Água e Saneamento

Rios vivos, pessoas saudáveis: projeto em MG conecta saúde humana à dos ecossistemas

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Por Fernanda Biasoli – Mongabay | Cerca de trinta anos atrás, Apolo Heringer, médico sanitarista, participava de uma pescaria noturna com moradores da comunidade de Raiz, no município de Presidente Juscelino, em Minas Gerais. Naquela noite, a captura dos peixes era feita com arpão e, para garantir alguma visão, os pescadores utilizavam um farol que iluminava todo o rio. Quando a luz refletiu pela primeira vez o que estava embaixo d’água, Heringer enxergou o que definiria os próximos capítulos de sua atuação enquanto médico: ali, estavam peixes aos milhares. “Era como se fosse uma alegria aquela convivência de tudo quanto é peixe dentro do rio limpinho”, ele contou para a Mongabay. “Isso é que é saúde.”

Além de médico, Heringer é também escritor e professor. Deu aulas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) por 33 anos e, durante sua atuação na universidade, idealizou o Projeto Manuelzão, fundamentado em suas percepções sobre peixes e rios — e saúde. Oficialmente fundado em 1997 como um projeto de extensão universitária do curso de Medicina da UFMG, hoje o Manuelzão tem um caráter multi e interdisciplinar, contando com a participação de estudantes, professores e pesquisadores de diferentes áreas como Biologia, Geografia e Comunicação para revitalizar uma bacia hidrográfica e trazer os peixes de volta.

O nome é uma homenagem a um personagem criado pelo escritor mineiro João Guimarães Rosa no livro Manuelzão e Miguilim. O protagonista foi inspirado em Manuel Nardi, vaqueiro que guiou o escritor em uma lendária expedição através do sertão mineiro nos anos 1950, apresentando-lhe a paisagem, os rios e a fauna do Cerrado.

Manuelzão, o projeto, pensa a sua atuação a partir do conceito de saúde coletiva e entende que, assim como não existem peixes sem rios, não há saúde humana sem a saúde dos ecossistemas. “A saúde coletiva é a ecologia. É o equilíbrio dos ecossistemas. Então, a saúde é produto de um ecossistema. A assistência médica não é saúde. A assistência médica é um serviço, é uma prestação de serviço”, diz Heringer.

Trecho do Rio das Velhas. Foto: Leo Boi/CBH Velhas.

Partindo desse princípio integrativo, os idealizadores do Projeto Manuelzão escolheram atuar em um território que abriga vários ecossistemas: a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, que atravessa o coração de Minas Gerais. Lá, o projeto desenvolve ações por meio de grupos de trabalho chamados de Núcleos Manuelzão, que envolvem a sociedade civil, autoridades públicas e o setor privado em atividades de educação ambiental e mobilização social. O trabalho de pesquisa é feito por meio do  NuVelhas, o Núcleo Transdisciplinar e Transinstitucional pela Revitalização da Bacia do Rio das Velhas, onde professores e alunos monitoram a fauna da bacia hidrográfica e promovem iniciativas de ciência cidadã.

O Projeto Manuelzão também tem impacto nas políticas públicas do estado de Minas Gerais: a iniciativa mais recente foi o lançamento da Meta 2034, que tem a finalidade de restaurar a saúde do rio nos próximos 8 anos. Esse objetivo foi parcialmente alcançado em 2010 (com a Meta 2010); agora, a ideia é revitalizar a Bacia dos Rio das Velhas por inteiro.

O médico Apolo Heringer e o vaqueiro Manuel Nardi, inspirador do Projeto Manuelzão, em 1995. Foto cedida por Apolo Heringer.

Um rio destruído

O Rio das Velhas nasce perto de Ouro Preto e percorre 806 quilômetros até desaguar no Rio São Francisco. No trajeto, sua bacia hidrográfica banha 51 municípios, onde vivem mais de 4 milhões de pessoas. A maior parte delas estão na Grande Belo Horizonte, que é a terceira maior região metropolitana do Brasil. Embora a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) ocupe apenas 10% da área total da Bacia do Rio das Velhas, ela concentra mais de 70% de sua população. A combinação de alta densidade populacional, planejamento urbano inadequado e falta de infraestrutura causou danos aos rios que atravessam a região, em particular o Ribeirão Arrudas, afluente do Rio das Velhas que atravessa a área central da capital mineira. Hoje, ninguém navega, ninguém pesca e ninguém nada naquelas águas.

