Ômega-3 durante a gestação tem benefícios, mas o excesso deve ser evitado, dizem pesquisadores da UFPR. (Foto: Nathalia Photo/Pexels)
Por Livia Inacio – Ciência UFPR | Não foi por acaso que o ômega-3 virou um queridinho da suplementação entre gestantes. Desde a década de 1970, estudos vêm demonstrando seus benefícios para o desenvolvimento do sistema nervoso do bebê, além do papel na modulação da resposta inflamatória da mãe e do feto. Mas em que quantidade ele deixa de ser benéfico e passa a ser prejudicial? Essa foi a pergunta que guiou a tese de doutorado de Matheus Felipe Zazula, orientado pela professora Katya Naliwaiko, do Departamento de Biologia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O estudo, realizado com 200 ratas da linhagem Wistar, investigou os efeitos de diferentes doses de ômega-3 durante a gestação a partir de um conceito da toxicologia conhecido como hormese. Segundo esse princípio, uma mesma substância pode produzir efeitos diferentes conforme a dose: ser benéfica em determinadas quantidades e prejudicial em outras, mostrando que, em biologia, nem sempre mais é melhor.
Zazula também incorporou conceitos do DOHaD (Developmental Origins of Health and Disease, ou Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença), campo que investiga como as condições da gestação e os primeiros anos do indivíduo influenciam sua saúde por toda a vida. A ideia era ajudar a entender em que medida o excesso de ômega-3 poderia causar riscos para a mãe e levar a danos duradouros para o bebê.
O ômega-3 é uma família de ácidos graxos poli-insaturados, tipo de gordura essencial para o funcionamento do organismo que participa do desenvolvimento do cérebro e da retina, da regulação da resposta inflamatória e da saúde cardiovascular. Como o organismo humano não consegue produzir quantidades suficientes de alguns desses compostos, como o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosa-hexaenoico (DHA), eles precisam ser obtidos pela alimentação ou por suplementação.
O problema é quando o consumo é excessivo. Segundo Zazula, estudos anteriores ao seu já apontavam que doses superiores a 3 g/dia de EPA e DHA exigem monitoramento clínico devido ao risco de efeitos adversos. Outras pesquisas indicavam ainda que, quando a suplementação ultrapassava de 4 a 6 g/dia, os benefícios cardiovasculares tendiam a se estabilizar ou até se reverter.
Apesar desses achados, ainda há lacunas sobre os riscos associados ao consumo abundante na gestação. De acordo com o autor, outros compostos, como ferro, zinco e vitaminas, possuem valores de referência diários já consolidados, mas para o ômega-3 faltam dados precisos sobre o limite de toxicidade.
“Compreendê-los é fundamental para aprimorar a regulamentação dos suplementos. Não há normas rigorosas que estabeleçam doses específicas para seu uso. O que existe globalmente é uma regulamentação fragmentada e com critérios heterogêneos entre diferentes agências”, diz.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, foca mais na proporção do que em uma dose isolada, recomendando uma razão ideal de 4:1 entre ômega-6 e ômega-3. No Brasil, essa proporção frequentemente ultrapassa 15:1 devido à alta ingestão de óleos vegetais e alimentos ultraprocessados.
O estudo foi dividido em três etapas. Primeiro, cientistas testaram diferentes doses de ômega-3 e ômega-6 para identificar a partir de que quantidade os possíveis benefícios deixavam de aparecer e começavam a surgir efeitos adversos. Depois, avaliaram como uma dose considerada insegura afetava a saúde das mães na gestação. Por fim, acompanharam os filhotes desde o nascimento até a idade adulta para investigar possíveis consequências de longo prazo.
Os óleos eram administrados diariamente por via oral, em uma única dose, calculada de acordo com o peso de cada animal. Para avaliar os efeitos da suplementação, analisou-se uma série de parâmetros relacionados à saúde das mães e ao desenvolvimento dos filhotes. Entre eles, estavam a capacidade de controlar a glicose no sangue e a sensibilidade à insulina, o transporte de nutrientes da mãe para o feto pela placenta e sinais de estresse oxidativo. Também foram avaliados o crescimento corporal, os reflexos e o desenvolvimento motor dos filhotes, além das características dos músculos e da composição do leite materno.
Os resultados mostraram que, enquanto doses de 1 e 2 g/kg preservaram efeitos protetores, as doses de 3 e 4 g/kg começaram a gerar alterações como o aumento da gordura abdominal e da circunferência da cintura, mesmo sem aumento do peso corporal total. Em doses de 4 g/kg, o ômega 3 induziu e agravou quadros de síndrome metabólica nas mães.
A suplementação excessiva com ácidos graxos durante a gestação provocou ainda resistência à insulina, alterações na glicemia e aumento da atividade dos macrófagos, células do sistema imunológico responsáveis por eliminar microrganismos e restos celulares, mas que, quando permanecem ativadas por longos períodos, contribuem para a manutenção de inflamações.
O excesso de gorduras também provocou desequilíbrio dentro do útero e da placenta, aumentando a produção de moléculas que podem causar dano celular. Como resposta, a placenta passou por mudanças no seu funcionamento, alterando a forma como nutrientes importantes, como açúcar e gorduras, eram transportados da mãe para o bebê.
Em sintonia com os princípios do DOHaD, filhotes das mães que receberam excesso de gorduras apresentaram consequências que continuaram mesmo após o nascimento. Eles tiveram maior mortalidade nos primeiros dias de vida, demoraram mais para desenvolver movimentos e respostas esperadas para a idade, apresentaram alterações nos músculos e, apesar de nascerem menores, acumularam mais gordura no corpo.
O estudo trouxe uma pista relevante, mas é preciso lembrar: um resultado observado em animais não significa que terá o mesmo efeito em pessoas. Por isso, antes de qualquer recomendação, são necessários estudos clínicos que avaliem como o organismo humano responde. Além disso, a complexidade das interações entre diferentes tipos de gordura e o estado metabólico individual exige cautela na generalização dos resultados, diz o pesquisador.
Mas o que dá para afirmar é que o consumo de ômega 3 na gestação exige cautela, assim como o consumo de qualquer outro suplemento.
“Entre 2012 e 2015, começou a crescer uma onda de negacionismo muito forte na Europa e nos Estados Unidos, com influenciadores indicando o uso indiscriminado de suplementos no mundo inteiro. Isso precisa ser enfrentado com seriedade”, diz
Zazula argumenta que, para isso, é fundamental fortalecer o trabalho de institutos de pesquisa, sobretudo das universidades públicas, que concentram a maior parte das investigações científicas no país.
“É importante valorizar quem está na ponta atendendo pessoas, mas também quem atua na ciência pura, pensando soluções. A construção do conhecimento é um processo lento, que exige tempo, persistência e muitas etapas. Eu, por exemplo, estou há 13 anos pesquisando. Tem que ter paciência e entender que a ciência não traz respostas rápidas, mas vale a pena”.
➕ Baixe a tese Avaliação do efeito da suplementação crônica com ácidos graxos insaturados sobre as características maternas, programação metabólica fetal e desenvolvimento pós-natal de ratos Wistar (acesso aberto, em português)
Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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