O gecko-leopardo (Eublepharis macularius) é o réptil exótico mais vendido no Brasil segundo dados obtidos por LAI pela Mongabay. Foto: Iterat via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Por Fernanda Wenzel – Mongabay | No início de setembro, funcionários de uma agência dos Correios da cidade paranaense de Cambé se depararam com uma correspondência estranha: caixas plásticas contendo três serpentes. A Polícia Militar Ambiental foi chamada e verificou que as cobras pertenciam à espécie Pantherophis guttatus, conhecida como cobra-do-milho (corn snake em inglês), e originária dos Estados Unidos.
Répteis exóticos, como são chamados os animais que estão fora de sua área de distribuição natural, têm surgido no Brasil onde menos se espera, como mostra uma busca em processos judiciais na plataforma Jusbrasil.
Em 2023, policiais fazendo uma abordagem contra um suspeito de tráfico de drogas em um hotel na Bahia se depararam com três cobras da espécie estadunidense Lampropeltis getula, conhecida como cobra-rei ou king snake. A apreensão está descrita no pedido de habeas corpus feito pela defesa do suspeito e que chegou ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ). Em 2022, uma mulher flagrada com uma píton-bola (Python regius) na sua casa em Goiânia disse aos policiais que a cobra, nativa do continente africano, era o bichinho de estimação de seu filho de nove anos. O caso tramitou no Tribunal de Justiça de Goiás.
Anos antes, em 2019, uma estranha remessa de baratas vivas enviada pelos Correios levou agentes do Ibama até um homem que criava um dragão-barbudo (Pogona Vitticeps), nativo da Austrália, como animal de estimação em Catanduva, no interior de São Paulo. Os insetos serviriam de alimento para o pet, segundo a apelação feita pela defesa do homem ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Os casos são uma pequena mostra de um fenômeno perigoso que, segundo especialistas, está saindo do controle e pode causar danos irreparáveis à biodiversidade brasileira. Desde 2021, um total de 9.131 répteis pertencentes a 27 espécies exóticas foram vendidos como animais de estimação no Brasil por criadores comerciais e lojas autorizadas pelo Ibama ou por órgãos estaduais, segundo dados obtidos pela Mongabay por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Os números dispararam nos últimos cinco anos, passando de 236 vendas em 2021 para mais de 2.500 em 2025, um aumento de quase 1.000%.
Em 2026, 2.088 répteis já haviam sido comercializados até julho, em uma tendência de consumo abastecida pelo tráfico internacional de animais e incentivada pelas redes sociais e por brechas na legislação.
Os números se referem às transferências feitas pelos criadouros diretamente ao consumidor final e foram retirados do Sistema Nacional de Gestão de Fauna Silvestre (Sisfauna), um sistema do Ibama que reúne informações sobre o uso e o manejo da fauna silvestre em cativeiro, e do Gefau, um sistema próprio utilizado pelo estado de São Paulo.
Entre as espécies mais vendidas estão os lagartos gecko-leopardo (Eublepharis macularius) e dragão-barbudo, e as serpentes píton-bola, cobra-rei, jiboia-da-areia-queniana (Eryx colubrinus) e cobra-do-leite (Lampropeltis triangulum) — nenhuma delas é considerada peçonhenta.
A lista também inclui répteis ameaçados de extinção, como a tartaruga-de-esporas-africana (Centrochelys sulcata), uma das maiores tartarugas terrestres do mundo, que pode pesar mais de 100 quilos. No total, 157 destas gigantes foram comercializadas no Brasil.
Os números obtidos pela Mongabay revelam apenas uma parcela do total de répteis exóticos comercializados no Brasil, já que não há estimativas sobre os volumes comercializados ilegalmente.
Com tantos animais circulando, aumentam as chances de que alguns deles acabem escapando de seus donos ou sejam soltos por tutores que se arrependeram da compra. Um caso emblemático é o da tartaruga-de-orelha-vermelha (Trachemys scripta ssp.), um animal natural da América do Norte que se disseminou no Brasil após ser abandonado em lagos, parques urbanos e rios. Famosos por comer tudo o que vem pela frente, estes répteis chegam a medir 25 centímetros e vivem por até trinta anos, rivalizando com as espécies nativas.
