Saúde e Bem-Estar

Como aumentar eficácia de protetores solares e gerir resíduos da sua fabricação?

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Por Júlio Bernardes – Jornal da USP | A produção de protetores solares deve levar em conta a segurança dos usuários e também a contenção de impactos ambientais, em especial da presença de componentes nas águas. A conclusão é de pesquisadores da USP que analisaram a literatura científica sobre a formulação e a segurança dos protetores, incluindo o desenvolvimento de novas tecnologias baseadas em nanomateriais, para aumentar sua eficácia em bloquear a radiação solar. O trabalho foi publicado em artigo da revista científica International Journal of Pharmaceutics.

“A radiação ultravioleta (UV) é um dos principais fatores ambientais associados a danos à pele”, afirma ao Jornal da USP a pesquisadora Caroline de Melo Fantato, da Escola Politécnica (Poli) da USP, primeira autora do artigo. “A exposição excessiva e acumulada à radiação UV está relacionada ao fotoenvelhecimento, alterações de pigmentação, imunossupressão e, principalmente, ao desenvolvimento de câncer de pele.”

“Nesse contexto, a fotoproteção não deve ser entendida apenas como uma questão estética. Ela é uma estratégia importante de prevenção de danos à saúde, especialmente considerando a exposição solar cotidiana e a elevada incidência de câncer de pele”, destaca. “Os protetores solares são uma das ferramentas disponíveis para reduzir essa exposição, quando utilizados de maneira adequada e associados a outras medidas, como evitar a exposição nos horários de maior intensidade da radiação, utilizar roupas e buscar sombra.”

Segundo a pesquisadora, o objetivo da pesquisa foi realizar uma análise abrangente e integrada dos filtros utilizados em protetores solares, considerando não apenas sua capacidade de proteção contra a radiação ultravioleta (UV), mas também aspectos relacionados à formulação, estabilidade, segurança toxicológica, eficácia e impacto ambiental. “A revisão buscou compreender como as características químicas e físico-químicas dos filtros influenciam seu comportamento nas formulações e, consequentemente, sua segurança e desempenho”, explica. “Também foram avaliadas estratégias mais recentes, especialmente aquelas baseadas em nanotecnologia e ciência de materiais, que podem contribuir para o desenvolvimento de fotoprotetores mais seguros, eficazes e sustentáveis.”

“Foi realizada uma análise da literatura científica sobre os principais filtros UV orgânicos e inorgânicos, e sobre diferentes estratégias de formulação”, relata Caroline de Melo Fantato. “A revisão foi estruturada considerando quatro aspectos principais: os mecanismos de ação e as características dos filtros; questões de segurança e regulamentação; estratégias inovadoras de formulação; e aspectos relacionados à sustentabilidade.”

Desempenho e segurança

O estudo considerou fatores como fotoestabilidade, absorção sistêmica, potencial de geração de espécies reativas de oxigênio, eficácia fotoprotetora, comportamento dos filtros na pele e possíveis impactos ambientais. “Também foram discutidas estratégias como nanoencapsulação e funcionalização superficial de nanopartículas, além de materiais emergentes, como o óxido de magnésio, que apresenta características promissoras para aplicações em fotoproteção”, descreve a pesquisadora. “Os protetores solares são ferramentas importantes para a fotoproteção, mas isso não significa que todas as formulações ou todos os filtros apresentem as mesmas características de segurança e desempenho.”

Em relação à segurança toxicológica, uma das questões discutidas é a possibilidade de absorção sistêmica de determinados filtros orgânicos, além de preocupações relacionadas à estabilidade e aos produtos de transformação gerados durante a exposição à radiação. “No caso de filtros inorgânicos, como dióxido de titânio e óxido de zinco, a geração de espécies reativas de oxigênio e alguns aspectos relacionados ao comportamento das nanopartículas também precisam ser considerados”, afirma Caroline de Melo Fantato.

Quanto à eficácia, a fotoinstabilidade de alguns filtros pode comprometer o desempenho da formulação durante a exposição solar. “Além disso, características como espalhabilidade, formação de filme sobre a pele, transparência e estabilidade da formulação influenciam diretamente a proteção oferecida e a adesão do consumidor ao produto”, diz a pesquisadora.

“Os protetores solares são ferramentas importantes para a fotoproteção, mas isso não significa que todas as formulações ou todos os filtros apresentem as mesmas características de segurança e desempenho.”

Do ponto de vista ambiental, existe uma preocupação crescente com a liberação de filtros UV e outros componentes das formulações nos ambientes aquáticos. “Ainda existem lacunas importantes sobre os efeitos ecotoxicológicos de diferentes filtros e sobre seu comportamento no ambiente”, salienta a pesquisadora. “Por isso, o desenvolvimento de fotoprotetores deve considerar não somente a segurança para o consumidor, mas também o impacto ambiental ao longo do ciclo de vida do produto.”

Os cientistas recomendam que o desenvolvimento de novos fotoprotetores seja realizado de maneira integrada, considerando simultaneamente segurança, eficácia, estabilidade e sustentabilidade. “Estratégias de engenharia de formulação podem ser utilizadas para melhorar a estabilidade dos filtros e controlar sua interação com a pele”, destaca Caroline de Melo Fantato. “Entre as possibilidades estão a nanoencapsulação de filtros que apresentam problemas de estabilidade e a funcionalização superficial de nanopartículas, estratégias que podem modificar suas propriedades e reduzir determinadas limitações.”

Também é importante investir no desenvolvimento e na avaliação de novos materiais multifuncionais, observa a pesquisadora. “O óxido de magnésio, por exemplo, foi discutido na revisão como uma alternativa emergente que apresenta potencial para aplicações em fotoproteção, devido às suas propriedades de dispersão da radiação UV e às características antioxidantes e anti-inflamatórias descritas na literatura”, diz. “Porém, é importante destacar que materiais emergentes ainda precisam passar por avaliações sistemáticas de segurança, eficácia e impacto ambiental antes de serem considerados alternativas consolidadas aos filtros atualmente utilizados.”

Conhecimento integrado

O estudo foi desenvolvido pelos pesquisadores Caroline de Melo Fantato e Jorge Alberto Soares Tenório, do Departamento de Engenharia Química da Poli, e André Rolim Baby, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. O trabalho é vinculado às atividades desenvolvidas no Laboratório de Reciclagem, Tratamento de Resíduos e Extração (Larex), da Poli, e ao SunLab Research Group, ligado à área de pesquisa em fotoproteção e desenvolvimento de produtos cosméticos.

“A colaboração entre diferentes áreas da USP foi importante para possibilitar uma abordagem multidisciplinar do tema, integrando conhecimentos de engenharia química, ciência de materiais, nanotecnologia, tecnologia cosmética e fotoproteção”, conclui Caroline de Melo Fantato. A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O artigo Sunscreen and UV filters: a comprehensive review of formulation, safety, and efficacy está disponível on-line.

Mais informações: e-mail carolfantato@usp.br, com Caroline de Melo Fantato

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Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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