Amazônia

Barulho de hidrovia pode comprometer a sobrevivência de tartarugas no Tapajós

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Por Fernanda Wenzel – Mongabay | É apenas um som doce e estridente, como o de um patinho de borracha. Para os cientistas, no entanto, pode ter vários significados, que vão desde “hora de desovar!” a “vamos lá, filhotes!” e “hora de migrar!”. Cientistas que estudam a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), a maior tartaruga de água doce da América do Sul, descobriram que as crias começam a se comunicar mesmo antes do nascimento, provavelmente para combinarem o melhor momento de sair dos ovos e escavar a areia até à praia.

“A tartaruga-da-amazônia é uma das espécies de quelônios mais sociáveis do mundo”, disse à Mongabay a pesquisadora Camila Rudge Ferrara, que comprovou pela primeira vez as capacidades de comunicação destes animais. “Elas migram em grupo, desovam em grupo, nascem em grupo.” Camila também é coordenadora do Programa de Conservação de Quelônios da organização sem fins lucrativos Wildlife Conservation Society no Brasil (WCS Brasil).

Em breve, porém, o murmúrio das tartarugas-da-amazônia no Rio Tapajós, um importante afluente do Amazonas, poderá ser perturbado pelo ruído de dragas, balsas e barcos circulando por uma ambiciosa via de navegação planejada pelo governo federal. O objetivo é transportar minerais e cereais até ao porto de Santarém, no Pará.

“O som da dragagem e das embarcações vai interferir na comunicação das tartarugas”, explicou Camila, destacando que ainda são necessárias pesquisas sobre o assunto. “A alta frequência embaixo da água deve atrapalhar a migração destes animais.”

A última avaliação da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que aguarda revisão, declarou que a espécie está em perigo de extinção.

O Rio Tapajós abriga a segunda área de reprodução mais importante da tartaruga-da-amazônia: uma ilha arenosa chamada Tabuleiro do Monte Cristo, localizada a 43 quilômetros do município de Itaituba. Todos os anos, por volta de agosto, milhares de fêmeas migram de diferentes partes do Tapajós e reúnem-se em frente ao Tabuleiro.

As tartarugas passam um mês se preparando para desovar, em um ritual que envolve prolongados banhos de sol. À noite, grupos de até mil fêmeas começam a sair da água para depositar seus ovos em grandes buracos escavados na praia.

“A tartaruga-da-amazônia é muito seletiva na escolha do local para construir o ninho”, disse à Mongabay o analista ambiental do Ibama, Roberto Lacava.

No Tabuleiro do Monte Cristo, a espécie encontra o seu tipo de areia preferido. O terreno elevado também minimiza o risco de inundação dos ninhos no caso de altas súbitas no nível do rio.

“A tartaruga tem fidelidade ao Tabuleiro”, disse Roberto, que coordena o Programa Quelônios da Amazônia (PQA) do Ibama no Pará. “O indivíduo que vai desovar no Tabuleiro do Monte Cristo volta no ano seguinte para desovar lá de novo.”

A tartaruga-da-amazônia é a maior tartaruga de água doce da América do Sul, com 90 centímetros de comprimento e cerca de 65 kg de peso. Foto: Camila Ferrara/WCS Brasil.

Em 2025, o Ibama estimou que 19.447 fêmeas nidificaram na área, cada uma depositando entre 100 e 150 ovos. Estes números impressionantes são o resultado de um esforço de cinco décadas. Em 1979, quando o Ibama começou a trabalhar na área, apenas 327 fêmeas depositaram seus ovos no Tabuleiro.

Apesar da presença constante no Rio Tapajós, a equipe do Ibama foi pega de surpresa em março de 2025, quando dragas começaram a revolver o leito do rio perto do Tabuleiro, a mando do Departamento Nacional de Infraestruturas de Transportes (DNIT). “Se uma obra dessa magnitude vai ser feita na região, a gente precisa ser avisado”, disse Roberto. “A gente precisa poder opinar sobre qual o melhor momento para se fazer essas intervenções no rio, para que não atrapalhe as tartarugas.”

A Secretaria do Meio Ambiente do Pará, que autorizou a dragagem, argumentou que se tratava de uma operação de emergência para garantir a navegabilidade do rio em meio a “uma situação crítica de estiagem.”

Rota estratégica para o agronegócio

Não é segredo, no entanto, que o governo federal tem planos maiores para o Rio Tapajós.

