Pesquisa traz dados inéditos e conquistou o primeiro lugar no encontro internacional “Semana Brasileira das Doenças Inflamatórias Intestinais” – Fotomontagem Jornal da USP com imagens de Freepik e Freepik
Por Ivanir Ferreira – Jornal da USP | Sempre houve especulações de que doenças inflamatórias do intestino (DII) estivessem associadas a problemas de saúde mental, com estudos que sugerem a atuação de vias imune-inflamatórias comuns no eixo intestino-cérebro. Ou seja: quando existe inflamação no intestino, substâncias do sistema imunológico podem circular pelo corpo e influenciar o funcionamento do cérebro, afetando o humor, o sono e outros aspectos emocionais.
Recentemente, uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) trouxe novas evidências favoráveis a essa ideia. Uma equipe multidisciplinar composta de coloproctologistas, nutricionistas, fisioterapeutas e profissionais de educação física analisou informações laboratoriais de pacientes diagnosticados com a doença de Crohn e verificou que aqueles que estavam com a inflamação ativa no intestino tinham maior probabilidade de apresentar sono de má qualidade, cansaço ao despertar, fadiga e sintomas de ansiedade e depressão.
A pesquisa é inédita e conquistou o primeiro lugar na Semana Brasileira das Doenças Inflamatórias Intestinais (6ª SEBRADII), maior congresso sobre DII da América Latina, realizado em Campinas em agosto de 2025. Segundo a médica Carolina Bortolozzo Graciolli Facanali, uma das coordenadoras do estudo, a doença de Crohn é uma inflamação crônica autoimune que afeta principalmente o final do intestino delgado e o intestino grosso. O quadro alterna entre crises de inflamação ativa e períodos de remissão, em que os sintomas estão controlados ou ausentes.
“A doença pode evoluir ao longo dos anos, começando com um estágio inflamatório limitado à mucosa do intestino, podendo avançar para as formas estenosante e penetrante (fístulas), consideradas mais graves. Nessas fases, ocorrem fibrose e estreitamento da parede intestinal ou o aparecimento de fístulas no abdome ou na região anal, aumentando o risco de complicações graves. Embora não tenha cura, as crises podem ser controladas com medicamentos, ajustes na alimentação e, em alguns casos, cirurgia”, explica a pesquisadora.
As análises dos exames detectaram que os pacientes com inflamação ativa apresentaram quase três vezes mais chances de ter sono de má qualidade e sintomas depressivos. O estudo também revelou que pacientes com o fenótipo inflamatório (processo inflamatório na mucosa intestinal), típico da fase inicial da doença, dormiam pior do que aqueles com o fenótipo estenosante ou penetrante (estreitamento do intestino), associado à fase crônica. Para o coloproctologista e professor da FMUSP, Carlos Sobrado, “esse fato pode estar relacionado à maior resiliência dos pacientes com doença de longa duração, que já enfrentaram fases mais críticas e aprenderam a lidar melhor com novos desafios.”
A pesquisa detectou ainda que mais de dois terços dos pacientes avaliados apresentavam inflamação intestinal ativa, sendo que a grande maioria relatou ter problemas de sono: 69% disseram que o descanso não era reparador e 71% classificaram sua qualidade de sono como ruim.
Segundo Carolina Facanali, os novos resultados confirmam evidências já apresentadas em artigo anterior, publicado pelo grupo em 2023 na revista Clinics, que identificou alta prevalência de depressão maior entre pessoas com Doença de Crohn. O estudo mostrou que o transtorno depressivo estava fortemente associado à fase ativa da enfermidade. Na pesquisa, que incluiu 283 pacientes, as mulheres apresentaram risco cinco vezes maior de desenvolver depressão em comparação com homens.
Para chegar a esses resultados, a equipe investigou a relação entre inflamação intestinal e qualidade do sono a partir das análises clínica e laboratorial, com quantificação dos níveis de calprotectina fecal – biomarcador que indicava atividade inflamatória do intestino quando estava acima de 250 µg/g. A avaliação do sono foi feita por meio do Índice de Pittsburgh e da Escala de Epworth, além de questionários para avaliar níveis de ansiedade e depressão. Os pesquisadores também utilizaram acelerometria — um dispositivo semelhante a um relógio usado durante a noite — para medir de forma objetiva o tempo para adormecer e os despertares noturnos.
No início do estudo, os pacientes responderam aos questionários, receberam o acelerômetro e o frasco estéril para as coletas. Após sete dias, retornaram ao ambulatório do Hospital das Clínicas para devolver o aparelho e entregar as amostras, permitindo a análise conjunta dos padrões de sono e do nível de inflamação intestinal. Informações sociodemográficas e clínicas foram complementadas com consulta ao prontuário eletrônico.
Para o professor Sobrado, os resultados reforçam a necessidade de encarar a doença de Crohn de maneira integrada, reconhecendo que a inflamação intestinal não se limita ao trato digestivo e pode desencadear impactos significativos na saúde mental e na qualidade de vida.
Ao demonstrar a forte correlação entre atividade inflamatória, piora do sono e sintomas emocionais, o estudo amplia a compreensão clínica sobre a doença e destaca a importância de incorporar a avaliação do sono, o apoio psicológico e a atenção nutricional ao cuidado de rotina.
“O estudo surgiu da observação clínica diária e buscou comprovar cientificamente uma percepção já presente na prática médica: corpo e mente estão interligados” – Carolina Bortolozzo Graciolli Facanali
De acordo com a pesquisadora, os resultados representam um avanço para consolidar práticas de saúde mais integradas, capazes de considerar as diferentes dimensões do adoecimento. Segundo a pesquisadora, os dados apresentados no congresso são apenas uma parte da pesquisa desenvolvida por uma equipe multiprofissional que trabalha no Departamento de Gastroenterologia e Nutrologia da FMUSP. O estudo também compõe a tese de Carolina Facanali, desenvolvida em parceria com o professor Celso Carvalho, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da FMUSP.
As duas principais doenças inflamatórias intestinais são a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU). Ambas são condições autoimunes crônicas, marcadas por períodos de remissão e agravamento. Embora não tenham cura, as crises podem ser controladas com medicamentos, ajustes na alimentação e, em alguns casos, cirurgia. A diferença entre elas está na localização da inflamação: a DC pode acometer qualquer trecho do trato digestivo — da boca ao ânus — e costuma causar lesões mais profundas da parede intestinal (revestimento interno do intestino). Já a RCU se limita ao intestino grosso e ao reto, com inflamação contínua e mais superficial. As duas doenças afetam principalmente pessoas em idade economicamente ativa, entre 20 e 30 anos, e provocam sintomas como diarreia, dor abdominal, sangramento, febre e perda de peso.
Mais informações: carlos.walter@hc.fm.usp.br, com Carlos Walter Sobrado Junior, e carolina.graciolli@hc.fm.usp.br, com Carolina Graciolli Facanali.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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