As avaliações não encontraram diferenças significativas na saúde mental entre a população rural e a urbana – Foto: Gezer Amorim/Pexels
Por Yasmin Constante – Jornal da USP | A relação entre contato com a natureza e bem-estar psicológico não está necessariamente relacionada à ideia de “quanto mais árvores, melhor”. Uma pesquisa do Instituto de Biociências (IB) da USP identificou que os impactos do meio ambiente na saúde mental dependem de segurança, biodiversidade e qualidade da infraestrutura verde, e que o sentimento de “conexão” pode ser alterado a depender de questões de gênero e de lugar. O trabalho foi pensado a partir da experiência pessoal de Karla Vieira Morato, pesquisadora e autora da tese Conexão entre natureza e saúde mental em paisagens urbanas e rurais: determinantes ambientais e sociais. Natural de São Paulo, a bióloga viveu a maior parte da vida em Ibirataia, zona rural da Bahia. Ao retornar à metrópole paulista para o doutorado, o choque entre o estresse urbano e a calmaria do campo despertou o desejo de investigar cientificamente o tema.
A pesquisadora destaca que apesar das vantagens que a vida urbana proporciona, como maior acesso à saúde e educação, este espaço coloca seus moradores em maiores condições de estresse, causado pela exposição à poluição, superlotação e ruídos constantes. “Tem coisas positivas e é isso que traz as pessoas de uma área rural para uma área urbana, mas tem esses outros fatores que ajudam a adoecer a população”, completa. De outro lado, uma das maiores surpresas da pesquisa foi constatar que os moradores da zona rural não apresentaram, necessariamente, índices de saúde mental melhores do que os da população urbana. Além disso, o trabalho destaca que a infraestrutura verde é distribuída de forma desigual no Brasil: segundo o dados do IBGE, apenas 13,5% dos brasileiros vivem em ruas com três ou quatro árvores.
Para mapear esse cenário, a investigação foi estruturada em três frentes complementares, cruzando dados de percepção subjetiva com indicadores objetivos. No total, a pesquisa recebeu mais de 5 mil respostas.
Na primeira etapa, foi realizada uma metanálise de publicações globais que exploram a relação de exposição à natureza e o impacto na saúde mental. As duas etapas seguintes foram feitas de maneira conjunta por meio de um questionário on-line, desenvolvido na Universidade de Queensland, na Austrália: uma focou em avaliar o impacto da conexão com as áreas verdes no contexto urbano, enquanto a outra comparou os resultados da população rural e urbana.
Durante a revisão da literatura, a pesquisadora encontrou dois fatores fundamentais para o contexto global: o tamanho e o acesso à natureza. “Se a gente analisar isso globalmente, vemos que pessoas que conseguem morar em áreas que têm uma maior quantidade de vegetação, têm uma saúde mental melhor”. Porém, ela destaca que a quantidade só é relevante se o acesso for possível.
A qualidade ecológica, relacionada à biodiversidade e à preservação de uma vegetação mais íntegra, foi outro fator que se destacou. Segundo a pesquisadora, “quanto maior a biodiversidade dessas áreas, maior é o senso de conexão que as pessoas sentem”.
A pesquisa também utilizou o Questionário de Saúde Geral de Goldberg (12 perguntas), uma ferramenta clássica de triagem psíquica que avalia distúrbios não psicóticos (como ansiedade e estresse). Em vez de perguntas diretas, o teste usa abordagens indiretas e cotidianas. A pesquisadora passou a estudar saúde mental em seu doutorado e, por isso, para as perguntas sobre a área, aplicou esse questionário. “O questionário tem 12 questões com perguntas sobre saúde mental. Porém, não são perguntas específicas, para que as pessoas consigam responder da forma mais verídica possível. Por exemplo, ele não vai perguntar se a pessoa está se sentindo ansiosa, mas sim se ela tem se sentido capaz de tomar decisões difíceis”, explica.
