Foto de André Olmos, sob CC BY-SA 4.0 no Wikimedia Commons
Por décadas, o Vale do Jequitinhonha, no Nordeste de Minas Gerais, foi frequentemente retratado a partir da escassez. Nos últimos anos, porém, essa narrativa começou a ganhar outro sentido. Com a exploração de suas reservas de lítio (um mineral utilizado principalmente na produção de baterias) a região passou a ser apresentada como estratégica para a transição energética global.
Jequitinhonha é uma herança indígena. O nome, do dialeto do povo ancestral Maxakali, remete ao “rio largo e cheio de peixes” que atravessa o vale. No entanto, no discurso de governos e empresas o território ganhou o rótulo de “Vale do Lítio” e se tornou o centro de um debate que extrapola os limites de Minas Gerais e do próprio Brasil.
O avanço da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha colocou a região numa corrida global por minerais considerados essenciais para a transição energética.
Por outro lado, será que é possível falar em uma transição energética justa quando os custos sociais e ambientais recaem sobre quem vive no Vale do Jequitinhonha?
Antes de responder essa pergunta, é necessário entender melhor alguns fatores sobre o lítio, a transição energética e a própria história da região mineira.
O Vale do Jequitinhonha abrange cerca de 55 municípios, no Nordeste de Minas Gerais. A ocupação da região começou na época da colonização, em torno da bacia do rio. O Jequitinhonha tem por volta de 1000 km de extensão e nasce na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Dali, ele recebe importantes afluentes e corre para a Bahia, até desaguar no litoral baiano, na cidade de Belmonte.
Quem prestou atenção às aulas de História lembra que Minas Gerais sempre foi alvo de exploradores e aventureiros, em busca de riquezas. Ainda no século XVI, o rio Jequitinhonha serviu como via de transporte para os primeiros exploradores, uma ação que ecoou ao longo dos séculos, sendo repetida por outros que vieram depois.
Como consequência, o Vale foi moldado pela exploração mineral. A extração de ouro e diamante seguiu até o início do século XIX, quando entrou em crise, em parte pela queda dos preços do diamante após as descobertas na África do Sul. Esse foi um dos fatores que impulsionou a dispersão populacional.
Libertos, refugiados e homens livres se espalharam pelo interior, formaram quilombos e passaram a viver da roça e da criação de animais. Assim, a agricultura e a pecuária foram engatinhando até se desenvolverem na região.
Além disso, como ocorreu no restante das Américas, a invasão europeia se manteve em constante conflito com os povos originários. No Vale do Jequitinhonha não foi diferente.
No início do século XIX a Coroa Portuguesa passou a incentivar a colonização de áreas mais remotas do Vale, concedendo terras, isentando impostos e dizimando indígenas.
Esse é o cenário que deu forma e ditou o ritmo de vida da sociedade do Vale do Jequitinhonha. Hoje, o Vale é reconhecido tanto por sua rica cultura e pelo desenvolvimento da agricultura familiar quanto pela pecuária extensiva. E mais recentemente a região também passou a ser associada à exploração do lítio.
O lítio é utilizado principalmente na produção de baterias de íons de lítio, presentes em eletrônicos de consumo, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
A expansão dessas tecnologias aumentou a demanda por baterias e colocou o mineral no centro das discussões sobre transição energética. No caso dos veículos elétricos, as baterias de lítio são atualmente a principal tecnologia utilizada.
O nome “Vale do Lítio” está ligado a uma iniciativa do governo mineiro para promover a exploração do lítio no Vale do Jequitinhonha.
Em maio de 2023, o então governo estadual lançou o Lithium Valley Brazil, na Nasdaq (uma das principais bolsas de valores dos Estados Unidos). O objetivo era divulgar a exploração de lítio em Minas Gerais e atrair investidores.
No ano seguinte, a iniciativa passou a integrar o Projeto Estratégico Vale do Lítio, ampliando a proposta para questões relacionadas ao desenvolvimento da região e aos impactos da mineração.
Com o nome, a exploração do lítio passou a ser associada à chamada economia verde e à transição energética. O Vale do Jequitinhonha, por sua vez, ganhou espaço em uma disputa que envolve empresas, governos e interesses internacionais.
Por outro lado, um estudo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) aponta que a expansão da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha tem provocado disputas pelo território e afetado as comunidades locais.
Mas o que significa, na prática, chamar esse lítio de “verde”?
O termo lítio verde passou a circular no Vale com a entrada de mineradoras estrangeiras e associa a exploração do mineral às ideias de desenvolvimento sustentável e “mineração responsável”.
Por outro lado, uma pesquisa da UFMG vê nesse discurso a volta das ideias desenvolvimentistas de meados do século XX, agora com selo verde. Segundo o estudo, a expressão esconde as desigualdades entre quem lucra com o lítio e quem arca com os impactos, enquanto a mineração avança sobre os territórios.
É a chamada “fachada verde”, o famoso greenwashing. A água é um exemplo: a pesquisa aponta que a imagem do rio Jequitinhonha como poluído, difundida por empresários do setor, ajuda a justificar o uso intenso do recurso pelas mineradoras. Enquanto isso, comunidades locais convivem com a escassez de água potável.
