O extrato de cannabis de espectro completo é um óleo integral e concentrado com uma variedade de composto da planta que se combinam para produzir o efeito total. Combina substâncias como CBD, THC e outros canabinoides.
Por Vanessa Vieira – UnB Ciência | Ansiedade, depressão, isolamento social, incapacidade para realizar tarefas cotidianas. Essas são queixas frequentes de pacientes que sofrem com dores crônicas e constam nos depoimentos de 29 mulheres participantes de pesquisa sobre uso de cannabis para tratamento da Síndrome de Dor Crônica (SDC). O estudo foi coordenado pelo professor da UnB Renato Malcher-Lopes (IB) e teve contribuição de especialistas de outras cinco instituições.
A pesquisa começou com a demanda da médica neurocirurgiã Patrícia Montagner, cuja abordagem clínica faz o uso compassivo de cannabis no tratamento de seus pacientes com Síndrome da Dor Crônica (SDC), e constatou o padrão de melhora significativa nos quadros de saúde após a introdução de extratos da planta como alternativa medicamentosa.
“Fomos procurados pela médica para quantificar os resultados percebidos no consultório. Para isso, montamos uma equipe de pesquisa independente, com a participação de outros especialistas da área que nos fornecessem uma visão crítica do processo, incluindo um neurologista, um especialista em ortopedia e traumatologia, um psiquiatra, uma psicóloga, e três neurocientistas”, conta Renato Malcher-Lopes, docente do Departamento de Ciências Fisiológicas do Instituto de Ciências Biológicas (CFS/IB) da UnB.
Com décadas de pesquisa sobre a cannabis, Malcher-Lopes explica que o estudo inova por avaliar de forma mais global o impacto do uso medicinal da cannabis na saúde de mulheres com Síndrome de Dor Crônica.
“Elaboramos um questionário que avalia sintomas para além da dor, como estado de humor, libido, irritabilidade, problemas do sono, funcionalidade motora. Também incluímos questões de âmbito pessoal, como relações pessoais, vida social e capacidade de trabalho”, detalha o doutor em neurociências.
Ele reforça que “é necessário olhar para a dor crônica como uma síndrome, porque os pacientes passam a ter problemas de sono, alterações de humor, impactos na vida social e afetiva”. “Tudo isso vai se acumulando de maneira muito profunda na existência do indivíduo, e a maioria entra num estado de sofrimento psicossocial também”, alerta.
Sobre o recorte da amostra, Malcher-Lopes menciona que a dor crônica é mais presente entre mulheres, e tanto a percepção da dor quanto a forma de resposta do organismo aos remédios também diferem na biologia feminina. “Só o ciclo menstrual já é um fator de variabilidade, além de outros, como gravidez, maternidade, uso de anticoncepcionais”.
“Sofro de fibromialgia desde os 12 anos, que se desencadeou com o início do meu ciclo menstrual. Mas só fui diagnosticada aos 20, antes disso fui tratada como várias outras doenças, inclusive reumáticas, até chegar ao diagnóstico da fibromialgia. Desde os 12 anos, não sabia mais o que era dormir e acordar sem dores fortes. As dores faziam parte do meu dia a dia. Tinha crises piores que me deixavam praticamente de cama, pelo menos uma vez por mês. Com a chegada das minhas filhas, as coisas foram piorando. Cheguei ao ponto de faltar ao trabalho, não conseguir cuidar mais das tarefas diárias nem brincar ou sair com minha família. Com o tempo comecei a ter crises de ansiedade e alguns anos atrás entrei em depressão. Chegou uma hora que não via mais luz no final do túnel. Quando iniciei o tratamento, não tive nenhum efeito colateral, e a Dra. Patrícia me informou que levaria quase um mês para sentir os efeitos. Iniciei em uma quinta e no sábado comecei a limpar a casa numa euforia, mas nem me dei conta do que era. Consegui realizar todas as atividades e não sentir nenhuma dor e só me dei conta que era resultado do óleo ao final do dia. Desde então não sei mais o que é sentir dor. Não tive mais nenhuma crise. Nem sequer dor de cabeça que era constante. Parei de usar remédio de pressão e qualquer outro remédio para dor. Relaxantes muscular não faz mais parte da minha vida. Não sofro mais nem se quer de cólicas menstruais. A ansiedade e a depressão sumiram. Hoje vivo uma vida plena. E o mais importante, sem dor alguma.” – Relato de uma das participantes da pesquisa (identidade preservada conforme critérios éticos do trabalho)
A prática médica dispõe de três tipos de tratamento: On-Label, que é o tratamento tradicional já aprovado pelos órgãos reguladores e com prescrição direta para a patologia, dose e público-alvo definidos; o Off-Label, que adota uma medicação já aprovada, porém que será utilizada com finalidade diferente da prevista na bula, cuja expertise da prática clínica permite esse tipo de apropriação; e por fim o tratamento compassivo.
