Saúde e Bem-Estar

Polêmicas unhas de Millie Bobby Brown: não é só erro histórico, é questão de saúde e meio ambiente

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Recentemente, a atriz Millie Bobby Brown virou assunto ao aparecer com unhas postiças em uma produção ambientada na era vitoriana. A reação do público foi imediata: comentários apontaram o anacronismo — afinal, unhas acrílicas simplesmente não existiam no século XIX.

Mas esse episódio vai além de um “erro de figurino”. Ele expõe algo mais profundo: a naturalização contemporânea de um artefato químico-plástico que, embora pareça inofensivo, carrega implicações reais para a saúde e para o meio ambiente

Beleza moderna, química invisível

Unhas postiças — especialmente acrílicas e em gel — são produtos da indústria petroquímica. Diferente da estética vitoriana, o padrão atual depende de polímeros sintéticos, solventes e radiação UV.

A literatura médica mostra que esses materiais não são neutros. Um estudo publicado na PubMed Central descreve casos de onicodistrofia, onicólise e alterações ungueais severas associadas ao uso de unhas artificiais (pmc.ncbi.nlm.nih.gov).

Além disso, os acrilatos — base dessas unhas — são reconhecidos como causadores de dermatite de contato alérgica, podendo levar a sensibilização permanente (nationalgeographic.com).

Em outras palavras: aquilo que hoje parece “básico” é, na verdade, uma tecnologia química relativamente recente — e não isenta de risco.

O corpo como ambiente de risco

O uso contínuo de unhas postiças altera a própria biologia das mãos.

A formação de um espaço entre a unha natural e o material sintético cria um microambiente propício à proliferação de fungos e bactérias, especialmente na presença de umidade (pmc.ncbi.nlm.nih.gov).

Além disso, o processo de aplicação e remoção envolve agressões repetidas:

  • lixamento da unha natural
  • exposição prolongada à acetona
  • desgaste estrutural

Esses fatores levam a unhas mais finas, frágeis e suscetíveis a danos persistentes.

Luz UV: um detalhe ignorado

Outro ponto raramente discutido é o uso de lâmpadas UV para secagem de unhas em gel.

Estudos experimentais indicam que essa exposição pode causar:

  • danos ao DNA
  • mutações celulares
  • morte celular significativa

Uma análise divulgada na literatura de saúde aponta níveis elevados de dano celular após exposições repetidas (verywellhealth.com).

Embora o uso ocasional não represente um risco alto isoladamente, o padrão de uso contínuo levanta preocupações cumulativas.

Do figurino ao planeta: o impacto ambiental

O anacronismo no caso de Millie Bobby Brown também escancara outra questão: unhas postiças são literalmente plástico aplicado ao corpo.

A maioria é feita de PMMA (polimetilmetacrilato), um derivado de combustíveis fósseis (iere.org).

PMMA utilizado em harmonização facial é um plástico e pode ser nocivo para o meio ambiente

Se preferir, vá direto ao ponto Esconder 1. Um plástico dentro do corpo 2. Do ambiente ao organismo, e vice-versa 3. A e…

Isso implica:

  • emissão de gases de efeito estufa na produção
  • baixa biodegradabilidade
  • dependência de petróleo

Com o tempo, esses materiais se fragmentam em microplásticos. Uma revisão científica mostra que essas partículas:

  • podem penetrar o organismo
  • induzem inflamação e estresse oxidativo
  • já foram encontradas em sangue, placenta e leite materno (mdpi.com)

Além disso, estudos experimentais indicam que partículas de PMMA podem causar toxicidade em tecidos e órgãos em determinadas condições (pubs.rsc.org).

Estética descartável

Outro aspecto pouco discutido é o destino final dessas unhas.

Elas combinam:

  • plástico
  • cola
  • pigmentos

Esse tipo de resíduo é praticamente impossível de reciclar. Ou seja, cada aplicação contribui para o acúmulo de lixo plástico — um dos principais desafios ambientais contemporâneos.

O que o “erro histórico” revela

A crítica ao uso de unhas postiças em um filme de época parece, à primeira vista, apenas estética. Mas ela revela algo maior:

o quanto normalizamos tecnologias recentes, químicas e poluentes como se fossem naturais e atemporais

Na era vitoriana, unhas postiças não existiam — e, junto com elas, também não existiam:

  • microplásticos no corpo humano
  • exposição cotidiana a acrilatos
  • ambientes saturados de solventes cosméticos

Conclusão

O caso de Millie Bobby Brown funciona como um espelho cultural. Ele mostra que não estamos apenas falando de estética, mas de um padrão de consumo que mistura corpo, indústria química e impacto ambiental.

A ciência já indica:

  • riscos dermatológicos e infecciosos
  • exposição a substâncias potencialmente tóxicas
  • geração de resíduos plásticos persistentes

Mais do que um detalhe de figurino, as unhas postiças representam um símbolo do presente: beleza construída sobre materiais que o corpo e o planeta têm dificuldade de absorver.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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