados mostram que: 

  • 86% dos entrevistados estão dispostos a mudar hábitos de consumo, priorizando marcas com responsabilidade socioambiental
  • 53% dos entrevistados já substituíram marcas e produtos que não se preocupavam com questões ambientais e sociais.

No entanto, muitos consumidores ainda não têm o costume de imaginar todo o processo produtivo por trás dos bens que consomem. O consumo consciente e o compromisso com aquilo que aprovamos, incentivamos e financiamos é de extrema importância.

Além das questões sociais, o consumo consciente envolve também questões ambientais. Notícias sobre o aquecimento global, suas causas e suas consequências estão em evidência diariamente – e os efeitos já começam a ser sentidos.

A maneira como nos vestimos diz muito sobre nós. É uma forma de demonstrar personalidade, trabalhar nossa visão de nós mesmos, elevar a autoestima. Mas nos tempos, consumir vai além do simples ato de comprar: é um compromisso com sustentabilidade e impacto social

Dicas práticas para reduzir o impacto jeans no dia a dia

  • Seja consciente: se pergunte se você realmente precisa daquela peça de roupa ou sapatos novos.
  • Priorize marcas responsáveis: procure por empresas com responsabilidade socioambiental, incluindo marcas de jeans sustentável com algodão orgânico.
  • Pesquise sobre o Algodão Rastreado (Better Cotton), que utiliza a tecnologia de blockchain, garantindo a origem do produto.
  • Aposte em brechós: é uma forma de comprar peças de qualidade com preços mais acessíveis. Além disso, contribui para uma economia circular.
  • Abuse do slow fashion: consuma menos, escolha melhor, priorize a produção local e prolongue a vida útil das suas roupas.

Buscar saber sobre os processos produtivos de tudo o que consumimos nos traz uma valiosa oportunidade de reflexão e consequente construção de novos hábitos, além de apoiar iniciativas sustentáveis e que colaboram para o bem-estar das pessoas e do planeta. O impacto jeans começa antes mesmo da peça existir. Da próxima vez que você for comprar uma peça, vale a pena se perguntar: de onde ela veio e qual impacto ela deixou pelo caminho?

Quer saber como aderir ao slow fashion na prática? A gente te mostra no vídeo:

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Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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