Diabrotica speciosa é o nome científico de um besouro conhecido vulgarmente por vaquinha-verde-amarela da família Chrysomelidae, família de besouros com maior número de espécies registradas no Brasil. Foto: Paulo Roberto Valle da Silva Pereira/Embrapa
Por Jéssica Tokarski – Ciência UFPR | Brasil reúne a maior diversidade de besouros do mundo, com mais de 35 mil espécies registradas. Mas o grupo está longe de ser totalmente conhecido. Hoje, cerca de 144 novas espécies brasileiras são descritas anualmente e, se a tendência continuar, o número pode chegar a 180 por ano na próxima década, o equivalente a uma espécie descoberta a cada dois dias.
Isso é o que mostra um trabalho publicado no periódico da Sociedade Brasileira de Zoologia, que reuniu 100 pesquisadores de 15 países, para analisar o panorama atual da ordem dos besouros (Coleoptera) no país. O estudo usou dados do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB), inventários de biodiversidade de outros países (para fins de comparação), além do primeiro inventário nacional de Coleoptera, desenvolvido por Cleide Costa, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), em 2000, e outros documentos.
A ordem Coleoptera é a maior e uma das mais diversificadas ordens de insetos do planeta, segundo Edilson Caron, professor do Departamento de Biodiversidade da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e primeiro autor do artigo.
“Não é possível imaginar o mundo sem a ação dos besouros. Eles estão em todos os lugares: desde o solo, construindo galerias e camadas internas, até o topo das árvores mais altas, consumindo, polinizando e interagindo com todos os estratos”, diz Caron.
Uma das características que ajudam a explicar a diversidade dos besouros é a metamorfose completa, com quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto. Cada estágio apresenta características e necessidades diferentes, permitindo que uma mesma espécie explore recursos e ambientes variados. Além disso, os besouros possuem uma estrutura que contribui para sua capacidade de adaptação: os élitros, asas anteriores endurecidas que funcionam como uma proteção para o corpo, explica o pesquisador.
Foram contabilizadas 35.699 espécies de besouros no Brasil, distribuídas em 4.958 gêneros pertencentes a 116 famílias. Isso representa aproximadamente 40% a mais de espécies do que há em toda a América do Norte. Os autores estimam que o país reúna em torno de 9% de todas as espécies de besouros descritas no mundo, podendo chegar a 15% da diversidade mundial quando se considera o número provável de espécies ainda desconhecidas.
Em comparação com o levantamento feito por Cleide Costa há 26 anos, a quantidade de gêneros registradas no Brasil cresceu aproximadamente 29%, enquanto a de espécies aumentou em torno de 33%. Apesar dos números impressionantes, pesquisadores apontam que há muito a descobrir. Alguns grupos são pouco estudados e várias famílias nunca foram registradas oficialmente.
As duas famílias mais diversas de besouros do mundo são Curculionidae, conhecida pelos besouros-bicudos, e Staphylinidae. No Brasil, a liderança é da família Chrysomelidae, das populares vaquinhas, com 6.079 espécies registradas. Na sequência estão Curculionidae, com 5.904 espécies, e Cerambycidae, os famosos serra-paus, com 4.366.
“Essa constatação se deve, principalmente, a especialistas que historicamente estudaram a fauna brasileira e aos esforços dedicados, ao longo de suas carreiras, à descrição da biodiversidade e ao aprimoramento da capacidade de identificação desses grupos”, diz o professor Fernando Willyan Trevisan Leivas, do Departamento de Biodiversidade da UFPR e coautor do artigo.
Ainda assim, o número de especialistas no estudo de insetos (entomologistas) é insuficiente por aqui, lamenta Leivas. Mesmo diante dessa dificuldade, algumas famílias, como Hydraenidae, Attelabidae e Heteroceridae, passaram a ser mais conhecidas a partir dos anos 2000. Outras, porém, praticamente não foram estudadas nas últimas décadas. O levantamento ajuda a revelar essas lacunas e a indicar onde ainda há oportunidades de pesquisa, segundo Caron.
O professor ressalta, entretanto, que esse estudo trata apenas da descrição das espécies. Assim, há necessidade de mais pesquisas que contemplem a biologia dos animais, sua função no ambiente e os potenciais econômicos desses insetos, a exemplo de seu papel na atividade agrícola.
Caron alerta que é essencial conhecer espécies para avançar na preservação delas e minimizar sua extinção. “Algumas são endêmicas, ou seja, ocorrem apenas em determinado local. Se aquele local é suprimido antes de estudos satisfatórios, corremos um risco de perder um conhecimento que ajudaria no entendimento de várias questões”, explica.
O estudo colabora significativamente para enfrentar esse desafio, pois reúne dados sobre habitat e interações entre os besouros, que são essenciais na dinâmica de todos os biomas brasileiros. Quanto mais informações houver sobre a distribuição, a biologia e as relações ecológicas, maior será a capacidade de direcionar estratégias de conservação.
Os próximos passos incluem aumentar os registros de distribuição das espécies no país, e ampliar a disponibilidade de dados sobre biologia e ecologia desses animais, além de agregar novos pesquisadores que contribuam com o levantamento para continuar avançando no projeto.
O Instituto Nacional de Coleoptera (INCol), que tem como membro do comitê gestor a professora Lúcia Massutti de Almeida (do Departamento de Zoologia da UFPR), contribui para esse objetivo desde 2025, conectando especialistas de diferentes áreas para estudar, identificar e valorizar a diversidade de besouros do Brasil.
Leia o artigo Coleoptera of Brazil: what we knew then and what we know now. Insights from the Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil, publicado no periódico Zoologia (aberto; em inglês)
Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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