De acordo com a pesquisadora, o sentimento de conexão é individual, podendo ser benéfico ou não. Por isso, ela explica que os dados subjetivos são fundamentais para entender o vínculo. “Quando a gente pensa em fatores que podem influenciar a saúde mental, temos que considerar a forma como as pessoas se sentem com essa relação.”
Os resultados demonstraram que, no Brasil, as demandas são, principalmente, por mais segurança e acesso a espaços verdes. Ela explica que estas demandas, assim como a quantidade e o acesso, são questões interligadas, uma vez que o acesso só é possível se a população se sentir segura para frequentar determinados espaços. A interpretação da pesquisa é que a insegurança está relacionada à desigualdade social brasileira, o que pode aumentar os níveis de violência e criminalidade.
“As pessoas, às vezes, moram próximas a áreas verdes que não são bem cuidadas, não têm uma boa diversidade, não são seguras e acabam tendo estresse e ansiedade, por medo de passar por essa região” – Karla Morato
A partir das respostas do questionário, as avaliações buscaram entender também como o contato com a natureza pode ser diferente para homens e mulheres. Karla Morato partiu da proposta de que o sentimento de insegurança afetaria mais a conexão para as mulheres do que para os homens. Porém, os resultados indicaram que o fator é importante para ambos.
A forma como interagem com a natureza também é diferente. A pesquisa concluiu que para as mulheres o sentimento de conexão com a natureza está relacionado com a frequência com que podem estar próximas de áreas verdes, enquanto os homens se beneficiam mais com variedade dos ambientes naturais do que com a periodicidade. Os resultados indicam que as políticas públicas não devem priorizar apenas o fornecimento de espaços verdes, mas também em fornecer segurança e variedade ecológica.
Segundo a pesquisadora, não foi possível incluir pessoas não binárias devido ao baixo número amostral.
A terceira etapa da pesquisa compara as respostas da população rural e urbana. Em entrevista ao Jornal da USP, Karla Morato relata que ficou surpresa por não encontrar dados que revelassem melhor saúde mental para aqueles que vivem afastados das grandes cidades.
A pesquisadora explica que estes resultados podem estar ligados ao fato dos espaços verdes serem, em muitos casos, parte do trabalho da população rural. Para eles, o descanso e o senso de conexão está mais relacionado a áreas azuis, como rios e lagos. “Essas áreas dentro da natureza acabam promovendo esse lugar de refúgio para eles”, completa.
Em relação às demandas, o maior pedido da população rural foi por mais infraestrutura, com maior fortalecimento dos espaços verdes, que, sem investimentos em lazer, podem ser percebidos como áreas de trabalho em vez de um ambiente restaurador. A pesquisa identificou que as taxas da cobertura vegetal possuem uma associação negativa com o sentimento de conexão. Por sua vez, a população urbana pediu por mais segurança. “São formas de ver, conviver e interagir com o verde diferentes.”
A partir do trabalho, a bióloga espera demonstrar que a relação entre a saúde mental e a natureza exige mais do que “plantar árvores e colocar mais áreas verdes nas cidades”. Esta é uma relação multifatorial, que é medida por diferentes condições sociais e estruturais.
“Quando a gente pensa no contato com a natureza como um meio promotor da saúde, exige que olhe muito além de simplesmente focar na quantidade de verde. Precisar investir, na verdade, na qualidade ecológica e garantir a segurança desses espaços” – Karla Morato
Segundo ela, ao investir em espaços verdes de qualidade, o benefício também seria multilateral, com a capacidade de lidar com a crise ambiental e a de saúde mental com uma única solução. “A questão é pensar em políticas públicas que integrem tudo isso”, completa.
Os resultados da pesquisa também foram descritos em um artigo recém-publicado na revista científica Journal of Environmental Psychology.
A tese de Karla Morato, intitulada Conexão entre natureza e saúde mental em paisagens urbanas e rurais: determinantes ambientais e sociais, está disponível neste link.
Mais informações: karlamorato@alumni.usp.br, com Karla Vieira Morato
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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