Uma jaguatirica (Leopardus pardalis) fotografada no Parque Estadual Encontro das Águas (MT). Foto: Giles Laurent via Wikimedia Commons. (CC BY-SA 4.0)
Por Lucas Berti – Mongabay | Não bastasse a caça, o tráfico ilegal e a degradação de seus habitats, os felinos selvagens brasileiros enfrentam ainda outra ameaça, bem menos visível: a contaminação por doenças que acometem animais domésticos. Isso inclui animais como a onça-pintada (Panthera onca), a suçuarana (Puma concolor) e a jaguatirica (Leopardus pardalis).
“Há um risco para todas as espécies de felinos. Principalmente para nossas espécies nativas e para as que estão ameaçadas de extinção”, disse Flavia Tirelli, doutora em zoologia e coordenadora da Geoffroy’s Cat Working Group, uma rede internacional que luta pela conservação do gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi) e de outros felinos silvestres.
Segundo a especialista, que também atua como pesquisadora no Laboratório de Evolução, Sistemática e Ecologia de Aves e Mamíferos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o avanço de doenças comuns entre gatos domésticos (Felis catus) — como o vírus da imunodeficiência felina (FIV), o vírus da leucemia felina (FeLV) e a panleucopenia, causada pelo parvovírus felino (FPV), entre outros — pode impactar significativamente a fauna de felídeos em todo o Brasil.
“As espécies ameaçadas têm populações menores e mais isoladas dentro de nossa matriz antrópica [ambientes naturais modificados pela ação humana] e também podem estar próximas de animais domésticos que carregam esses vírus”, disse à Mongabay.
Segundo estimativas, o Brasil ocupa o terceiro lugar no pódio global em número de animais de estimação, com cerca de 30 milhões de gatos domésticos. Ao mesmo tempo, a estatística de felinos em situação de rua ou sem tutela definida também ultrapassa a casa dos milhões: dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugerem que há 10 milhões de gatos vivendo nessas condições de vulnerabilidade.
O cenário favorece o surgimento de animais semiferais — que vivem num estado intermediário entre a vida selvagem e a doméstica —, além de dificultar o controle de natalidade e acelerar a proliferação de doenças. Há também o risco de hibridização entre espécies selvagens e indivíduos domésticos, algo que, além de ameaçar populações selvagens ao comprometer seu perfil genético, pode resultar em animais mais suscetíveis ao adoecimento.
Tirelli explicou que o potencial de impacto de doenças “domésticas” não se restringe a uma espécie específica, podendo submeter diferentes felinos biologicamente sensíveis a patógenos perigosos. Esses agentes, por sua vez, podem se manifestar em quadros virais, mas também bacterianos, fúngicos ou parasitários, entre outros; muitas enfermidades podem ser fatais.
O perigo ambiental causado por doenças comuns acrescenta muitos desafios à preservação de espécies extremamente ameaçadas, como o gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai), felino que figura entre os animais que mais correm risco de extinção no Brasil, segundo a especialista.
Como a Mongabay mostrou em reportagem, esse pequeno e raro animal endêmico do bioma Pampa (na porção sul da América do Sul, incluindo também a Argentina e o Uruguai) já convive com o assédio dos humanos — por ser um predador de aves domésticas —, com a redução de seu habitat e com o risco de atropelamento nas estradas. Ao viver à sombra de diferentes formas de contágio, o felino se expõe a fatores adicionais que podem reduzir sua já escassa população.
Segundo informações do Instituto para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais (Pró-Carnívoros), uma iniciativa civil criada em 1996, o Brasil registra 10 espécies pertencentes à família Felidae em seu território. E, a exemplo da onça-pintada, que está presente em cinco biomas brasileiros, esses animais estão espalhados por todo o mapa do país.
Mas há algo que une sua saga de luta pela sobrevivência: das florestas úmidas às planícies do Cerrado, seus diferentes habitats sofrem com a fragmentação. O fenômeno ocorre quando áreas naturais contínuas, grandes ou pequenas, são desagregadas em ilhas isoladas de vegetação, criando espaços desconectados de natureza.
A crise combina expansão urbana, conversão de terras em áreas agrícolas e obras de infraestrutura, como estradas e rodovias que recortam áreas de floresta. Muitos desses projetos ocorrem a despeito de alertas ambientais e geram, entre suas múltiplas consequências para a biodiversidade, um caminho mais fácil para a dispersão de doenças.