Foi esse contexto que levou o Projeto Manuelzão a focar a Meta 2034 na RMBH, uma escolha estratégica que levou em consideração a natureza interconectada de uma bacia hidrográfica. Tudo é contínuo, conectado e fluido. Tudo conflui. O que acontece em um ponto afeta diretamente toda a bacia, de forma positiva ou negativa.

Marcus Polignano é médico sanitarista, professor da UFMG e coordenador do Projeto Manuelzão. Ele contou à Mongabay que na RMBH “praticamente se concentram 80% da degradação do rio. Ou seja, se eu concentrar todos os esforços de política, de recursos, de economia para revitalizar o rio, naquele ponto específico, efetivamente a gente tem ali uma situação interessante e importante para poder fazer a revitalização”.

Isso significa que, por ser a região mais urbanizada da Bacia do Rio das Velhas, a RMBH também sofre maior pressão da ação humana. A poluição em suas águas é a principal causa de degradação no restante da bacia hidrográfica, pois os esgotos despejados na capital mineira e nos municípios-satélite são transportados para os outros rios, compartilhando as águas com peixes, anfíbios, aves e inúmeros outros seres vivos que coexistem no território, incluindo as pessoas. Por isso, uma das atividades centrais do projeto é incentivar a revitalização da bacia hidrográfica, e uma forma de fazê-lo é garantir a coleta e o tratamento adequados do esgoto.

Em 2004, quando o Projeto Manuelzão lançou a Meta 2010, o governo estadual a adotou com grandes ideias de longo prazo em mente. “A gente cria a primeira estratégia inovadora em termos de política de gestão de águas no Brasil, que é essa visão estratégica de ter uma meta de revitalização”, diz Polignano.

A partir de então, foi construída do zero uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) em outro importante rio de Belo Horizonte: o Ribeirão da Onça, cujas águas alimentam a Lagoa da Pampulha. Essa ETE contribuiu para o tratamento de esgoto que já vinha sendo feito desde 2001 no Ribeirão Arrudas. Embora a ETE do Arrudas tenha sido inaugurada antes da Meta 2010, sua construção também foi influenciada pelo Manuelzão, segundo Heringer.

Um dos relatórios do projeto afirma que o volume de esgoto tratado pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) aumentou de 41 milhões de metros cúbicos em 2003 para 85 milhões em 2008. Em 2010, o número chegou a 127 milhões de metros cúbicos de esgoto tratado. Esses esforços trouxeram resultados, e uma presença começou a ser notada nas águas da RMBH.

Ribeirão Arrudas, afluente do Rio  das Velhas, no ponto em que atravessa Belo Horizonte Foto: Andrevruas, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

A volta do peixe ao rio

Pesquisadores do Manuelzão monitoram os peixes da região desde 1999 e, em 2010, já contavam com 11 anos de dados para trabalhar, confirmando uma melhora notável na presença desses animais em águas mais próximas à Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em estudos anteriores, os pesquisadores perceberam que os peixes não se aproximavam da região por conta da quantidade de esgoto que havia na água. No entanto, após a construção das ETEs, esse cenário começou a mudar.

Carlos Mascarenhas, biólogo do Manuelzão e coordenador do NuVelhas, centro de pesquisa do projeto, disse à Mongabay que “a fauna foi se alterando em função da melhoria da qualidade da água. Então, peixes que só ocorriam mais a jusante na bacia, ou seja, mais para baixo, começaram a aparecer mais próximos aqui de Belo Horizonte”.

“A volta do peixe ao rio”, como diz o site do projeto, é o principal objetivo do Manuelzão, pois o animal é entendido como um bioindicador, ou seja, um ser vivo utilizado para indicar a qualidade de um ecossistema. Muitos animais podem ser bioindicadores, mas o peixe foi escolhido por ser “genuíno das águas, carismático, fotogênico, mobilizador e até mesmo ‘amado’ por seus predadores humanos”, segundo o site.

