Foto: Divulgação IPHAN
Por Notícias da UFSC & Iphan | O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o registro da pesca com botos no Sul do Brasil como Patrimônio Cultural brasileiro. A decisão foi tomada em 11 de março durante reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância deliberativa máxima do Iphan.
O fenômeno raro de cooperação entre pescadores artesanais e golfinhos do litoral de Laguna é tema do documentário Garbo: a Elegância é Coletiva, disponível gratuitamente no YouTube. O filme explora a relação ecossistêmica entre os pescadores de tarrafa e os chamados Botos de Laguna. Durante a temporada da tainha, quando os peixes se concentram na região, os golfinhos ajudam a indicar o momento ideal para que os pescadores lancem suas redes, em um exemplo singular de interação entre humanos e animais.
A obra também destaca o trabalho científico realizado pelo Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração do Sistema Estuarino de Laguna e Adjacências (PELD SELA), projeto que reúne diferentes linhas de pesquisa conduzidas simultaneamente em todo o sistema estuarino da região, onde rio e mar se encontram. A produção propõe uma reflexão sobre a importância do respeito, da empatia e da cooperação entre os elementos que compõem o ecossistema, integrando ciência, arte e consciência ambiental.
A realização é da Mysticeta Films e do projeto PELD SELA, desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por meio do Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LAMAQ), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) e da UFSC.
A Pesca com Botos no Sul do Brasil ocorre em quatro estuários localizados entre o Sul de Santa Catarina e o Norte do Rio Grande do Sul. A foz do Rio Tramandaí (RS), entre as cidades gaúchas de Imbé e Tramandaí, e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, em Laguna, são os locais de maior frequência e incidência, podendo ocorrer ocasionalmente nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC). A prática já é patrimônio imaterial de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) desde 2018.
O trabalho de Elaboração de Dossiê de Registro Saberes e Práticas Tradicionais associados à Pesca Artesanal com o Auxílio de Botos em Laguna/SC e demais ocorrências no Sul do Brasil foi desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa Canoa, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, e contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu). As atividades para confecção do dossiê começaram no segundo semestre de 2023, concentrando-se principalmente em Laguna e no Rio Tramandaí. No ano passado, o documento foi enviado para submissão ao Iphan.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou o ineditismo do registro devido à conjunção do olhar social, ambiental e biossocial. “É um chamado, uma convocação a um pensamento holístico, sistêmico, sustentabilista acerca do Patrimônio Cultural e, principalmente, comprometido com esse momento da história em que a humanidade precisa tomar uma decisão se vamos nos destruir ou se vamos permitir àqueles que ainda não nasceram viver dignamente” analisou Grass.
O movimento na praia começa cedo. Homens e mulheres se posicionam às margens do estuário, com suas tarrafas e redes, aguardando o momento certo de lançá-las às águas. E, então, chega a hora: um a um eles aparecem com suas barbatanas e dorsos cinzas, se lançando para o alto, indicando com precisão onde o cardume se encontra. É por meio desse pacto colaborativo com a natureza que acontece a Pesca com Botos no Sul do Brasil, cujo registro como Patrimônio Cultural foi aprovado no último dia 11.
A decisão foi tomada no segundo dia da 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância deliberativa máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A atividade foi inscrita no Livro dos Saberes, reconhecendo um conhecimento tradicional profundo, que revela a estreita relação que os pescadores do litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul guardam com seu entorno natural.
O parecer, relatado pelo conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), justificou o pedido de registro do bem por sua profundidade histórica, complexidade socioecológica e valor simbólico e afetivo. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o parecer. Além disso, o texto aponta que esse registro pode ampliar os limites do patrimônio cultural para além do humano “em sintonia com as demandas socioambientais do presente e as novas éticas não-antropocêntricas de coabitação entre espécies”.
