Imagem de Laviru Koruwakankanamge disponível no Wikimedia está licenciado sob CC-BY-4.0
Recentemente, a atriz Millie Bobby Brown virou assunto ao aparecer com unhas postiças em uma produção ambientada na era vitoriana. A reação do público foi imediata: comentários apontaram o anacronismo — afinal, unhas acrílicas simplesmente não existiam no século XIX.
Mas esse episódio vai além de um “erro de figurino”. Ele expõe algo mais profundo: a naturalização contemporânea de um artefato químico-plástico que, embora pareça inofensivo, carrega implicações reais para a saúde e para o meio ambiente
Unhas postiças — especialmente acrílicas e em gel — são produtos da indústria petroquímica. Diferente da estética vitoriana, o padrão atual depende de polímeros sintéticos, solventes e radiação UV.
A literatura médica mostra que esses materiais não são neutros. Um estudo publicado na PubMed Central descreve casos de onicodistrofia, onicólise e alterações ungueais severas associadas ao uso de unhas artificiais (pmc.ncbi.nlm.nih.gov).
Além disso, os acrilatos — base dessas unhas — são reconhecidos como causadores de dermatite de contato alérgica, podendo levar a sensibilização permanente (nationalgeographic.com).
Em outras palavras: aquilo que hoje parece “básico” é, na verdade, uma tecnologia química relativamente recente — e não isenta de risco.
O uso contínuo de unhas postiças altera a própria biologia das mãos.
A formação de um espaço entre a unha natural e o material sintético cria um microambiente propício à proliferação de fungos e bactérias, especialmente na presença de umidade (pmc.ncbi.nlm.nih.gov).
Além disso, o processo de aplicação e remoção envolve agressões repetidas:
Esses fatores levam a unhas mais finas, frágeis e suscetíveis a danos persistentes.
Outro ponto raramente discutido é o uso de lâmpadas UV para secagem de unhas em gel.
Estudos experimentais indicam que essa exposição pode causar:
Uma análise divulgada na literatura de saúde aponta níveis elevados de dano celular após exposições repetidas (verywellhealth.com).
Embora o uso ocasional não represente um risco alto isoladamente, o padrão de uso contínuo levanta preocupações cumulativas.
O anacronismo no caso de Millie Bobby Brown também escancara outra questão: unhas postiças são literalmente plástico aplicado ao corpo.
A maioria é feita de PMMA (polimetilmetacrilato), um derivado de combustíveis fósseis (iere.org).
Isso implica:
Com o tempo, esses materiais se fragmentam em microplásticos. Uma revisão científica mostra que essas partículas:
Além disso, estudos experimentais indicam que partículas de PMMA podem causar toxicidade em tecidos e órgãos em determinadas condições (pubs.rsc.org).
Outro aspecto pouco discutido é o destino final dessas unhas.
Elas combinam:
Esse tipo de resíduo é praticamente impossível de reciclar. Ou seja, cada aplicação contribui para o acúmulo de lixo plástico — um dos principais desafios ambientais contemporâneos.
A crítica ao uso de unhas postiças em um filme de época parece, à primeira vista, apenas estética. Mas ela revela algo maior:
o quanto normalizamos tecnologias recentes, químicas e poluentes como se fossem naturais e atemporais
Na era vitoriana, unhas postiças não existiam — e, junto com elas, também não existiam:
O caso de Millie Bobby Brown funciona como um espelho cultural. Ele mostra que não estamos apenas falando de estética, mas de um padrão de consumo que mistura corpo, indústria química e impacto ambiental.
A ciência já indica:
Mais do que um detalhe de figurino, as unhas postiças representam um símbolo do presente: beleza construída sobre materiais que o corpo e o planeta têm dificuldade de absorver.
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