A hidrovia é uma peça chave do chamado Arco Norte, uma série de obras de infraestrutura projetadas para facilitar a exportação de commodities como soja e milho. O corredor logístico integraria a BR-163, a navegação pelo Tapajós e a ferrovia Ferrogrão, um projeto polêmico que promete reduzir em 30% os custos de transporte ao conectar as áreas de cultivo do Mato Grosso ao porto de Miritituba. O projeto inclui ainda uma via navegável ao longo dos rios Araguaia e Tocantins, onde o Pedral do Lourenço (ou Lourenção) — uma formação rochosa singular — seria dinamitada para abrir espaço para as barcaças.

Esta rede logística é considerada fundamental para as exportações brasileiras e para os planos da China de ligar as áreas de produção de grãos e minérios ao recém-inaugurado Porto de Chancay, no Peru. Uma vez chegando ao norte do Brasil, os produtos cruzariam a Amazônia em direção ao porto peruano no Pacífico em uma ferrovia de 3 mil quilômetros.

Em 2015, um estudo encomendado pelo DNIT previa a expansão do trecho navegável do Rio Tapajós dos atuais 345 km para 1.789 km por meio de intervenções como a dragagem do leito do rio e a detonação de rochas. Como resultado, cerca de 30 milhões de toneladas de carga, principalmente soja e milho, circulariam por ano na hidrovia em comboios de barcaças de até 205 metros de comprimento — o equivalente a um arranha-céu de 70 andares deitado no rio. O projeto inclui também a construção de seis terminais fluviais e a expansão de um porto de transbordo em Itaituba.

Em e-mail enviado à Mongabay, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que o traçado proposto em 2015 está sendo revisto: “As avaliações em curso consideram um recorte distinto da hidrovia, ainda em definição técnica” (leia a resposta completa aqui.) O DNIT, responsável pela dragagem de rotina anual, informou à Mongabay que no momento não há obras de manutenção programadas no Rio Tapajós (leia a resposta completa aqui).

“A gente não sabe o impacto nas tartarugas caso haja navios de grande calado, transoceânicos, passando ali”, disse Roberto. “Pode ser se que aconteça algo similar ao que aconteceu no Rio Trombetas”, acrescentou, referindo-se a outro importante local de desova de tartarugas-da-amazônia, no norte do Pará.

No início da década de 1980, o tráfico de embarcações no Trombetas se intensificou fortemente depois que um porto foi instalado para transportar a bauxita extraída pela empresa Mineração Rio do Norte. Segundo Roberto, nos anos seguintes, o número de tartarugas fêmeas que nidificavam na área caiu de 7 mil para menos de 700.

“Apesar de não ser confirmado o real motivo do declínio, existe uma grande possibilidade de que o tráfego de grandes embarcações esteja relacionado”, escreveu Roberto em uma nota técnica enviada ao Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA).

O receio dos especialistas é que os projetos de infraestrutura potencializem os problemas já existentes na Bacia do Tapajós, como desmatamento, grilagem de terras, garimpo ilegal e a contaminação das águas pelo mercúrio. Projetos como a Ferrogrão têm enfrentado intensa oposição de grupos indígenas, como os Kayapó e os Munduruku, já que o traçado corta unidades de conservação e territórios tradicionais.

Em 2025, o governo federal lançou um edital para contratar uma empresa para dragar anualmente o trecho do Rio Tapajós entre Santarém e Itaituba, pelos próximos três anos. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva Também incluiu a hidrovia no Programa Nacional de Desestatização.

Em fevereiro de 2026, o presidente recuou em ambas as medidas depois que indígenas de mais de 20 etnias ocuparam o terminal da Cargill em Santarém para protestar contra a hidrovia. O governo prometeu suspender o projeto até que todas as comunidades afetadas sejam consultadas.

De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos, “os estudos relacionados ao desenvolvimento da hidrovia se encontram em fase de avaliação técnica e ambiental” e serão apresentados para consulta pública quando concluídos.

Conversa de bebês

Encontrada em toda a Bacia Amazônica, a tartaruga-da-amazônia pode viver mais de 40 anos, sendo que alguns indivíduos chegam a ultrapassar os 100 anos segundo Roberto.

No Brasil, que concentra 60% da população de P. expansa, a espécie sofreu um declínio acentuado no século 19. O óleo de tartaruga, utilizado para iluminar cidades como Manaus e Belém, colocou a espécie na mira dos caçadores.