“A fragmentação de habitat e a expansão urbana têm facilitado muito a transmissão de patógenos entre espécies domésticas e silvestres. Quanto mais aumenta essa fragmentação, com mais ‘pedacinhos’ de áreas naturais dentro de uma matriz antrópica modificada, seja ela urbana, rural ou campestre, humanos trazem consigo animais domésticos, que podem passar doenças aos [animais] silvestres”, disse Tirelli.
Além dos quadros virais mais conhecidos, como os causadores de FIV e FeLV, um estudo de 2024, dedicado à revisão bibliográfica sobre enfermidades em felinos selvagens nativos do Brasil, também destacou o risco de exposição ao vírus da cinomose (CDV), aos adenovírus e ao vírus da raiva.
No caso da cinomose e da raiva, surgem riscos adicionais: embora a cinomose represente “um risco global para os cães e, embora não afete de forma significativa os gatos, foi evidenciado que outros felídeos são suscetíveis a essa enfermidade”. A pesquisa também ressalta que a transmissão dessa doença para espécies selvagens “pode ocorrer pelo contato com cães” e que seus sintomas “podem ser agressivos e levar à morte do animal”.
No que diz respeito à raiva, de alta letalidade, o leque de perigos pode ser ainda mais amplo. O estudo afirma que “as espécies felinas selvagens não são consideradas reservatórios da raiva, mas podem atuar como vetores e transmitir o vírus para humanos e outras espécies”.
O material também menciona estudos que revelam detecção de anticorpos contra o vírus da raiva em onças-pintadas, indicando exposição à enfermidade no Pantanal e no Parque Nacional das Emas (GO). Considerada Patrimônio Natural da Humanidade, essa unidade de conservação protege 132 mil hectares de Cerrado e abriga grande diversidade de espécies nativas.
Para todos os casos, o estudo conclui que há “relação clara entre as ações humanas e a exposição dos animais silvestres a agentes virais, pois a destruição de seus habitats naturais os força a se aproximar de áreas habitadas por humanos e animais domésticos”. Entre medidas de prevenção, a pesquisa cita “a vacinação de cães e gatos e a proteção de áreas naturais para preservar a saúde das populações de felinos selvagens”.
No entanto, como enfatizado por Tirelli e outros especialistas entrevistados, prevenir a fragmentação de habitats naturais é uma medida prioritária para evitar a exposição de espécies aos riscos urbanos. Isso é extremamente importante, explicam, visto que as estratégias para monitorar patógenos em ambientes florestais fragmentados podem ser “muito complexas”, considerando que “cada vírus e cada variante podem modificar a eficiência da transmissão” — o que representa desafios adicionais para os esforços científicos.
Marcelo Alievi é doutor em medicina veterinária e coordenador do Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres (Preservas), um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre.
O professor relata um caso de acolhimento de dois indivíduos de gato-maracajá (Leopardus wiedii). Um deles chegou aos cuidados do Preservas, em 2025, em estado grave; outro já foi encaminhado sem vida. “Recebemos um gato-maracajá debilitado, que acabou morrendo”, disse à Mongabay.
Segundo Alievi, esse felino de pequeno a médio porte — classificado como vulnerável à extinção pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) — é apenas uma entre várias espécies selvagens que sofrem com a redução do espaço nativo e com o risco de contato com animais domesticados e suas enfermidades.
“É comum que esses animais vivam em uma área restrita, com oferta de alimento não tão abundante. Assim, eles buscam recursos e outras formas de sobreviver e, por isso, não é raro ver esses animais em regiões periurbanas [zonas de transição entre áreas rurais e urbanas no entorno de cidades]. E o contato [com gatos domésticos] pode acontecer”, disse o especialista.
Ainda que faltem novas etapas de investigação para futuras conclusões a respeito do caso específico dos gatos-maracajá analisados na UFRGS, o especialista em protozoologia citou outro caso de relevância científica.
“Tivemos um caso de Lagochilascaris, outro parasita — e, esse sim, associado aos gatos domésticos —, infectando um gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus) na Serra Gaúcha. Nesse caso, também houve uma apresentação muito atípica: acabou infectando o conduto auditivo do animal e, pelo conduto auditivo, chegou à base do cérebro. O animal teve uma doença neurológica séria”, disse.
Soares explicou que o caso se relaciona às condições de vida atípicas do animal, que andava próximo a áreas de cidade, o que aumenta a possibilidade de contato com gatos domésticos. “Uma veterinária da região, especializada em felinos domésticos, mencionou que são comuns os casos desse parasita em gatos. Isso reflete essa proximidade [entre espécies domésticas e selvagens]. Depois desses achados, organizamos uma campanha de vacinação e vermifugação de carnívoros domésticos, com o intuito de mitigar essas transmissões.”
