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Por que deveríamos saber mais sobre as árvores da Mata Atlântica?

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Por Ciência UFPR | Observar a natureza há tempos tem intrigado os estudiosos da biodiversidade e aqueles que se beneficiam de recursos naturais. A princípio, as observações poderiam surgir por mera curiosidade ou sem objetivo claro. Podemos imaginar que aquelas espécies de plantas e animais que estivessem ao alcance do olhar atento dos observadores seriam as primeiras estudadas.

Se pensarmos em uma planta, sua altura poderia ser medida, seu caule analisado, suas flores e folhas desenhadas em seus detalhes e estruturas, e seus frutos saboreados. Essas plantas seriam aquelas que costumamos encontrar em quintais, praças, ruas e florestas.

Dentre elas, estariam plantas comuns e que não são facilmente prejudicadas pelas alterações que o homem realiza na paisagem e plantas com alguma utilidade, cultivadas ou exploradas em seu habitat natural para fins alimentícios ou de matéria prima para móveis, construção civil e fibras, por exemplo.

No decorrer da história, informações sobre tais plantas poderiam ser transmitidas, acumuladas, armazenadas, discutidas e utilizadas para diversos fins científicos e não-científicos.

Por outro lado, aquelas espécies de plantas que fossem dificilmente encontradas, por serem naturalmente raras por exemplo, ou que não possuíssem um uso claro e direto para os homens, não teriam a mesma quantidade de informações disponíveis.

Ou seja, para algumas espécies até mesmo o conhecimento oriundo de observações corriqueiras poderia ser deficiente, como por exemplo, informações de onde a espécie pode ser encontrada ou se troca ou perde as folhas ao longo do ano.

A diferença entre o que não sabemos e o que deveríamos saber a respeito das espécies é chamada de lacuna de conhecimento da biodiversidade.

Mesmo que uma espécie possa ser mais conhecida que outras, devido a trajetórias históricas da ciência, ou devido a interesses em matéria prima, ela pode ter importância na regulação e no funcionamento de ecossistemas.

Processos fundamentais para o funcionamento de ecossistemas em si e para a qualidade de vida dos seres humanos são resultado da interação entre animais, plantas e a matéria orgânica e inorgânica e são chamados de funções ecossistêmicas. As funções são, por exemplo, a produção de biomassa, o sequestro de carbono atmosférico, a ciclagem de matéria orgânica e inorgânica e a resistência à seca.

Essas funções ecossistêmicas são intermediadas por características do organismo vivo, os quais podem ser mais ou menos influentes em funções ecossistêmicas. Isso porque as características das plantas (ou características funcionais) podem representar o bom desempenho em determinadas funções, enquanto são prejudicadas em outras, algo que também é chamado de estratégia ecológica.

Por exemplo, suponha que duas espécies apresentem folhas completamente diferentes. Em uma, a folha é larga e sua grande área permite maior captação de luz solar para a fotossíntese. No entanto, devido ao alto investimento energético na produção da folha larga, a planta deixa de gastar energia com a produção de tecidos mais resistentes para a folha. A folha produzida é macia e suscetível a perda de água, o que reduz seu tempo de sobrevivência e torna necessário que a planta produza novas folhas.

Em outra espécie, a folha é estreita e pouco maleável e sua pequena área reduz o risco de perda de água, o que aumenta o tempo de vida da folha. Devido ao alto custo energético de produção de tecidos resistentes à desidratação, a área foliar disponível para fotossíntese é reduzida. O melhor aproveitamento da luz solar da primeira planta e a necessidade de frequente troca de folhagens resultam em maior produção de biomassa.

Por outro lado, os tecidos resistentes nas folhas da segunda podem garantir maior resistência a condições adversas. Nesse caso, a característica funcional que poderia indicar a qual função está relacionada seria a área foliar específica, que é medida dividindo a área da superfície foliar pela sua massa seca.

Outros atributos que sintetizam estratégias ecológicas são: a altura máxima para a espécie, que indica competição por luz; a massa seca da semente, que indica a quantidade de reserva nutricional para a sobrevivência da plântula; e a densidade da madeira é boa preditora de resistência à seca, e é medida pela massa seca de uma secção da madeira dividida pelo seu volume.

Por possuírem relação com as funções ecossistêmicas, entender o papel de plantas no ecossistema é fundamental.

Sob a perspectiva das atividades humanas sobre as alterações ambientais, é necessário conservar e restaurar não só a biodiversidade, mas também reestabelecer suas interações com o meio.

