Foto de Montoya Conde, sob CC BY-SA 4.0 no Wikimedia Commons
Por UFV | As geleiras da Colômbia — algumas das mais vulneráveis do planeta — podem desaparecer completamente entre as décadas de 2040 e 2050. O alerta vem de um estudo publicado em março na revista Plos Climate, que compila dados científicos e análises recentes sobre o estado dessas massas de gelo e seus impactos no ambiente e na sociedade. Os pesquisadores ressaltam ainda que os efeitos do derretimento não se limitam à Colômbia: mudanças no ciclo da água e na dinâmica climática podem repercutir em países vizinhos, como o Brasil, reforçando o caráter global e urgente do problema.
Embora o recuo de geleiras seja um fenômeno amplamente documentado, o estudo destaca um aspecto menos conhecido: as geleiras equatoriais, localizadas próximas à Linha do Equador, estão derretendo mais rapidamente do que outras ao redor do mundo. Essas formações, presentes na Colômbia e no Equador, são altamente sensíveis a variações de temperatura e radiação solar, o que acelera sua perda de massa. O tema é uma preocupação mundial, uma vez que a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2025 como o Ano Internacional da Preservação das Geleiras, chamando atenção global para o derretimento acelerado da criosfera — a porção congelada da Terra.
A pesquisa foi realizada pelo doutorando Santiago Márquez Arévalo e orientada pelo professor Álvaro Ávila Diaz, do Programa de Pós- Graduação em Meteorologia Aplicada da UFV. De acordo com o artigo publicado, dados recentes indicam que a área total das geleiras andinas diminuiu cerca de 42% entre 1990 e 2023, passando de 2.429 km² para pouco mais de 1.400 km². “Esse encolhimento acompanha uma tendência global: segundo o relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, as geleiras do mundo perderam entre 4% e 8% de sua massa entre 1993 e 2019, com perdas particularmente intensas na última década analisada”, explicou Santiago.
Ainda segundo os autores, na Colômbia, restam atualmente seis áreas glaciais: Sierra Nevada de Santa Marta, Sierra Nevada del Cocuy e os vulcões Nevado del Ruiz, Nevado del Huila, Nevado del Tolima e Santa Isabel. Apesar da importância desses sistemas, apenas dois deles contam com monitoramento presencial regular.
O desaparecimento das geleiras vai muito além da paisagem. Esses ecossistemas desempenham papel crucial na regulação do ciclo hidrológico, funcionando como reservatórios naturais de água. Sua perda pode alterar o abastecimento hídrico, afetar outros ecossistemas e impactar diretamente comunidades humanas.
Naquele país, cerca de 70% da população vive próxima à região andina, o que aumenta a vulnerabilidade a mudanças no regime de água. “Além disso, as geleiras têm aspectos culturais e simbólicos profundos, sendo consideradas relíquias do último período glacial e elementos centrais na cosmologia de comunidades locais”, disse Santiago
Além de ampliar o conhecimento científico, o estudo busca influenciar políticas públicas. Os autores defendem maior investimento em monitoramento e em estratégias para retardar a perda de gelo — ainda que, em muitos casos, o desaparecimento já seja inevitável. “A expectativa é que a divulgação desses dados contribua para conscientizar a sociedade sobre a importância das geleiras, não apenas como paisagens remotas, mas como componentes essenciais do equilíbrio ambiental e da segurança hídrica”, comentou o professor Álvaro Ávila Diaz
Para chegar às conclusões, os pesquisadores realizaram uma revisão abrangente da literatura científica sobre geleiras colombianas e cruzaram esses dados com registros oficiais do Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales e da plataforma MapBiomas. A comparação permitiu avaliar a evolução da cobertura glacial e projetar cenários futuros.
O pesquisador Santiago Márquez Arévalo realiza seu doutoramento na UFV com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Este texto foi originalmente publicado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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