Por Sthephany Oliveira – Jornal da USP | Debaixo de ruas, avenidas e bairros de São Paulo correm rios que desapareceram da paisagem e, em muitos casos, também da memória dos moradores. A canalização e o tamponamento dos cursos d’água não apenas esconderam fisicamente os rios sob o concreto, mas contribuíram para afastá-los da experiência cotidiana da população. É o que mostra a tese de doutorado de Wellington Tibério, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que analisou como a transformação dos rios participou da construção da metrópole paulistana.
O estudo também coloca em perspectiva o desconhecimento da população sobre a quantidade de rios que atravessam a cidade sem serem notados, sugerindo que o apagamento dos fluxos modificou não apenas a paisagem, mas também a relação dos habitantes com a natureza.
O estudo mostra que esse apagamento ocorreu em duas dimensões: física, com a canalização e a cobertura dos cursos d’água; e cultural, à medida que os rios deixaram de ser reconhecidos como parte da cidade. O processo modificou a paisagem urbana e também a maneira como os habitantes percebem a natureza e os lugares onde vivem.
Rios como obstáculos ao desenvolvimento

A transformação dos rios de São Paulo não começou com a metrópole contemporânea. Um dos primeiros alvos das intervenções foi o rio Tamanduateí. Em 1848, obras de retificação alteraram seu curso e eliminaram as chamadas Sete Voltas, conjunto de curvas que existia na região da colina histórica, onde começou o povoamento de São Paulo.
Ao longo do século 19, o rio, que desempenhava funções econômicas e sociais importantes, passou progressivamente a ser visto como fonte de problemas, associado a enchentes e disseminação de doenças, além de ser visto como um obstáculo à expansão da cidade.
A partir de 1970,com o intenso processo de urbanização, aumentou a pressão sobre as áreas ocupadas por rios e córregos de toda a cidade. A construção de avenidas de fundo de vale — implantadas sobre ou ao lado dos cursos d’água, frequentemente acompanhada pela retificação e canalização dos rios — consolidou-se como intervenção urbana. O tamponamento dos córregos e rios passou a integrar as políticas de expansão da cidade.
A transformação das várzeas também liberou áreas para novos usos. No caso do Tamanduateí, esses espaços eram ocupados por atividades econômicas, de lazer e recreação, e eram importantes para a circulação de mercadorias. Com as intervenções, foram progressivamente liberados para iniciativas de “embelezamento” urbano, projetos de ocupação e especulação imobiliária.
Além disso, Wellington Tibério conta que os cursos d’água que serpenteavam pelas várzeas tinham a função pouco nobre de carregar os dejetos produzidos pela cidade. A solução adotada foi retificá-los e canalizá-los para acelerar o escoamento.
“A ciência e a técnica daquele período poderiam ter produzido alternativas de coleta e tratamento dos dejetos, mas não foi esse o encaminhamento feito. O interesse não era apenas em resolver o problema da poluição, mas também se apropriar das terras das várzeas”, conta.
Esse processo estava relacionado a uma determinada concepção de modernização da cidade. Em planos urbanísticos do século 20, rios e vales chegaram a ser tratados como obstáculos à expansão do tecido urbano, enquanto áreas de várzea e populações que viviam nesses locais passaram a ser considerados incompatíveis com o projeto de uma cidade moderna, salubre e organizada.
A remodelação dessas áreas esteve, assim, relacionada tanto à transformação da natureza quanto à expulsão de populações empobrecidas de determinadas regiões.
Para o pesquisador, esse processo ajuda a compreender o ponto central do trabalho: a cidade não apenas é produzida pelas pessoas, mas também as produz. Ela também condiciona a maneira como as pessoas vivem e percebem a cidade.
“Quando a materialidade da cidade é produzida, ela produz um jeito de agir, consequentemente um jeito de pensar e um jeito de ser”, afirma.
No caso dos rios, essa lógica orienta o principal argumento do trabalho, que explica por que o enterramento teve efeitos muito além de esconder a água.
A floresta de concreto e aço
A cidade herdada funciona como uma espécie de moldura para a ação. É inevitável que a “selva de pedra” estabeleça condições materiais que delimitam o que parece possível ou impossível, fazendo com que determinadas construções históricas pareçam naturais, como se a cidade sempre tivesse sido daquela maneira.
De acordo com o geógrafo, o projeto político que teve como efeito prático o desaparecimento dos rios produziu um certo ser humano “afeito ao concreto, afeito ao asfalto e com uma certa fobia a aspectos da natureza”. Isso não significa que o tamponamento tenha feito as pessoas odiarem a natureza. Mas, depois de escondidos, os rios deixaram de fazer parte da experiência cotidiana de boa parte da população — e isso ajudou a tornar o próprio enterramento algo desejável ou normal.

