Saúde e Bem-Estar

Ergonomia verde: espaços que cuidam das pessoas e do planeta

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A ergonomia verde é uma abordagem que amplia o campo tradicional da ergonomia, (historicamente voltado para a relação entre pessoas, ferramentas e ambientes de trabalho) para incluir também a natureza como parte dessa equação.

O conceito parte da ideia de que existe uma interação de mão dupla entre estruturas humanas e naturais. O que significa que essa relação precisa ser aprimorada para garantir tanto o bem-estar das pessoas quanto a saúde dos ecossistemas.

Um dos objetivos da ergonomia verde é justamente reduzir os efeitos nocivos de estruturas e processos sobre o meio ambiente, sem abrir mão de que as pessoas continuem se beneficiando deles.

O que é ergonomia verde?

A ergonomia, como campo de estudo, existe desde o século XIX, quando foi explorado pelo polonês Wojciech Jastrzębowski. Jastrzębowski a definiu, originalmente, como sendo “o estudo do trabalho”. A própria palavra vem do grego ergon (trabalho) e nomos (leis). 

Ao longo do tempo, diferentes pesquisadores ampliaram essa definição, mas sempre girando em torno da relação entre pessoas, máquinas, tarefas e o ambiente em que elas atuam.

No entanto, nas últimas décadas, parte dessa pesquisa passou a olhar também para o impacto que essas interações têm sobre o mundo natural, já que prejudicar o ecossistema, no fim das contas, também reduz o bem-estar humano. Foi nesse contexto que surgiu a ergonomia verde.

O termo foi popularizado por Andy Thatcher em meados de 2010 e hoje aparece entre as principais abordagens que unem ergonomia e sustentabilidade. 

Segundo Thatcher, a ergonomia verde reflete a interação bidirecional entre estruturas naturais e humanas, com foco em um design orientado para a natureza.

Vale destacar que a ergonomia verde não é a única abordagem que conecta essas duas áreas. Um estudo, publicado pela revista Sustainability da MDPI, identifica outras três: a ergoecologia, a ergonomia ambiental e a ergonomia imaterial (ou cognitiva/organizacional), cada uma com um recorte próprio sobre como equilibrar produtividade, bem-estar e cuidado ambiental.

Por que a ergonomia verde importa para a sustentabilidade

Pesquisadores vêm discutindo o papel da ergonomia dentro da agenda de sustentabilidade há décadas. No entanto, a discussão ganhou força principalmente a partir de 2010, quando um estudo realizado pela University of Kaiserslautern, na Alemanha, apontou para a necessidade de incorporar o desenvolvimento sustentável como parte da própria ergonomia, propondo conceitos básicos para o design de estruturas de trabalho mais sustentáveis.

Por outro lado, uma revisão de estudos publicada na Ergonomics no mesmo período, concluiu que o compromisso da ergonomia com a sustentabilidade e o design ambiental ainda é pequeno, apesar das duas áreas terem objetivos bastante convergentes. 

É nesse cenário que a ergonomia verde ganha relevância como uma das formas de aproximar ergonomia e sustentabilidade, uma relação que também passou a ser analisada a partir das metas de ESG (Ambiental, Social e de Governança, em tradução livre). 

Ergonomia verde e ESG

Um artigo publicado em 2025 pela Poznan University of Technology, mapeou como diferentes abordagens ergonômicas, incluindo a ergonomia verde, se conectam às metas de ESG. 

Os pesquisadores organizaram esse conhecimento em um modelo próprio, batizado de StEEM (Modelo de Sustentabilidade por meio da Excelência Ergonômica, em tradução livre), que reúne boas práticas em diferentes áreas de excelência.

Um ponto interessante levantado pelo estudo é que essa conexão entre ergonomia e ESG não é uniforme: as evidências encontradas são mais consistentes no pilar social, e mais escassas nos pilares ambiental e de governança. 

Isso sugere que, embora a ergonomia verde já tenha um discurso bem construído sobre cuidado ambiental, a comprovação prática desse impacto ainda está em construção. Ou seja, o papel da ergonomia dentro das discussões sobre sustentabilidade segue pouco explorado. 

