Foto: Patrícia Mendes/Embrapa
Por Verônica Freire – Embrapa | Atentos a novas tendências de consumo, marcadas pela demanda por alimentos mais saudáveis, funcionais e sustentáveis, pesquisadores da Embrapa desenvolveram um análogo a queijo cremoso vegetal e simbiótico. A formulação combina Bifidobacterium, gênero de bactérias benéficas, e fibras prebióticas, resultando em uma simbiose capaz de favorecer a saúde intestinal e fortalecer a imunidade. O novo produto também apresenta vantagens para a indústria, porque aproveita amêndoas de castanha de caju (ACC) quebradas que possuem o mesmo valor nutricional das amêndoas inteiras.
“Buscamos desenvolver uma alternativa vegetal saudável, com propriedades funcionais reais e que pudesse atender tanto consumidores que evitam lácteos por opção quanto aqueles com restrições como intolerância à lactose ou alergia à proteína do leite”, explica a pesquisadora Selene Benevides, da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), responsável pelo projeto de desenvolvimento do análogo a queijo.
Ao utilizar amêndoas quebradas, menos valorizadas comercialmente embora apresentem o mesmo valor nutricional das inteiras, os pesquisadores agregam valor a um coproduto do beneficiamento e ampliam alternativas para uma cadeia produtiva estratégica no Nordeste.
Ensaios laboratoriais do análogo a queijo apontaram teores adequados de frutooligossacarídeos FOS (a fibra prebiótica), estabilidade microbiológica e número de células viáveis de Bifidobacterium durante o estudo de 45 dias de armazenamento. O produto apresentou bons resultados em testes sensoriais realizados com consumidores, com média 7 para aceitação global, equivalente a “gostei”. Para a intenção de compra, a média obtida ficou entre 4 e 5, equivalente a “provavelmente compraria” e “certamente compraria”, respectivamente.
O análogo a queijo simbiótico passou por ampliação de escala de produção e validação industrial em indústria de produtos plant-based. Estão em execução, em parceria com a Universidade de Fortaleza (Unifor), ensaios clínicos com seres humanos para avaliar a funcionalidade do produto.
O pesquisador Nédio Jair Wurlitzer, que atua no Laboratório de Processos Agroindustriais da Embrapa Agroindústria Tropical, salienta que a inovação é uma resposta a tendências de consumo e hábitos alimentares. “O consumidor busca produtos que, além da nutrição, ofereçam benefícios reais à saúde. Isso nos impulsiona a desenvolver novas formulações e a requalificar recursos já existentes, como a amêndoa de castanha de caju quebrada”, avalia.
A pesquisadora Socorro Bastos, responsável por iniciativa interna da Embrapa que busca alinhar os projetos de pesquisa à temática protagonismo do consumidor, diz que empresas e centros de pesquisa têm observado tendências como o crescimento do público vegano, vegetariano e flexitariano, a preocupação com o bem-estar animal e o impacto ambiental, além do aumento da demanda por alimentos funcionais.
Nessa linha, várias matérias-primas já foram estudadas no Laboratório de Processos Agroindustriais da Embrapa, como caju, babaçu, yacon, jenipapo, feijão caupi, tamarindo e maracujá.
Entre os estudos realizados, a equipe desenvolveu aplicações para variedades de maracujá-silvestre, avaliadas por sua possível contribuição no tratamento de tremores. Apresentou uma alternativa para reduzir a acidez do suco de tamarindo, ampliando sua aceitação. O yacon, uma raiz rica em frutooligossacarídeos, adicionado a suco de caju demonstrou impacto positivo na dieta em testes clínicos.
Outra frente de estudos envolve a agregação de valor a coprodutos. Os pesquisadores observaram como aproveitar melhor a fibra do bagaço de caju, desenvolvendo uma alternativa para a indústria de produtos substitutos da carne. A busca por proteínas alternativas inclui pesquisas com o uso da amêndoa de caju e estudos com feijão-caupi. Em resposta à rejeição a aditivos sintéticos, o laboratório também explora pigmentos naturais da pitaya e do jenipapo.
Probióticos: São as bactérias vivas benéficas que colonizam temporariamente o intestino, competindo com bactérias patogênicas e ajudando a manter a saúde intestinal.
Prebióticos: São compostos não digeríveis (geralmente fibras) que servem como alimento para as bactérias probióticas, estimulando seu crescimento e atividade.
Simbióticos: Prebióticos e probióticos, combinados na formulação do alimento, apresentam sinergia e intensificam os benefícios em promover um ambiente intestinal mais saudável.
Para entregar produtos que atendam às necessidades e desejos dos consumidores, a Embrapa inclui o monitoramento do comportamento do consumidor entre os aspectos observados no seu planejamento de pesquisa. “É um movimento sustentado a partir do diálogo constante entre ciência, setor produtivo e sociedade”, diz Socorro Bastos.
Conforme a pesquisadora, entre as linhas de pesquisa influenciadas por novas demandas de consumo estão desenvolvimento de produtos à base de proteínas alternativas, agregação de valor a matérias-primas com foco em segurança e qualidade, formulações destinadas a públicos com restrições alimentares, substituição de compostos sintéticos por ingredientes naturais, e estudos que fortaleçam a rastreabilidade e a procedência dos produtos brasileiros.
“Precisamos gerar respostas para um consumidor mais atento, que busca confiança, procedência, saudabilidade e inovação”, explica Bastos. Segundo ela, o alinhamento das pesquisas às demandas de consumo envolve estudos de mercado, monitoramento de observatórios temáticos e participação em feiras e eventos especializados.
Além disso, pesquisadores investem em ferramentas de business intelligence (BI) e em sistemas de monitoramento e mineração de dados, que permitem captar sinais emergentes do consumo. O acompanhamento de agendas institucionais junto ao Poder Legislativo e entidades representativas também ajuda a antecipar mudanças regulatórias e orientar decisões.
As demandas surgem em workshops, pesquisas de mercado, câmaras setoriais e por meio de projetos de PD&I realizados em parcerias com produtores, indústria, startups, consumidores e organizações da sociedade civil. Bastos explica que a lógica é de codesenvolvimento, em que a ciência recebe feedback contínuo sobre preferências, uso, aceitação e impacto das tecnologias. Esse fluxo é visto como essencial para aumentar as chances de adoção das soluções desenvolvidas.
Este texto foi originalmente publicado pela Embrapa, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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