Para o diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan (DPI/Iphan), Deyvesson Gusmão, é importante destacar o investimento recorde da atual gestão do Iphan nas políticas de valorização do patrimônio imaterial e a colaboração com outros atores nesse processo. “A partir de 2023, foi uma decisão política de confiarmos na universidade pública brasileira e na sociedade civil organizada” explicou.
O pescador artesanal Reinaldo Florentino espera que o registro da atividade pelo Iphan auxilie na preservação da espécie. “Se nós não resolvermos o habitat dos botos, todos irão morrer. São 16 ou 18 botos que interagem hoje com o pescador. Nesse patamar, daqui seis anos não vai mais existir botos, apenas por fotos. Eu falo com propriedade, porque eu vivo da pesca com o boto, eu sou um pescador profissional. Quando morre um boto, a gente chora, parece um membro da nossa família. Às vezes, eu estou no meu bote às 3h ou 4 h da manhã, e eles estão do meu lado. Eu conheço um por um, todos eles tem nome, a Borracha, a Princesa, a Jade, o Fúria, o Natalino, o Cabeça-Feia, a Pomba” declarou emocionado.
Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dos botos-de-Lahille – a espécie envolvida na pesca colaborativa com os pescadores da região – de vulnerável para em perigo de extinção. De acordo com a entidade, as espécies são classificadas em nove grupos, conforme risco de serem extintas: Pouco Preocupante (LC), Vulnerável (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR) e Extinto (EX). Estima-se que a população mundial total desses animais é de cerca de 330 indivíduos, a maioria deles, no litoral sul do país.
A Pesca com Botos no Sul do Brasil ocorre em quatro sistemas estuarinos (ecossistemas de transição entre águas doces e salgadas) localizados entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A foz do Rio Tramandaí (RS) e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, junto à cidade de Laguna, são os locais de maior frequência e incidência, podendo ocorrer ocasionalmente nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC). A prática já é patrimônio imaterial de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), desde 2018.
O processo, apesar de parecer natural, demanda técnica e conhecimento prévios e específicos dos pescadores, pois os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador a tarefa de decidir quando o cetáceo está auxiliando a pesca e quando não está.
Além disso, é necessário saber acumulado sobre a natureza, com a qual eles se defrontam cotidianamente na lida da pesca: o movimento dos ventos e das marés; os hábitos dos peixes e dos botos; as peculiaridades da geografia local.
A prática ocorre da seguinte forma: durante a época da pesca, geralmente nos meses de maio, junho e julho, durante o outono, os pescadores se reúnem no estuário e aguardam o sinal dos botos. Os animais direcionam o cardume até encurralá-lo em frente aos humanos. Quando isso acontece, o boto salta, e alguns até emitem sons, avisando que esse é o momento certo de jogar a isca.
A pesca cooperativa não ocorre com animais anônimos e genéricos: eles têm nomes próprios, geralmente associados às suas características e habilidades – ou falta delas. Taffarel era um boto muito pulador, tal qual seu homônimo; já o Alumínio era tão cinza que, quando a luz do sol refletia no seu couro, brilhava, lembrando o metal; o Lobisomem foi batizado assim, devido à sua nadadeira comprida.
A morte de um boto é esperada, seja em função do envelhecimento, seja por causa da poluição ambiental. Apesar disso, essa partida não passa despercebida. Casos como do Lobisomem e da Caroba, mortos em 2005 e 2022, respectivamente, causaram comoção em suas comunidades. A morte da fêmea, boto mais antigo de Laguna, levou à criação de um santuário em homenagem aos animais que já se foram.
A relação estabelecida no processo da pesca com botos é mais que um pacto laboral: é cooperação, é harmonia. E, a partir de hoje, é, também, Patrimônio Cultural Brasileiro.
Para saber mais sobre Pesca com Botos no Sul do Brasil, acesse a plataforma Bem Brasileiro e confira, abaixo, o vídeo do dossiê de registro!
Este texto foi originalmente publicado pela UFSC e IPHAN, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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