Foto de Clément Falize na Unsplash
Uma revisão publicada na revista científica Functional Ecology mostra que a redução dos níveis de oxigênio e da pressão do ar em altitudes elevadas pode limitar a capacidade dos insetos de subir montanhas para escapar do aquecimento climático — com possíveis consequências para serviços essenciais que eles prestam, como a polinização. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Montana, nos Estados Unidos.
Diante do aquecimento global, muitas espécies têm deslocado sua distribuição para altitudes mais altas, em busca de zonas de temperatura mais adequadas. No entanto, condições como o ar mais rarefeito e a menor concentração de oxigênio impõem desafios particulares aos insetos, por causa do tamanho do corpo, do ciclo de vida e da forma como respiram esses animais.
Para entender esse efeito, a equipe revisou estudos sobre os efeitos fisiológicos da hipóxia (baixos níveis de oxigênio) e da hipobaria (baixa pressão) sobre insetos.
Os insetos voadores são os que mais sofrem em altitudes elevadas: o ar mais rarefeito exige mais sustentação e mais gasto de energia durante o voo, enquanto a menor concentração de oxigênio limita a capacidade do sistema respiratório de abastecer os músculos de voo rápido o suficiente.
Insetos com estágios larvais ativos, como lagartas que se alimentam continuamente, também enfrentam dificuldades, por causa da alta demanda de energia e oxigênio dessa fase.
Já os insetos com larvas aquáticas, como as libélulas, já são limitados pela quantidade de oxigênio disponível na água — um problema que se agrava em altitudes maiores.
Taxas mais altas de perda de água em altitude elevada também foram apontadas como uma barreira à sobrevivência dos insetos nessas condições.
Art Woods, pesquisador principal do estudo, afirma:
“Nosso estudo sugere que baixos níveis de oxigênio e baixa pressão atmosférica em altitudes elevadas podem afetar negativamente o desempenho dos insetos, o que significa que subir a encosta pode ser mais difícil do que se esperava. Pensamos em subir a montanha como uma ‘válvula de escape’ para os animais, mas talvez não seja a solução que esperávamos.”
Os insetos são atores-chave em muitos ecossistemas e prestam serviços essenciais, como polinização e decomposição. Se eles não conseguirem se deslocar para altitudes maiores à medida que o clima esquenta, isso pode comprometer os serviços de polinização, afetando a produção agrícola e o funcionamento dos ecossistemas.
Os pesquisadores afirmam ter se surpreendido com as limitações impostas pelos baixos níveis de oxigênio. Segundo Woods, “como os insetos obtêm oxigênio por meio de uma rede de aberturas externas e tubos internos espalhados pelo corpo, é fácil imaginar que eles não teriam problema algum para conseguir todo o oxigênio de que precisam.”
“Se humanos conseguem ir a altitudes moderadamente altas com apenas um desconforto leve, os insetos certamente não teriam problema, não é? Mas os dados de vários experimentos sugerem que a demanda de oxigênio das fases ativas dos insetos — especialmente jovens em crescimento e adultos em voo — é alta o suficiente para que o sistema respiratório tenha dificuldade de entregar oxigênio rápido o bastante, mesmo em altitudes moderadamente mais altas”, afirma.
Os pesquisadores pedem mais estudos voltados a espécies de altitudes elevadas, para entender melhor as restrições fisiológicas ao deslocamento das populações montanha acima — conhecimento que, segundo eles, será fundamental para orientar estratégias de conservação.
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