O uso do lítio em tecnologias relacionadas à redução do uso de combustíveis fósseis não implica que sua extração esteja livre de impactos ambientais e sociais. Não torna sua mineração “sustentável”.
Na prática, a expansão da mineração de lítio tem produzido mudanças no cotidiano de comunidades próximas às áreas de exploração. Uma reportagem do jornal El País, de 2024, relatou que moradores convivem com poeira e ruídos provocados pelas detonações realizadas na mina em operação, além de terem relatado rachaduras em casas.
A reportagem também registrou preocupações com os efeitos da atividade sobre uma área de proteção ambiental próxima ao município de Araçuaí. Na região existem dezenas de nascentes.
Em uma reportagem, publicada em 2024, a Mongabay Brasil ouviu moradores de comunidades do Vale do Jequitinhonha. Eles relataram uma série de problemas associados à mineração, incluindo poeira, ruídos, alterações em cursos d’água, interdição de caminhos comunitários e conflitos pelo uso e pela posse da terra.
A reportagem também registrou relatos de problemas respiratórios e outros impactos à saúde após a chegada da mineração na região. Em uma atualização, publicada em 2026, a reportagem informou que, por determinação judicial, passou a incluir a ressalva de que não há estudos científicos que comprovem nexo causal entre as atividades da mineradora e os problemas de saúde relatados.
Além dos impactos ambientais, a dinâmica econômica e social dos municípios envolvidos também foi alterada. Uma matéria do jornal Le Monde, de 2026, mostrou que o aumento da procura por moradia em Araçuaí contribuiu para a elevação dos aluguéis e sobrecarregou serviços públicos.
A reportagem também mostra que, embora a atividade tenha criado empregos e movimentado a economia local, os benefícios econômicos ainda não produziram a transformação esperada para uma das regiões mais pobres de Minas Gerais.
De acordo com o Le Monde, grande parte do material produzido na região é exportada na forma de concentrado de espodumênio. A matéria-prima agrega pouco valor tecnológico na própria região. Assim, apesar do Vale do Jequitinhonha participar de uma cadeia produtiva voltada para uma tecnologia considerada essencial, a região permanece distante das etapas de maior valor dessa cadeia.
No Vale do Jequitinhonha, o debate passa não apenas pela finalidade do lítio depois que ele deixa a região. O foco também está nas condições em que é extraído e pela forma como seus benefícios e impactos são distribuídos.
A transição energética busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ampliar o uso de fontes de menor emissão de gases de efeito estufa. Mas essa mudança também aumenta a demanda por minerais necessários para as novas tecnologias energéticas, entre eles o lítio.
Uma análise publicada na revista Nature Energy indica que a demanda global por células de bateria deve crescer de forma expressiva até 2040. Isso significa que a mudança na matriz energética também depende, por ora, da expansão da atividade mineradora.
Esse aumento da demanda já colocou grandes áreas da América do Sul sob pressão. O chamado Triângulo do Lítio, formado por Argentina, Bolívia e Chile, concentra grandes reservas do mineral. A região se tornou uma das principais na exploração de lítio do mundo.
Nesses territórios, a expansão da mineração também tem afetado comunidades locais. Os impactos estão relacionados ao uso da água e da terra e questões de saúde, bem-estar, justiça social e direitos territoriais.
Esse é um dos paradoxos da transição energética: reduzir determinados impactos ambientais pode exigir a ampliação de outras formas de exploração dos recursos naturais, que também causam impactos socioambientais. A transição não elimina a mineração, mas modifica os minerais demandados e aumenta a exploração dos locais que concentram esses recursos.
Por isso, discutir uma transição energética não envolve apenas substituir uma fonte de energia por outra.
A história do Vale do Jequitinhonha ajuda a entender que a exploração de recursos naturais não é uma questão nova na região. O que mudou foi o recurso considerado importante para a economia e a narrativa que o acompanha. Se, no passado, ouro e diamantes atraíram exploradores para o território, hoje o lítio ocupa esse lugar, com a promessa de ser um mineral fundamental para o futuro.
A diferença é que, desta vez, a demanda não parte apenas de interesses locais ou nacionais. O lítio extraído em Minas Gerais está inserido em uma cadeia internacional ligada às tecnologias energéticas e às transformações da matriz energética mundial.
Ao mesmo tempo, a mineração não distribui da mesma forma seus benefícios e seus impactos. Enquanto governos e empresas apresentam a exploração do lítio como oportunidade de desenvolvimento, comunidades próximas às minas convivem com poeira, ruídos, alterações no uso do território, pressão sobre a moradia e preocupações relacionadas à água e às atividades que sustentam a vida local.
Esse é o dilema: a transição energética é necessária para enfrentar a crise climática, mas os caminhos escolhidos para viabilizá-la também precisam considerar os territórios e as pessoas envolvidos nesse processo.
O caso do Vale do Jequitinhonha mostra que uma transição energética não pode ser avaliada apenas pelo destino dos minerais extraídos ou pelas tecnologias produzidas a partir deles. Também é preciso olhar para quem extrai, onde extrai, em quais condições e como os benefícios e os impactos são distribuídos.
A região, que durante décadas foi apresentada principalmente a partir da escassez, agora ocupa um lugar de destaque na economia do lítio. A questão que permanece é se essa nova posição será capaz de mudar, de fato, as condições de vida de quem vive na região e a que custo.
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