Em outro estudo, de 2020, do qual participaram diferentes institutos e pesquisadores do Brasil (incluindo Flávia Tirelli), é feito um alerta sobre o avanço de outros tipos de contaminação nocivos à vida de felinos e à de outras espécies.
A pesquisa se debruça sobre um grupo de bactérias emergentes do gênero Bartonella, de olho em compreender seus efeitos em humanos e outros mamíferos. Os felinos, segundo a investigação, constituem um importante reservatório para diversas espécies da bactéria, sendo os gatos domésticos o principal reservatório da Bartonella henselae, agente causador da doença da arranhadura do gato (DAG).
De acordo com publicações disponibilizadas pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), apesar de raramente fazer mal ao gato que a carrega, e mesmo sendo benigna, subaguda e autolimitada em sua forma típica, a doença pode evoluir para um quadro severo “principalmente em indivíduos [humanos infectados] imunodeficientes, nos quais pode resultar em infecção fatal”.
O estudo reforça a importância de compreender os padrões de ocorrência e de disseminação de patógenos, definindo o mapeamento como “uma questão fundamental para a conservação da vida selvagem”. A pesquisa ressalta, ainda, que os carnívoros de vida livre são particularmente importantes “pois ocupam o topo da cadeia alimentar, atuando como bioacumuladores e biomagnificadores de patógenos”.
A esporotricose felina — uma micose subcutânea grave, frequentemente causada pelo fungo Sporothrix brasiliensis, descoberta no Brasil — também é motivo de preocupação entre especialistas. A doença é altamente contagiosa e causa ferimentos profundos e de difícil cicatrização nos animais. Sem o devido tratamento, pode se espalhar pelo sistema linfático e pelos órgãos internos, levando à morte do indivíduo.
“Diferentemente de outras espécies, os gatos desenvolvem lesões com altíssima carga fúngica e também podem abrigar o agente nas unhas e na cavidade oral, o que torna a transmissão extremamente eficiente”, disse Gabriela Kharsa Bastos, médica veterinária especializada em Medicina Felina pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Segundo a especialista, gatos semidomiciliados ou com acesso à rua — justamente o perfil dos animais expostos ao contato com felídeos selvagens, muitas vezes em fragmentos de mata — “desempenham papel central na manutenção da cadeia epidemiológica”.
Bastos explicou que a introdução do fungo em populações nativas ocorre de diferentes formas: “Além da transmissão direta por mordidas e arranhaduras, gatos infectados podem contaminar o ambiente ao afiar as unhas em troncos de árvores, cercas e outros substratos naturais, depositando secreções e material orgânico contendo o fungo.”
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra alta de episódios de esporotricose nos últimos anos: de acordo com a pasta, em gatos, o número de casos subiu de 1.412 em 2022 para 3.290 em 2023, um aumento de 133%. A veterinária alerta, porém, para diferenças substanciais no impacto populacional de espécies silvestres.
“Enquanto gatos domésticos estão presentes em grande número, espécies silvestres possuem densidade populacional menor e, muitas vezes, já enfrentam ameaças como perda de habitat e atropelamentos. Assim, mesmo poucos casos podem ter relevância significativa para a conservação”, disse à Mongabay.
Segundo a veterinária, o controle da esporotricose exige uma abordagem integrada entre saúde animal, saúde humana e conservação ambiental, dentro do conceito de ‘saúde única’, incluindo “diagnóstico precoce e tratamento imediato de gatos infectados, educação sobre os riscos zoonóticos e ambientais da doença, ampliação do acesso ao tratamento e às campanhas de esterilização e vigilância epidemiológica ativa — principalmente em regiões próximas a áreas naturais”.
Até o momento, uma coisa é certa: os especialistas concordam que é necessário abordar o problema das doenças de animais domésticos em felinos selvagens, especialmente para evitar que as perdas populacionais atinjam níveis irreversíveis. E enfatizam que a realidade é compartilhada por diferentes ecossistemas antrópicos e pela expansão urbana.
“Quanto mais fragmentado o habitat dos animais e quanto mais perto estivermos deles, mais suscetíveis estarão à contaminação por doenças comuns prevalentes em animais domésticos”, disse Alievi.
Este texto foi originalmente publicado pela Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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