O tratamento compassivo (ou uso compassivo) é uma abordagem destinada a pacientes com doenças debilitantes e que já esgotaram as opções de tratamentos convencionais. Nesses casos, a prática médica dispõe de uma autorização especial para uso individualizado de terapias experimentais e com resultados promissores, mas ainda sem registro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – como é o caso da cannabis.
“Estamos muito acostumados a ver a formulação de canabidiol para tratamento da epilepsia infantil. Mas hoje já sabemos que o escopo de tratamento da cannabis abrange praticamente todo tipo de manifestação do organismo em situação de adoecimento, pois trata sintomas como dor, enjoo, problemas psicológicos, metabólicos, entre outros”, contextualiza Renato Malcher-Lopes.
A pesquisa teve uma abordagem retrospectiva, ou seja, investigou os resultados do tratamento já realizado em pacientes acompanhadas pela neurocirurgiã Patrícia Montagner.
Os pesquisadores enviaram convites para participação na pesquisa a 178 pacientes, sendo que 48 responderam. Desses, um novo recorte foi realizado, selecionando pacientes que fizeram uso do composto fornecido por apenas duas associações civis – buscando padronizar melhor o estudo, já que a composição dos extratos de cannabis de espectro completo (ECEC) sofre variação de acordo com a produção.
Com isso, restaram 30 pacientes, sendo apenas um homem. Dada as particularidades da Síndrome de Dor Crônica em mulheres, os cientistas decidiram seguir com esse público, tendo como amostra final 29 participantes.
Além de autorizar o acesso aos seus prontuários clínicos, as participantes responderam a um questionário estruturado e transversal enviado por e-mail. A primeira parte do questionário consistiu em perguntas de múltipla escolha sobre os efeitos percebidos do tratamento após o uso do extrato de cannabis.
Nove sintomas foram investigados e seis aspectos adicionais, totalizando 15 perguntas. Sendo eles (em livre tradução):
I. episódios de dor
II. problemas de sono
III. sensação persistente de fadiga
IV. comprometimento motor
V. problemas cognitivos e de memória
VI. diminuição da libido ou outras disfunções sexuais
VII. tristeza, melancolia e prostração
VIII. angústia e irritabilidade
IX. crises de ansiedade e/ou ataques de pânico
X. incapacidade de manter uma ocupação profissional
XI. impactos negativos nas relações sociais e familiares
XII. qualidade de vida geral do paciente
XII. qualidade de vida geral da família
XIV. efeitos colaterais devido ao tratamento com FCE
XV. uso de outros medicamentos
Cada pergunta apresentou seis respostas possíveis: “não se aplica”, “piora considerável”, “piora moderada”, “sem alterações”, “melhora moderada” e “melhora considerável”.
Para uma análise estatística dos resultados, à exceção da possibilidade “não se aplica”, foi adotada uma escala numérica com a seguinte variação: -2, -1, 0, +1, +2, sendo que –2 correspondeu a “piora considerável”, seguindo sucessivamente até +2 para “melhora considerável”.
