Ciência & Meio Ambiente

Por que ainda não conseguimos prever terremotos?

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por Livia Inacio – Ciência UFPR | Quase um mês após o duplo terremoto que atingiu o norte da Venezuela, equipes de resgate ainda encontram vítimas sob os escombros, e o número de mortos ultrapassa 5,2 mil. Uma pergunta que surge em meio a abalos assim é: em que medida a ciência consegue prevê-los? O professor Eduardo Salamuni, do Departamento de Geologia do Setor de Ciências da Terra da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica.

Em entrevista à Ciência UFPR, ele afirma que, embora cientistas saibam quais regiões do planeta apresentam maior risco sísmico, ainda não dá para determinar exatamente onde, quando e com que magnitude ocorrerá o próximo grande terremoto.

Tudo começa com a estrutura da Terra: sua superfície é formada por grandes blocos rochosos, as placas tectônicas ou litosféricas, que estão em contato entre si por meio de rupturas que interrompem a continuidade das rochas (as falhas geológicas). Nas áreas de convergência, elas podem se movimentar, deslizando lateralmente ou mergulhando uma sob a outra. Esse movimento é intermitente ou muito lento, e as placas podem permanecer travadas pelo atrito entre as rochas durante anos, décadas ou até séculos.

Quando a tensão supera a força do atrito entre os blocos, isso alivia a tensão local, mas libera energia e movimenta o solo, levando a um terremoto.

Os terremotos de maior impacto costumam se formar assim, e se concentrar nas regiões de convergência entre as placas. Mas Salamuni acrescenta que eventos menos significativos em termos de riscos sísmicos também podem ocorrer em áreas onde as placas se afastam, no interior delas e em regiões com atividade vulcânica. 

Análise de risco é diferente de previsão

Se a ciência conhece essas regiões, por que ainda não consegue prever um terremoto? A dúvida nasce da confusão entre dois conceitos: análise de risco e previsão. A primeira permite identificar áreas mais suscetíveis a grandes abalos e estimar a probabilidade de que eles ocorram. A segunda exigiria saber, com antecedência, o local, o momento e a magnitude de um terremoto específico, algo que ainda não é possível.

Cientistas reconhecem, por exemplo, falhas geológicas, e compreendem como uma movimentação ali gera tensão. O problema é que uma falha pode se estender por dezenas ou até centenas de quilômetros. Então, é possível saber que há tensão acumulada, mas não determinar em que ponto haverá liberação dela, nem quando isso vai acontecer.

Segundo o professor, alguns estudos conseguem estimar intervalos médios entre grandes eventos em determinadas falhas, como a de San Andreas, nos Estados Unidos, mas ainda não são previsões. Terremotos menores podem liberar parte da tensão acumulada e alterar o comportamento esperado da falha, tornando o desafio ainda maior.

Magnitude é diferente de intensidade

O que a ciência consegue hoje é criar mecanismos para reduzir os impactos desses eventos. Isso envolve investir em estruturas mais resistentes, aprimorar sistemas de monitoramento e alerta, e preparar a população para agir diante de um tremor. Nesse sentido, o especialista faz uma diferenciação entre magnitude (a potência do terremoto a partir da energia liberada em sua origem) e intensidade (o grau de destruição gerado em um evento).

A magnitude costuma ser medida pela chamada magnitude de momento (Mw). Cada aumento de um ponto nessa escala corresponde a cerca de 32 vezes mais energia liberada. Assim, um terremoto de magnitude 6 libera aproximadamente 32 vezes mais energia que um de magnitude 5 e aproximadamente mil vezes mais que um de magnitude 4. A famosa escala Richter, criada na década de 1930, também é usada, mas apresenta limitações para eventos muito grandes.

Já a intensidade indica os efeitos que um terremoto provoca em determinado local. Ela é medida pela escala de Mercalli modificada, que considera aspectos como a percepção do tremor pelas pessoas e danos causados a construções. Seus níveis vão de 1 a 12, em que 1 corresponde ao tremor não sentido, e 12 à destruição generalizada.

Terremotos com magnitudes similares podem apresentar intensidades muito diferentes. A intensidade envolve uma combinação de fatores como a proximidade de áreas densamente povoadas, a vulnerabilidade das construções, a organização dos serviços de emergência e a capacidade de resposta das instituições. É justamente por isso que reduzir o número de vítimas depende de novas tecnologias, planejamento urbano adequado e treinamento da população, segundo Salamuni.

“No terremoto da Venezuela, por exemplo, vidas foram salvas por um dispositivo criado pela Universidade de Berkeley (EUA) usado pelo Google para alertar, via celular, a vinda iminente de ondas de choque segundos antes de sua chegada”, diz.

Mas essa estrutura varia de acordo com o panorama socioeconômico de cada país. “No terremoto do Japão em Fukushima, em 2011, as perdas de vidas humanas foram bem menores do que as do terremoto da Indonésia, em 2004, e ambos provocaram tsunamis muito destrutivos do ponto de vista de perdas materiais”, exemplifica.

“E não bastam normativas burocráticas. É preciso que a sociedade possua uma cultura que só se sustenta por meio de um trabalho técnico e educacional efetivo”, acrescenta.

Mitos cercam os terremotos

Grandes terremotos também costumam ser acompanhados por ondas de desinformação, lembra o professor. Uma das associações mais frequentes é atribuí-los às mudanças climáticas, relação que nunca foi comprovada.

Outra crença difundida envolve o comportamento de animais. Será que eles conseguem prever um terremoto? O que se sabe é que diversas espécies apresentam sensibilidade às vibrações produzidas pelas ondas sísmicas e podem demonstrar comportamento incomum segundos antes da movimentação do solo, diz o professor.

“Já foram relatados casos de pessoas que perceberam essa mudança de comportamento em seus animais domésticos e deixaram suas casas momentos antes do terremoto. Também há registros de elefantes que se deslocaram para áreas mais elevadas antes da chegada do tsunami na Indonésia”.

Mas, de acordo com o pesquisador, isso não significa que os animais sejam capazes de prever terremotos com antecedência suficiente para substituir sistemas científicos de monitoramento.

“Enquanto a ciência ainda busca compreender melhor os sinais que antecedem um terremoto, as principais ferramentas para reduzir tragédias continuam sendo as mesmas: investir em pesquisa, educação, monitoramento e infraestrutura resistente e igualitária”, finaliza.

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Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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