Ciência & Meio Ambiente

Desastre no Nepal era tragédia anunciada

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Por Roberto Kaz – Observatório do Clima | Para o especialista em diplomacia climática Manjeet Dhakal, a tragédia ocorrida na última semana, no Nepal, já estava anunciada. Ligado à universidade de Katmandu e à Climate Analytics, Dhakal é autor de um estudo sobre os riscos da mudança climática no Nepal, publicado em julho deste ano na revista científica “Frontiers in Climate”. No texto, assinado com mais seis pesquisadores, ele escreve frases que, agora, soam tristemente proféticas. 

Sobre a situação atual: “O aumento do derretimento de geleiras e da neve, combinado com chuvas intensas de monções, está mudando rapidamente a hidrologia dos aproximadamente 6 mil rios que se originam no Himalaia, aumentando os riscos de inundações em zonas urbanas (…) com perdas recorrentes de vidas.” 

Sobre a situação futura, num caso de aquecimento global superior 1,5 °C, para onde o mundo tem caminhado: “Com temperaturas superiores a 1,5 °C, o risco de alagamento, derretimento de geleiras, Inundação por ruptura de lago glacial e secas aumentaria significativamente, desafiando muitos sistemas além de seus limites de adaptação, afetando desproporcionalmente comunidades de baixa renda e marginalizadas com capacidade limitada de resposta.” 

Provocada pelo desabamento de uma geleira no Himalaia, a enchente ocorrida na semana passada engoliu vilas inteiras no Nepal, deixando 939 mortos e 3.925 desaparecidos até a última contagem. Em uma estimativa inicial, e possivelmente baixa, o ministro das Finanças do país, Swarnim Wagle, disse precisar de US$5 bilhões – ou um décimo do PIB nepalês – para cobrir os danos nas áreas devastadas.

Nessa entrevista por email ao Observatório do Clima, Dhakal explica que certas medidas de adaptação podem ser adotadas para limitar os efeitos de novas enchentes, mas alerta: “A adaptação por si só não pode acompanhar o ritmo indefinidamente; a solução a longo prazo também exige uma redução rápida das emissões globais de gases de efeito estufa.”

Observatório do Clima – É cedo para atribuir a recente tragédia às mudanças climáticas? Vocês têm registro da última vez em que a queda de uma geleira causou uma inundação de tal magnitude? 

Manjeet Dhakal – Normalmente dizemos que é muito cedo para atribuir um evento específico diretamente às mudanças climáticas; no entanto, o sinal climático mais amplo desta tragédia é claro. O Himalaia está aquecendo rapidamente, as geleiras estão recuando e se desestabilizando. Como nosso estudo mostra, o aquecimento antropogênico aumentou significativamente o calor extremo e as fortes chuvas em todo o Nepal. O país tem um longo histórico de desastres relacionados a geleiras, incluindo a inundação glacial repentina de Dig Tsho em 1985 e a inundação de Thame em 2024. Registros históricos de inundações e deslizamentos de terra também remontam a 1971, embora os conjuntos de dados difiram em cobertura e metodologia.

Existe algum caminho de adaptação para lidar com esse tipo de problema? Ou a mitigação das emissões de gases de efeito estufa seria a única resposta razoável?

Tanto a mitigação quanto a adaptação são essenciais. As medidas de engenharia funcionaram no Nepal: a redução dos níveis de água em Tsho Rolpa e Imja Tsho demonstra que os riscos podem ser reduzidos. Sistemas de alerta precoce, monitoramento de geleiras e lagos, mapeamento de riscos e infraestrutura resiliente ao clima são igualmente importantes. Mas essas intervenções são caras e difíceis de serem implementadas em larga escala em terrenos de alta montanha. Portanto, a adaptação tem limites. Reduções profundas nas emissões globais são essenciais para evitar que os riscos aumentem, enquanto um financiamento substancialmente maior para adaptação é necessário. Quando os impactos não puderem mais ser evitados, o apoio para perdas e danos torna-se crucial.

Este caso pode ser instrutivo para mostrar o impacto das mudanças climáticas na vida das pessoas? Você tem ideia do perfil social das pessoas que foram afetadas?

Se uma tragédia dessa magnitude não fizer o mundo reconhecer os riscos crescentes enfrentados pelas comunidades mais vulneráveis, é difícil imaginar quantos outros desastres serão necessários. A população afetada é diversa: comunidades locais cujos assentamentos e meios de subsistência foram destruídos, motoristas e empresas ao longo de um importante corredor comercial na fronteira entre o Nepal e a China, trabalhadores de usinas hidrelétricas, peregrinos do local sagrado hindu e turistas internacionais na trilha de Langtang. Muitos perderam entes queridos, muitas famílias locais têm recursos limitados para se recuperar, tornando as consequências sociais particularmente graves.

Uma tragédia como essa poderia ser evitada ou ao menos atenuada com um melhor planejamento governamental? 

Para um evento de escala e velocidade extraordinárias, há limites para o que o planejamento poderia ter evitado. A enchente sobrecarregou a infraestrutura e os sistemas de alerta, e a magnitude parece ter ultrapassado o que havia sido previsto anteriormente. Mas há lições importantes: alertas precoces mais robustos e capazes de lidar com múltiplos riscos, monitoramento contínuo em montanhas altas, planejamento de uso da terra baseado em avaliações de risco, além da construção de uma infraestrutura resiliente ao clima e de uma coordenação institucional. Os governos precisam se planejar para extremos que ultrapassem a perspectiva histórica. No entanto, a adaptação por si só não pode acompanhar o ritmo indefinidamente; a solução a longo prazo também exige uma redução rápida das emissões globais de gases de efeito estufa para estabilizar o aumento da temperatura global.

Como você avalia os riscos associados a novos desastres climáticos no Nepal? Você tem alguma esperança de que este caso mude os debates e as decisões na COP31?

O Nepal enfrenta riscos crescentes de enchentes, chuvas extremas, calor, recuo de geleiras e deslizamentos de terra em montanhas altas. Nossa pesquisa mostra que esses riscos já estão sendo amplificados pelo aquecimento antropogênico. A COP31 deve responder a tragédias como essa com ações mais fortes: reduções mais profundas nas emissões, transição acelerada para longe da dependência de combustíveis fósseis, financiamento substancialmente maior para adaptação e apoio adequado para perdas e danos. A comunidade internacional tem a responsabilidade imediata de apoiar a recuperação. Mesmo antes da COP31, o Fundo de Perdas e Danos da ONU, criado na COP27, tem uma importante oportunidade de demonstrar aquilo para o que foi criado.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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