Em 2018, o dourado (Salminus franciscanus) foi eleito o peixe-símbolo da Bacia do Rio das Velhas, pois é considerado um peixe exigente, que precisa de muito oxigênio para sobreviver. Como as águas poluídas apresentam baixos níveis de oxigênio — pois as bactérias responsáveis pela decomposição da matéria orgânica, como fezes, urina e restos de alimentos, consomem a maior parte desse gás —, a presença do dourado é interpretada como um indicador de boa qualidade da água.

Mas isso não é tudo. Heringer também enfatiza a dimensão econômica e social do animal. Em geral, quando os rios são danificados, “é o pobre que fica com água poluída, que não pode dar para criação, porque o animal morre com a água poluída e eles não têm peixe também. Se tem, não pode comer. [O peixe] é uma disputa econômica pela vida”, diz o médico.

Mas, mesmo com esses esforços, a Meta 2010 não foi totalmente alcançada: naquele ano, ainda não era possível nadar na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Para nadar, nós precisávamos de uma qualidade melhor das águas e também das estações de tratamento de esgoto” que pudessem tratar a água em um nível mais alto, com “a remoção de bactérias e desses contaminantes de matéria orgânica”, diz Polignano.

Exemplar de dourado (Salminus franciscanus) no Aquário do Rio São Francisco, em Belo Horizonte: Foto: Cid Costa Neto, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Tudo está conectado

É nesse cenário que a Meta 2034 do Projeto Manuelzão retoma a Meta 2010, acompanhando também as mudanças na legislação brasileira. Em julho de 2020, foi instituído o Novo Marco Legal do Saneamento, que tem entre seus objetivos universalizar o saneamento no país. A lei estabelece que, até 2033, 90% da população do país deve ter acesso à coleta e ao tratamento de esgoto, e 99% ao acesso à água potável. “Entendemos que 2034 é um ano decisivo para que essas políticas sejam efetivamente implementadas”, diz Polignano.

A meta atual é restaurar as águas no epicentro da degradação: o trecho entre os municípios de Itabirito, ao sul da capital mineira, e Santa Luzia, ao norte. Nessa região, as águas são classificadas como Classe 4, a pior classificação de qualidade, de acordo com a Resolução 357/2005 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. “Não é um rio, é um esgoto”, diz Heringer. O objetivo é chegar à Classe 2, águas que permitem a navegação e a pesca, além de serem próprias para consumo humano após tratamento convencional.

Esses objetivos demonstram como o Projeto Manuelzão trabalha para transformar a relação entre os seres humanos e o planeta Terra, reforçando a ideia de que tudo está conectado. Ana Lúcia Fernandes Mendonça, teóloga e coordenadora educacional de um curso de Teologia para leigos em Minas Gerais, não envolvida no Manuelzão, conheceu o projeto na década de 1990, durante uma aula de Geografia. Ela acompanha o trabalho do projeto desde então e afirma que as atividades do Manuelzão são essenciais para proteger os ecossistemas, pois unem “ciência, educação e mobilização social para restaurar rios, preservar a biodiversidade e promover uma relação mais equilibrada entre as pessoas e a natureza”.

E é essa relação mais equilibrada que contribui para a promoção da saúde humana na qual o Manuelzão acredita. Mas, quando o projeto começou, essas relações eram mal compreendidas. “O estudante de Medicina não quer saber porque que o povo está doente, quer saber dar remédio”, diz Heringer. “Então, se tem verme, dá remédio para verme. Mas não tem muito interesse espontâneo de combater a causa do verme, que é a água poluída. O projeto Manuelzão fez uma proposta e a Medicina começou a entender que, se o peixe voltar, e a água estiver limpa, vão adoecer menos pessoas. E isso passou a ser reconhecido, já virou ideia normal”.

“O projeto Manuelzão não é um projeto de faxina do rio, limpar o rio”, conclui Heringer. “O projeto Manuelzão é um projeto de mudança da mentalidade da Terra.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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