O professor explica que “toda metodologia científica voltada a questões médicas subjetivas, como a percepção de dor pelo paciente, tem alguma limitação” e que existe um “certo vício na literatura científica” em avaliar esse tipo de sintoma usando escala numérica.
“Não é possível olhar para o dado informado pelo paciente ao mensurar sua dor antes e depois do uso de um remédio como se tivesse a precisão de uma régua, a exemplo da escala de dor de 0 a 10. Há muitos fatores nessa percepção, especialmente no caso do estudo que teve caráter retrospectivo. Por isso, entendemos que a avaliação seria mais adequada expressa nos termos adotados [não se aplica, piora considerável, melhora considerável…]”, esclarece.
“Conseguimos assim criar escores e mensurar matematicamente, mas sem que a paciente precisasse pensar em termos de uma escala numérica”, completa o docente.
As participantes responderam, ainda, a duas perguntas abertas nas quais descreveram livremente sobre como era sua qualidade de vida e a de sua família antes e depois do tratamento com extrato de cannabis. As respostas foram submetidas à abordagem de Análise de Conteúdo Qualitativa, que inclui etapas como redução, categorização e interpretação dos dados para sistematizar o resultado da contribuição.
“A possibilidade de as participantes descreverem com suas próprias palavras o impacto do tratamento em suas vidas permitiu a identificação de aspectos subjetivos para além dos observados nas questões fechadas”, reforça a psicóloga e coautora do estudo Clarissa Nogueira, doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Escolar na UnB.
A pesquisa reúne evidências sobre os benefícios integrativos dos extratos de cannabis de espectro completo para uso em mulheres com Síndrome de Dor Crônica. Entretanto, devido à amostra limitada, há necessidade de validação dos resultados por meio de ensaios clínicos randomizados, com inclusão de um grupo para teste sobre efeito placebo.
“Tivemos 100% das pacientes relatando melhoras nos quadros de dor. A maioria teve redução ou remoção completa de outros medicamentos que já utilizavam. Isso é muito importante porque os remédios para dor crônica têm efeitos colaterais significativo e são caros”, comenta Renato Malcher-Lopes.
O pesquisador exemplifica que os opioides são uma categoria de medicação tipicamente prescrita para pacientes com dor crônica, com risco de dependência e overdose. “Quando um remédio para dor consegue fazer com que o paciente diminua o uso de opioide, esse resultado é extremamente significativo. É uma medida da solidez do estudo.”
Os achados estão em consonância com a literatura científica e com a prática clínica, que demonstra uma combinação interconectada de efeitos positivos dos canabinoides tanto no quadro de dor quanto nos aspectos psicológicos relacionados.
Assim, 60% das pacientes relataram alívio considerável da dor, 40% alívio moderado e 66% interromperam ou reduziram outras medicações das quais faziam uso antes da cannabis. No início do estudo, 70% já faziam uso de medicamentos para humor ou ansiedade. Metade delas reduziu ou interrompeu o uso após o extrato da planta.
Ainda na dimensão psicológica, 64% das pacientes relataram melhora para problemas cognitivos; 78% para angústia/irritabilidade; 79% para ansiedade; 83% para melancolia; 85% para fadiga; 89% para distúrbios do sono.
“A cannabis é uma das pouquíssimas opções que trata não apenas a dor, mas a causa da dor desencadeada por inflamação ou infecção, além de ter efeito para vários tipos de sofrimento: sono, estado de humor, libido, estado psíquico, metabolismo. Uma única formulação, rica em diversos canabinoides, trata todos esses sintomas”, ressalta Malcher-Lopes.
As respostas abertas confirmaram o impacto positivo na vida prática e emocional das pacientes, com benefícios que se estendiam aos familiares, mesmo entre aqueles que já usavam medicamentos convencionais.
“Percebemos que nesse público, e sob supervisão médica, não somente tivemos poucos efeitos adversos das titulações graduais nas dosagens com o medicamento como também percebemos melhoras importantes em sintomas de ansiedade sono e percepção positiva da qualidade de vida”, comenta o coautor do estudo e psiquiatra Wilson Lessa Júnior.