Para o reestabelecimento de funções e a sua manutenção, é fundamental primeiro conhecer quais espécies desempenham as mesmas funções ou funções diferentes, quais as características que influenciam diretamente nessas funções e qual seria a recomposição necessária de diversidade dessas espécies. A restauração da biodiversidade baseada apenas em recomposição de espécies poderia não atender a esse objetivo a longo prazo.

Por outro lado, restaurar os aspectos de diversidade e de abundância de espécies que expressam os diferentes atributos funcionais, poderia maximizar funções ecossistêmicas.

De acordo com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), criado pela Portaria Interministerial nº 230/2017 como sendo um instrumento fundamental para a Lei de Proteção da Vegetação Nativa, será incentivada a restauração de 12 milhões de hectares até 31 de dezembro de 2030.

Considerando a LPVN, dentre os biomas brasileiros, o que possui maior diferença entre a área de vegetação nativa remanescente em relação ao que deveria ser restaurado é a Mata Atlântica, apresentando um débito que varia entre 70 a mais de 90%.

A Mata Atlântica é historicamente degradada e da qual permanecem apenas 28% divididos entre fragmentos de vegetação original e fragmentos de vegetação secundária, este deficiente de parte das espécies que compõem os fragmentos de vegetação original.

A disponibilidade de informações de características das espécies da Mata Atlântica poderia auxiliar em práticas que reduzam o débito de áreas a serem restauradas. No entanto, das 2.235 espécies de árvores do bioma, 88% não possuem informações de massa seca da semente, 85% de área específica foliar (relação entre tamanho e “dureza” da folha) e 65% de densidade da madeira em bancos de dados de características de plantas e na literatura científica.

As espécies que são mais amplamente distribuídas ou cuja madeira é utilizada economicamente (para móveis, construção civil e celulose) são as mais conhecidas quanto as suas características.

Por outro lado, conhecemos para quase todas as espécies de plantas da Mata Atlântica a altura máxima que sua copa chega.

A grande disponibilidade de informações de altura especificamente se deve principalmente à plataforma Plantas do Brasil: Resgate Histórico e Herbário Virtual para o Conhecimento e Conservação da Flora Brasileira (Reflora). O programa Reflora/CNPQ promoveu o resgate de exsicatas e informações associadas que haviam sido depositadas nos herbários estrangeiros para a construção do Herbário Virtual Reflora.

Mas quais são as consequências de tamanha defasagem na prática? Como falamos, existe a necessidade de compreender a função das espécies sobre os ecossistemas. Com o avanço das alterações climáticas e da degradação ambiental que geram extinções de espécies, as relações entre a biodiversidade e o meio poderão ser alteradas e funções serão perdidas. Em um cenário assim, poderíamos utilizar características funcionais de plantas para identificar e manter funções ecossistêmicas.

Porém, as lacunas de conhecimento sobre características são como peças que faltam de um quebra-cabeça: sem elas, não temos uma ideia completa de como as relações entre a biodiversidade e o meio acontecem, o que compromete os projetos que buscam recompor essas relações.

Conforme a meta 19 do Plano Estratégico de Biodiversidade, dentro das Metas de Aichi para a Biodiversidade de 2011, o conhecimento sobre funções ecossistêmicas, sua distribuição e transferência deveriam ser amplamente melhorados até 2020.

Ainda que seja improvável que a meta seja alcançada até o fim do ano, esforços devem ser direcionados para reduzir as lacunas de conhecimento sobre características funcionais e, consequentemente, as lacunas sobre funções ecossistêmicas.

Pesquisadores cientes do desafio poderão priorizar a coleta e análise das características das espécies pouco conhecidas, especialmente aquelas de pequena distribuição geográfica e sem uso econômico de madeira (que são as menos conhecidas), e garantir o acesso a essas informações.

Uma das opções são os bancos de dados online, plataformas livres que possibilitam reunir informações sobre os atributos funcionais e nos quais as lacunas podem ser frequentemente monitoradas.

Outra opção seria disponibilizar os dados presentes na literatura científica, porém com acessibilidade reduzida devido aos custos embutidos na edição e fabricação do material. Por fim, é necessário que haja argumentação junto aos órgãos nacionais de pesquisa e educação e demais entidades não-governamentais interessadas para viabilizar as pesquisas voltadas para a redução de lacunas de conhecimento.

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Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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