Trabalhadores estão expostos a calor, poluição, trânsito e pressões psicológica e financeira. Fernando Frazão/Agência Brasil
Por Luiz Felipe Fernandes – Jornal UFG | Pedalar durante horas todos os dias pode parecer, à primeira vista, uma rotina favorável à saúde. Mas, quando essa atividade ocorre em jornadas prolongadas, sob pressão por produtividade, exposição ao trânsito, poluição, calor e pouco tempo para descanso, seus efeitos podem ser bastante diferentes daqueles associados ao exercício realizado no tempo livre.
Essa é a discussão proposta por pesquisadores brasileiros em um comentário publicado no Journal of Physical Activity and Health. O texto, liderado por Claudio Andre Barbosa de Lira, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Universidade Federal de Goiás (UFG), utiliza o trabalho de entregadores de bicicleta por aplicativo para discutir o chamado paradoxo da atividade física.
O conceito descreve uma constatação que pode parecer contraditória: enquanto a atividade física praticada no lazer está fortemente associada a benefícios cardiovasculares e à longevidade, a atividade física ocupacional pode não produzir os mesmos efeitos e, em algumas circunstâncias, ser prejudicial.
Segundo o comentário, a diferença não está apenas no gasto de energia, mas sobretudo no contexto em que o esforço físico ocorre. No lazer, a pessoa normalmente pode escolher a intensidade e a duração da atividade, interrompê-la, hidratar-se e prever períodos de recuperação. No trabalho, o esforço tende a ser mais prolongado, repetitivo e imposto por exigências externas. “Seus contextos fisiológicos e psicossociais diferem profundamente”, afirmam os pesquisadores ao comparar os dois tipos de atividade.
Para os autores, os cicloentregadores representam um exemplo claro desse contraste. Embora andar de bicicleta seja geralmente associado a uma prática saudável, esses trabalhadores podem passar longos períodos pedalando em ambientes urbanos congestionados, submetidos ao calor, à poluição do ar, ao risco do trânsito, à restrição de sono e a pressões psicológicas e financeiras.
A rotina inclui fatores que vão além do esforço de pedalar. Os pesquisadores destacam períodos prolongados de espera, incerteza sobre a renda, vigilância algorítmica e pressão para maximizar a produtividade.
“Até mesmo períodos sem ciclismo ativo podem representar tensão ocupacional devido à constante pressão psicológica e econômica”, esclarecem.
Do ponto de vista fisiológico, o texto argumenta que a atividade ocupacional prolongada pode impor uma carga cardiovascular e autonômica persistente, especialmente quando não há recuperação adequada. As evidências científicas têm relacionado esse tipo de exposição prolongada a inflamação, hiperativação do sistema nervoso simpático, acúmulo de fadiga, sobrecarga cardiovascular e lesões musculoesqueléticas.
A exposição ambiental acrescenta outros riscos. Ciclistas urbanos ficam sujeitos à poluição relacionada ao tráfego, associada a doenças cardiovasculares e respiratórias, enquanto altas temperaturas podem agravar a desidratação e o estresse cardiovascular e térmico. Esses efeitos podem ser ampliados quando há pouco acesso a água, alimentação adequada e locais de descanso durante as jornadas.
A discussão também levanta uma questão para as políticas públicas de saúde. Recomendações internacionais costumam incentivar as pessoas a “se movimentarem mais” e partem de uma definição ampla de atividade física. Para os autores, porém, isso pode favorecer uma interpretação simplificada de que qualquer movimento corporal produz necessariamente os mesmos efeitos benéficos.
“O contexto em que a atividade física ocorre modifica substancialmente seus efeitos sobre a saúde”, alertam os pesquisadores. Por isso, trabalhos fisicamente exigentes não deveriam ser automaticamente contabilizados como equivalentes ao exercício realizado no tempo livre.
Nesse sentido, um cicloentregador que passa várias horas por dia pedalando em condições estressantes não deveria necessariamente ser considerado fisiologicamente equivalente a um indivíduo que pratica ciclismo recreativo com recuperação adequada, autonomia e controle ambiental.
Os autores defendem, assim, que recomendações e sistemas de vigilância em saúde levem em conta não apenas quanto uma pessoa se movimenta, mas também onde, por que e em quais condições esse movimento ocorre. Isso inclui fatores como autonomia, oportunidades de recuperação, condições de trabalho, estresse psicossocial e exposição ambiental.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal UFG, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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