Ele aponta que a investigação inova no contexto brasileiro ao avaliar o uso de medicação rica também em THC e não apenas em CBD. “É um estudo de mundo real e que para uso da cannabis é o que temos de mais eficiente [até o momento] para escalarmos estudos mais específicos”, completa Lessa.
O tratamento seguiu protocolo individualizado para cada paciente, conduzido pela médica Patrícia Montagner, com base em avaliações clínicas das condições iniciais e das respostas ao longo do ciclo de cuidado.
As pacientes tinham diferentes causas de dor crônica, como fibromialgia, enxaqueca, dor lombar. As dosagens e a formulação do extrato de cannabis foi individualizada de acordo com os sintomas, comorbidades e histórico de tratamento prévio da mulher. Por isso, o extrato teve diferentes proporções de Canabidiol (CBD) e Tetraidrocanabinol (THC) – as duas principais substâncias da cannabis.
Extratos com predominância de CBD foram geralmente escolhidos para dor inflamatória ou de alteração no sistema nervoso central (nociplástica), ansiedade, convulsões ou problemas metabólicos. Já o composto com predominância de THC foi indicado para quadros com insônia, náuseas, espasmos musculares ou analgesia insuficiente em protocolos em que o CBD era predominante.
“Estudar esse protocolo com dosagens individualizadas é importante porque na regulação brasileira as formulações disponíveis não são com concentrações adequadas para tratar dor crônica, mas epilepsia infantil”, informa o professor Renato Malcher-Lopes.
“Os médicos só conseguem fazer o uso compassivo para dor crônica porque as associações civis fundadas por pacientes com autorização legal estão produzindo os extratos com a composição de THC e CBD necessárias”, completa o pesquisador da UnB.
A qualidade e as concentrações de canabinoides dos extratos utilizados pelas pacientes do estudo foi verificada por meio de análises laboratoriais independentes utilizando cromatografia líquida de alta eficiência, conforme documentação fornecida pelas associações.
Qualquer dor que dure por mais de três meses pode ser classificada como dor crônica. A Classificação Internacional de Doenças 11 (CID-11) reconhece esse distúrbio em sete subgrupos principais, também chamados de Síndromes de Dor Crônica (SDC):
1) dor primária crônica (por exemplo, fibromialgia ou dor lombar não específica), na qual a dor não tem origem discernível;
2) dor neuropática;
3) dor musculoesquelética secundária;
4) dor oncológica;
5) dor pós-cirúrgica;
6) cefaleia e dor orofacial;
7) dor visceral secundária.
Cannabis sativa: planta que contém mais de 80 substâncias denominadas canabinoides, também é chamada de maconha ou cânhamo. As duas principais substâncias da cannabis são o tetraidrocanabinol (THC) e o Canabidiol (CBD).
Canabidiol (CBD): substância química da planta Cannabis sativa, reconhecida no tratamento de alguns distúrbios convulsivos. Parece prevenir a decomposição de uma substância química no cérebro que ajuda a controlar a dor, o humor e a função mental. Não tem efeitos intoxicantes ou alucinógenos.
Canabinoides: compostos químicos que interagem com os receptores do sistema endocanabinoide no corpo humano e regulam funções como dor, humor, apetite e sono. Podem ser fitocanabinoides (da planta Cannabis), endocanabinoides (produzidos pelo corpo) ou sintéticos (produzidos em laboratório, sendo usados para fins medicinais em tratamentos de epilepsia, dor crônica, ansiedade e autismo).
Tetraidrocanabinol (THC): responsável pelos efeitos euforizantes e intoxicantes da cannabis, mas também contribui para os benefícios à saúde proporcionados pela planta.
Maconha (cannabis): droga produzida a partir da planta cannabis, com alta concentração da substância química psicoativa denominada delta-9-tetraidrocanabinol (THC).
Fontes: Manual MDS, versão saúde para família, disponível em https://www.msdmanuals.com/ e definições fornecidas por Renato Malcher-Lopes.
Este texto foi originalmente publicado pela Universidade de Brasília, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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