Foto: Reprodução Jornal da Unesp / Marcelo Camargo/Agência Brasil
Por Malena Stariolo – Jornal da Unesp | Em 2024, o Brasil pegou fogo. Literalmente: da Amazônia ao Pantanal, passando pelo Cerrado e pela Mata Atlântica e chegando às áreas urbanas e agrícolas no Sudeste, grandes episódios de queimadas (alguns perdurando por semanas) resultaram em paisagens inteiras transformadas. A contabilidade feita ao final do ano registrou 30 milhões de hectares queimados, ou o equivalente à área somada dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. A informação veio do Relatório Anual do Fogo (RAF), organizado pelo MapBiomas.
A análise dos dados mostrou que a área atingida pelo fogo em 2024 ficou 62% acima da média histórica dos últimos 40 anos, um período marcado por megaincêndios florestais; algumas queimadas ocorridas dois anos atrás deixaram cicatrizes de 100 mil hectares. O levantamento ressalta a contribuição de fatores climáticos, como os períodos consecutivos de seca severa em 2022 e 2023, para o agravamento das queimadas. Porém, na visão dos especialistas ligados ao MapBiomas, foi a ação humana a causa principal para tanta devastação.
O que temos hoje é um cenário complexo, que resulta da combinação entre mudanças climáticas, expansão agropecuária, fragilização da fiscalização e, em alguns casos, suspeitas de ações coordenadas. Para os estudiosos, é urgente desvendar não apenas as razões por trás dos grandes incêndios, mas também os fatores que parecem nos impedir de atuar de forma preventiva, impedindo grandes tragédias.
Movida por esse incômodo, a pesquisadora Klécia Massi, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp, Câmpus de São José dos Campos, reuniu um grupo de especialistas nos diferentes biomas brasileiros para debater quais aprendizados podem ser obtidos dessa tragédia. Os resultados da discussão foram apresentados no artigo “Have we learned our lesson from fires of 2024 in Brazil?”, publicado na revista científica Biological Conservation.
No trabalho, o grupo analisou quase quatro décadas de áreas queimadas no país, ocorridas entre 1985 e 2024. Empregando dados do MapBiomas e técnicas de sensoriamento remoto, eles buscaram compreender quais são os padrões de incêndio e o que a história do fogo no país pode revelar. Entre os resultados, os pesquisadores observaram tendências de aumento das áreas queimadas em biomas críticos, como a Amazônia e o Cerrado, acompanhadas de temporadas de incêndios recordes em regiões que eram consideradas estáveis.
“As soluções para essa crise global exigem uma abordagem urgente e abrangente de Manejo Integrado do Fogo (MIF)”, afirmam os pesquisadores no trabalho. Segundo Massi, definir apenas uma política não é suficiente. A fim de engajar, nesses esforços, os diversos atores necessários para torná-la algo real, é preciso também que sejam desenvolvidos planos efetivos de implementação.
Ao analisar o histórico de queimadas no Brasil, os pesquisadores constataram que o avanço do fogo não acontece de maneira uniforme no território nacional. Em cerca de 10,2% do país, as áreas queimadas experimentaram um ritmo de crescimento contínuo ao longo dos anos. Já em 4,5% do território foi observado um fenômeno de “reversão”: regiões que inicialmente apresentavam queda nas queimadas passaram a registrar recentemente um aumento dos incêndios.
Segundo o estudo, essas tendências de crescimento se concentram principalmente na Amazônia e em áreas de transição entre Amazônia e Cerrado, especialmente nos estados do Maranhão e Mato Grosso.
Em sentido oposto, 22,1% do território brasileiro apresentaram redução das queimadas ao longo do período analisado. Dentro desse grupo, 17,4% tiveram queda constante nas áreas queimadas, enquanto 4,7% passaram pelo movimento inverso: registraram aumento nas décadas iniciais da série histórica, seguido por redução nos anos mais recentes. Esses padrões aparecem principalmente em partes do Cerrado e no sul da Mata Atlântica. Os pesquisadores alertam, porém, que essa diminuição não implica, necessariamente, recuperação ambiental. Em muitos casos, áreas que queimaram intensamente nas décadas de 1980 e 1990 acabaram convertidas em agricultura ou pastagem, reduzindo a presença de vegetação nativa capaz de queimar novamente.
“O período de maior degradação do Cerrado transcorreu entre 1980 e 1990, com a consolidação da fronteira agrícola. Naqueles anos, muitas áreas queimadas foram convertidas definitivamente em agricultura. Esse padrão ficou evidente no levantamento”, diz Massi.
Segundo a pesquisadora, essa mudança explica o fato de que, na última década, foram observadas poucas áreas queimadas em estados como Goiás. “Agora, vê-se o fogo na Chapada dos Veadeiros, em áreas do Pantanal, em áreas de Mata Atlântica ou no interior da Amazônia. Possivelmente, o fogo está sendo utilizado para converter novas áreas de vegetação nativa”, explica.
O estudo também identificou uma faixa de quase 44% do território nacional em que não foi possível estabelecer uma tendência clara para as queimadas. Essas áreas de “baixa confiança” se concentram sobretudo na Amazônia, no Pantanal e em regiões vizinhas do Cerrado, além de áreas do estado de São Paulo que avançam em direção ao Paraná e ao Mato Grosso do Sul. Segundo os autores, isso ocorre porque esses territórios apresentam enorme diversidade ambiental, climática e socioeconômica, tornando a dinâmica do fogo mais instável e variável ao longo do tempo.