Os princípios que orientam a ergonomia verde

Os princípios de design da ergonomia verde, propostos por Thatcher, funcionam como uma espécie de guia para empresas que querem aplicar o conceito na prática. Quanto mais uma empresa adere a esses princípios e seus componentes, maior é seu grau de conformidade com o tema. São eles:

  • buscar ecoeficiência, ecoeficácia e ecoprodutividade: significa considerar esses três aspectos ao avaliar, desenvolver e inovar produtos, processos e sistemas. Na prática, a proposta é pensar não apenas em como fazer algo funcionar de maneira eficiente, mas também em sua eficácia ambiental e em sua produtividade;
  • considerar a resiliência ecológica: nesse princípio, o desenvolvimento de produtos, processos e sistemas deve levar em conta a capacidade dos sistemas naturais de resistir a alterações e se recuperar de perturbações;
  • valorizar soluções indígenas/locais: o princípio reconhece a importância de soluções desenvolvidas em contextos locais, considerando conhecimentos, práticas e características próprias de cada região;
  • reconhecer como os sistemas naturais valorizam o design: aqui a proposta é observar os próprios sistemas naturais como fonte de conhecimento para o desenvolvimento de soluções. 

Apesar disso, nem todos os princípios têm o mesmo peso.

Peso dos componentes

Um estudo publicado na Springer Nature em 2022 reuniu um grupo de especialistas, entre acadêmicos e profissionais do setor privado, para classificar sua importância, usando um método de decisão multicritério.

O resultado: o componente considerado mais importante pelos especialistas foi reconhecer como os sistemas naturais valorizam o design. Para os pesquisadores, esse resultado reforça a importância de observar os sistemas naturais como fonte de conhecimento para o desenvolvimento de soluções alinhadas à ergonomia verde.

Além disso, as soluções locais, baseadas em conhecimentos, expertise e matérias-primas locais, também ajudam a reduzir emissões de carbono e preservar o meio ambiente. 

De acordo com a publicação, compreender essa hierarquia pode ajudar gestores a formular estratégias de ergonomia verde, além de servir como uma diretriz para empresas e contribuir para ampliar a compreensão sobre a relação entre ergonomia e sustentabilidade.

Mas o que é ergonomia verde na prática?

Exemplos práticos de ergonomia verde

Os pesquisadores também apontam alguns exemplos fora do campo teórico, demonstrando que a ergonomia verde já aparece em soluções concretas: 

  • com iniciativas voltadas para a redução da poluição de rios, buscando equilibrar as necessidades humanas com a preservação do ambiente aquático;
  • no design de produtos, com veículos movidos a energia solar com interfaces mais intuitivas, pensadas para facilitar o uso sem abrir mão da eficiência energética, e objetos fabricados em bambu, um material renovável e de baixo impacto;
  • no desenvolvimento de medidores e termostatos inteligentes, que ajudam a monitorar e reduzir o consumo de recursos em tempo real;
  • no planejamento urbano, com desenho de rotatórias capazes de reduzir emissões de veículos, evitando paradas bruscas e otimizando o fluxo.

Esses exemplos mostram que a aplicação do conceito pode alcançar diferentes áreas, do desenvolvimento de produtos ao planejamento urbano.

Limites e desafios do conceito

Apesar do avanço nas discussões, os estudos apontam que ergonomia verde ainda enfrenta obstáculos importantes. A ausência de uma metodologia consolidada é um deles. Para os pesquisadores, na prática, existe um conjunto de critérios que auxiliam em decisões de design e gestão, mas ainda há uma lacuna que deveria ser preenchida por processos padronizados.

Essa fragilidade metodológica também aparece nas evidências que sustentam a conexão entre ergonomia verde e metas ESG, já que os estudos mapearam resultados mais consistentes no pilar social e mais escassos nos pilares ambiental e de governança. Ou seja, ainda falta comprovação mais robusta de que as práticas de ergonomia verde de fato geram impacto ambiental e de governança mensurável.

Além disso, os pesquisadores também reconhecem limitações próprias, já que a classificação dos princípios de design foi feita com um grupo pequeno de especialistas, e os resultados apontam a necessidade de um painel mais amplo em estudos futuros, além do uso de outros métodos de decisão, para entender melhor como esses princípios se relacionam entre si. 

Apesar desses limites não invalidarem a proposta da ergonomia verde, eles indicam que o campo ainda está em processo de construção.

Cuidar das pessoas sem abrir mão do planeta

A ergonomia verde propõe algo relativamente simples de entender, ainda que complexo de colocar em prática: pensar em espaços, produtos e processos que funcionem bem para as pessoas sem comprometer o meio ambiente. 

Isso passa por decisões concretas, como priorizar matérias-primas e conhecimento locais, além de melhorar projetos que já existem.

Ao mesmo tempo, os próprios estudos que sustentam o conceito reconhecem que ainda há lacunas de metodologia e de evidências, especialmente quando se trata de medir o impacto ambiental de forma mais rigorosa. 

É esse equilíbrio entre potencial e limitação que torna a ergonomia verde um campo em construção, mas que já oferece ferramentas para aproximar decisões de design, bem-estar humano e sustentabilidade.

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Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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