“O discurso microbiológico, o conforto da água encanada, a ideia de inutilidade das áreas de várzea, os medos sanitaristas, o ideal da organização planejada, o sonho com a modernidade e o progresso produziram um sujeito que passou a demandar canalização e tamponamento de rios e córregos, passou a desejar concreto e asfalto”, resume o pesquisador.
O trabalho conclui que a cidade de concreto não é apenas consequência das escolhas passadas. Ela passa a produzir novas necessidades e comportamentos que ajudam a reproduzi-la.
A própria experiência de Wellington Tibério ajuda a ilustrar esse processo. “Eu nasci numa cidade sem rios”, conta. Embora houvesse um rio próximo à escola que frequentava, ele não o reconhecia como tal: “Era um canal de esgoto”.
O Tietê também não era percebido como rio durante sua infância e adolescência, mas como um canal de esgoto associado à sujeira. Hoje, porém, o pesquisador vê uma experiência diferente na relação do filho com a cidade.
“Mas para o meu filho, que tem 10 anos, a cidade dele tem rios de novo”, afirma. Segundo o geógrafo, o menino já teve contato com as águas do rio Água Preta e frequenta um lago próximo de casa onde há peixes.
Aqui passa um rio
Recentemente, projetos socioambientais têm lutado pela retomada da convivência com as águas no imaginário da população, mobilizando novas disputas pela recuperação dos rios no espaço urbano.
“A retomada desses rios pressupõe uma retomada da capacidade de imaginar a cidade. Então, a primeira frente de luta é no campo do imaginário, para que depois isso se torne materialidade”, afirma.
Segundo o pesquisador, o que leva as pessoas a lutar pela reabertura dos rios é, em primeiro lugar, o espanto em relação ao fato de que a cidade fez isso com algo tão importante como a água. A partir do espanto, surge o estranhamento a respeito do processo que levou a essa situação.
Mas a retomada dos rios também é uma disputa sobre o sujeito. “É como se a gente não quisesse mais ser o que nos tornamos ao longo desse processo. A gente procura uma outra cidade, um outro sujeito”, afirma Wellington Tibério.
O trabalho analisa práticas de localizar nascentes, identificar rios escondidos, cavar lagos, estabelecer contato físico com terra e água, realizar intervenções artísticas e criar novas formas de circulação e experiência nesses lugares como formas de experimentar a cidade de outra maneira, abrindo espaço para a produção de outro sujeito.

Para o autor da pesquisa, essas iniciativas não se limitam à tentativa de reabrir fisicamente os cursos d’água. Os pequenos rios, em particular, estão próximos de grande parte da população e podem funcionar como uma maneira de reconectar os moradores aos bairros e aos territórios onde vivem. “Todo mundo tem um rio por perto no seu bairro”, afirma. Ao estabelecer uma relação com esses cursos d’água, as pessoas também poderiam fortalecer o vínculo com seu lugar na cidade e com a própria comunidade.
Nesse sentido, as intervenções podem ser concretas mesmo quando a abertura do rio ainda não é possível. Nascentes podem ser identificadas, águas podem ser utilizadas para criar lagos e intervenções artísticas podem tornar o curso d’água novamente presente no cotidiano. “São intervenções na cidade que tornam o rio presente. Ele existe”, explica Wellington.
Na tese é trabalhado o conceito de “direito à cidade”. Para ele, esse direito não se limita ao acesso individual a determinados espaços ou serviços, mas envolve a possibilidade de intervir e transformar a própria cidade. “O direito à cidade é o direito de mudar a nós mesmos pela mudança da cidade”, afirma, retomando uma formulação do geógrafo David Harvey.
Recuperar os rios para quem?
A recuperação dos rios, entretanto, também envolve disputas. Um dos riscos apontados pelos pesquisadores é que a valorização ambiental seja incorporada pelo mercado imobiliário, transformando a natureza em atributo valorizado de determinados empreendimentos.
“Eu diria que tornar a natureza uma raridade a valoriza”, afirma Wagner Costa Ribeiro, orientador da pesquisa. Segundo ele, empreendimentos imobiliários podem vender serviços ambientais e ecossistêmicos como vantagens destinadas a quem pode pagar.
A recuperação de rios e de suas margens pode requalificar o espaço urbano, mas, para o pesquisador, esses benefícios precisam ser tratados como bens coletivos, e não como atributos passíveis de apropriação privada.
Wellington considera essa uma das questões que os movimentos envolvidos com a retomada dos rios precisam enfrentar: o risco de que uma pauta construída coletivamente seja capturada por interesses imobiliários.
São Paulo pode ter escondido seus rios durante gerações, mas, para Wellington, eles já começam a reaparecer em outras experiências da cidade. “A cidade de São Paulo voltou a ter rios já”, afirma.
Eles ainda podem estar enterrados sob ruas e avenidas, mas também reaparecem no imaginário, nas intervenções e nas relações que os moradores estabelecem com os lugares onde vivem.
O estudo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
A tese de doutorado Insurgências aquáticas: o renovado interesse pelos rios urbanos na cidade de São Paulo pode ser acessada neste link.
Mais informações: e-mail welltiberio@usp.br, com Wellington Tibério.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.