Mesmo sem que fosse possível identificar uma tendência consolidada para essas regiões, elas chamaram a atenção dos pesquisadores pelo fato de terem concentrado algumas das maiores queimadas dos últimos anos. Em aproximadamente 15% das áreas analisadas, os recordes de incêndio ocorreram no período mais recente da série histórica. O dado evidencia que o problema deixou de atingir apenas regiões remotas e passou a alcançar tanto áreas pouco povoadas quanto regiões altamente desenvolvidas e densamente habitadas, incluindo polos agrícolas e centros urbanos.
A intensificação do fogo próximo a áreas urbanas e em territórios de dinâmica complexa, como o Pantanal, fez com que, em 2024, o Brasil aprovasse a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (MIF). Esse movimento representou um marco importante na forma como o país entende e se relaciona com o fogo. Um dos grandes diferenciais da resolução é que, ao contrário das políticas “fogo zero”, que abordam de uma forma única e homogênea os diferentes ecossistemas, a MIF reconhece os usos tradicionais do fogo e a existência de biomas que dependem do fogo. Também estabelece regras para queimadas controladas, além de criar mecanismos de governança nacional amparada em iniciativas locais.
Durante décadas, o debate público brasileiro associou fogo apenas à destruição. A ideia de “fogo zero” passou a orientar campanhas ambientais e políticas públicas. O problema, segundo Massi, é que essa lógica ignora a diversidade ecológica dos biomas brasileiros. A Mata Atlântica e a Amazônia são ecossistemas sensíveis ao fogo. Neles, a vegetação não evoluiu em convivência com queimadas frequentes. Já o Cerrado, o Pantanal e o Pampa possuem uma longa história ecológica ligada ao fogo natural ou manejado, e seus processos ecológicos são influenciados por esse elemento. Isso significa que o fogo pode ter papéis completamente diferentes dependendo do território.
No artigo, os pesquisadores levaram em consideração as diferenças entre os ecossistemas, considerando as ações previstas de manejo integrado do fogo. Segundo a pesquisadora, em áreas de floresta densa o objetivo deve ser prevenir e combater qualquer incêndio. Já nos biomas abertos, como Cerrado e Pantanal, existem situações em que queimadas prescritas e controladas ajudam a restaurar regimes naturais e evitar incêndios de grandes proporções.
Essa distinção é central para a Lei de Manejo Integrado do Fogo (MIF), que busca equilibrar prevenção, combate, monitoramento e uso controlado do fogo conforme as características ecológicas de cada região. Massi defende que essa é uma legislação excepcional e que incorpora várias das demandas defendidas pela comunidade científica, porém vê com cautela sua implementação. “Não adianta ter uma lei boa, mas uma fiscalização deficitária”, afirmam os autores.
“Por exemplo, dentro da lei existe a determinação de que os estados devem desenvolver sua legislações próprias. Quem vai fiscalizar isso? Qual será o prazo para a definição dessas legislações?”, questiona o texto.
Além disso, a pesquisadora também destaca a falta de ferramentas, de treinamento e de recursos humanos e financeiros para garantir a boa aplicação da nova legislação. Segundo o artigo, cerca de 4.900 municípios brasileiros não possuem sequer um corpo de bombeiros. E aqueles que contam com a corporação, muitas vezes, não têm carros para monitoramento, equipamentos básicos de combate ao fogo ou locais adequados de trabalho e armazenamento de materiais. “Realmente, a lei é um passo importantíssimo, mas existem várias outras estruturas que precisam ser aparelhadas”, diz Massi.
Quanto mais avançam as pesquisas em torno do uso do fogo no Brasil, mais complexa se torna o quadro de interações e problemáticas que ele envolve. Para evitar cair na armadilha de mirar em objetivos grandes demais, o que pode redundar em paralisia, Massi sugere que um primeiro passo deveria ser um grande diagnóstico territorial: identificar quais municípios possuem brigadas civis, quais são dotados de equipamentos, quais regiões concentram maior risco e onde as queimadas se repetem com maior frequência.
A pesquisadora propõe inclusive que perguntas relacionadas ao fogo sejam incorporadas ao próximo Censo Agropecuário, para permitir políticas públicas mais precisas e territorializadas. “Se o fogo é uma questão, isso precisa fazer parte de um censo para começarmos a obter informações mais precisas, saber quais são as lacunas, organizar recursos. Nós precisamos usar a estrutura que já temos pronta”, afirma.
Embora haja escassez de dados para compreender a dimensão do impacto humano no cenário de queimadas que vivemos em 2024, os pesquisadores afirmam que os grandes incêndios que nos acostumamos a testemunhar não podem ser explicados apenas pelo clima. O fogo resulta de uma combinação entre extremos climáticos, mudanças no uso da terra, degradação ambiental e decisões políticas.
No artigo, os autores criticam diretamente o processo de desregulamentação ambiental vivido pelo país desde 2015, marcado principalmente pelo desmonte de órgãos como o IBAMA e o ICMBio, e afirmam que políticas antiambientais contribuíram para o agravamento das queimadas. Apesar disso, Massi aponta que existem ações recentes de fiscalização federal que merecem destaque, mas a situação se mantém instável, em especial, destaca a pesquisadora, em anos mais secos e períodos eleitorais, como é o caso de 2026.
Frente a todas as complexidades e incertezas que envolvem a discussão sobre o manejo e o controle do fogo, os pesquisadores concluem que o momento atual do Brasil é de aprendizado. Apesar dos avanços científicos e legais, o país continua vulnerável a incêndios de grandes proporções. Para que se tornem menos frequentes, é preciso apostar em projetos massivos de diagnóstico e implementação das legislações que já estão em vigor.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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