A carne da tartaruga é também um componente importante da dieta amazônica, incluindo as comunidades indígenas e ribeirinhas. No entanto, a maior ameaça vem do consumo massivo nos grandes centros urbanos, alimentado pelo tráfico de animais selvagens.

“O problema são estes traficantes que abastecem as cidades”, afirmou Camila Ferrara, da WCS. “São estas grandes capturas de tartarugas que estão dizimando a população da espécie.”

As tartarugas bebês começam a se comunicar umas com as outras ainda dentro dos ovos. Foto: Camila Ferrara/WCS Brasil.

Um dos objetivos do Programa de Quelônios da Amazônia, do Ibama, é combater o tráfico de animais selvagens pelo monitoramento dos locais de reprodução. Entre 1979 e 2022, o número total de filhotes nascidos nas 11 principais áreas de reprodução monitoradas pelo programa aumentou 95%, revelou um estudo de Roberto Lacava.

No Tabuleiro do Monte Cristo, mais de 1 milhão de tartarugas nasceram em 2025. Os dias de eclosão dos ovos são aguardados ansiosamente por crianças e adultos das comunidades ribeirinhas do entorno, que vão à praia para ver os bichinhos saindo de dentro da areia.

“É bonito demais aquilo ali”, disse Francisco de Sousa, que vive na comunidade de Monte Cristo, em frente ao Tabuleiro. Há cinco anos ele trabalha com o Ibama monitorando o local, além de pilotar lanchas e cuidar da base do instituto no Tabuleiro. “É satisfatório porque a gente trabalha o ano inteiro e, quando chega no final do ano, que é a eclosão, a gente se sente abençoado por aquela colheita. Porque é uma colheita do que a gente plantou.” Durante a época de eclosão, ele vai ao Tabuleiro todas as manhãs bem cedo para contar filhote por filhote, e depois soltar os bebês no rio.

Segundo Camila, as tartarugas recém-nascidas começam a se comunicar umas com as outras cerca 36 horas antes de quebrar os ovos. “Elas fazem isso para sincronizar o nascimento”, disse ela. “Isso vai facilitar a escavação, porque o ninho de tartaruga-da-amazônia tem quase 1 metro de profundidade, é um ninho bem profundo.”

No Rio Trombetas, Camila observou que muitas fêmeas adultas esperam pelos filhotes em frente à praia para que possam migrar juntos para as áreas de alimentação. Ela registrou vocalizações distintas quando as mães e os filhotes se encontravam.

Além de interferir nesta comunicação, a dragagem ameaça alterar a altura das praias e o tipo de areia do rio. “Em grãos de areia maiores, você tem mais troca de calor do que em praias com grãos menores, muito compactadas, e tudo isso dificulta o processo de incubação dos ovos”, explicou Camila.

A presença de embarcações de grandes dimensões também pode afugentar as tartarugas, acrescentou Roberto Lacava: “Elas são muito sensíveis à presença humana.”

As fêmeas das tartarugas-da-amazônia comunicam-se entre si para determinar o melhor momento para desovar. Foto: Camila Ferrara/WCS Brasil.

Outras duas espécies de tartarugas também depositam seus ovos no Tabuleiro do Monte Cristo: o tracajá, ou tartaruga-de-manchas-amarelas (Podocnemis unifilis), e o pitiú ou iaçá (Podocnemis sextuberculata), a tartaruga mais ameaçada da Amazônia. De acordo com o ICMBio, muitas outras espécies também seriam afetadas pela hidrovia, especialmente na área em torno das ilhas do Meio e Grande.

Estes são locais de reprodução de duas espécies de botos: o tucuxi (Sotalia fluviatilis) e o boto-rosa (Inia geoffrensis). Os especialistas afirmam que a dragagem e o tráfego de navios podem prejudicar os golfinhos, provocando “injúria auditiva, mascaramento acústico, mudança comportamental, indução de estresse, redução da eficiência do forrageio e aumento da suscetibilidade a doenças”.

A área é também de “vital importância” para o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), que utiliza estas ilhas e os seus canais para se alimentar e se proteger.

Os estudos do DNIT mostram que sete unidades de conservação e três terras indígenas (Kayabi, Munduruku e Sai Cinza) também seriam afetadas pela hidrovia. De acordo com o MPF-PA, que entrou com uma ação na Justiça exigindo a consulta às comunidades afetadas, outras 50 aldeias na Floresta Nacional do Tapajós e na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns também seriam impactadas.

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Este texto foi originalmente publicado pela Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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