“Qualquer espécie exótica invasora que se estabeleça na natureza vai causar impacto sobre as populações de espécies nativas”, explica Sílvia Ziller, fundadora e diretora-executiva do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, ONG que é referência no manejo de espécies exóticas invasoras no Brasil e América Latina.
A espécie é considerada invasora quando encontra um ambiente favorável, passa a se multiplicar e a prejudicar o equilíbrio ambiental. Segundo Ziller, os vírus trazidos pelos animais exóticos podem adoecer a fauna nativa. Além disso, os invasores acabam competindo por alimento, espaço e áreas de reprodução.
“Répteis e anfíbios têm um grande potencial de bioinvasão”, disse à Mongabay João Alvarez de Sá, chefe do Núcleo de Fiscalização de Fauna do Ibama. ”E depois que o animal se estabelece como invasor, é bem difícil, senão impossível, erradicá-lo totalmente.”
Em Fernando de Noronha, por exemplo, o ICMBio tenta até hoje erradicar o lagarto teiú (Salvator merianae), introduzido nos anos 1950 para combater os ratos da ilha. Apesar de ser nativo de outras partes do Brasil, o réptil não fazia parte da fauna de Noronha.
Medindo mais de 1,6 metro e pesando até 8 quilos, o maior lagarto da América do Sul passou a comer os ovos das aves marinhas, acostumadas a fazer seus ninhos no chão.
As pítons também são fortes candidatas a invasoras. Em várias espécies dessa cobra, a fêmea consegue se reproduzir sozinha, sem a necessidade de um macho, e gerar dezenas de filhotes. O estado da Flórida, nos Estados Unidos, proibiu o comércio de pítons em 2010 depois que a serpente se tornou uma praga. No Parque Nacional de Everglades, populações inteiras de coelhos e raposas praticamente desapareceram de tanto serem predadas pelas pítons.
Algo parecido poderia acontecer em certas regiões do Brasil, como mostra um estudo de 2017 que avaliou o potencial de invasão de cinco espécies de serpentes exóticas no território brasileiro. Segundo o estudo, o Pantanal e o Cerrado teriam condições climáticas favoráveis à disseminação da píton-bola, da cobra-do-milho e da píton-birmanesa (Python bivittatus).
“As duas últimas possuem praticamente todos os requisitos para se tornarem invasoras bem-sucedidas e são responsáveis pelo declínio de espécies nos ambientes invadidos por elas em outras partes do mundo,” afirmaram os autores.
Em 2023, uma píton-real de 1,5 metro de comprimento, originada provavelmente do mercado pet, foi resgatada pelos bombeiros e solta por engano no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, depois que os bombeiros confundiram o animal com uma espécie nativa. Um ano antes, policiais ambientais do Distrito Federal também soltaram por engano uma píton-birmanesa, originária da Ásia, numa área de Cerrado. Ambos os animais foram recuperados em poucos dias.
Para tentar evitar novas solturas equivocadas, o ICMBio chegou a publicar um guia para orientar agentes ambientais, policiais militares e bombeiros a diferenciar as espécies nativas das exóticas.
O risco de bioinvasão também deixou em alerta o Ministério Público Federal (MPF) que, em 2025, reuniu pesquisadores e agentes de fiscalização ambiental de todo o país em um evento em Brasília. “O que começa com a compra de um animal diferente pode se transformar em um problema ambiental sério”, disse a procuradora regional da República Lívia Nascimento Tinoco, em e-mail enviado à Mongabay.
Segundo a procuradora, o MPF está reunindo dados sobre a disseminação das espécies exóticas, que “podem dar origem a investigações, recomendações e, se necessário, medidas judiciais.”
A crescente retirada de animais da natureza para atender ao mercado de pets exóticos também representa um risco à biodiversidade dos países de origem destes animais. Segundo um estudo publicado em 2021 na revista Conservation Science and Practice, “o comércio ilegal de animais de estimação representa a segunda maior ameaça à sobrevivência de certos répteis, devido à retirada contínua e descontrolada de espécimes da natureza”.
Os milhares de lagartos, serpentes e tartarugas vendidos como animais de estimação em todo o Brasil caíram em um limbo jurídico. A importação de répteis exóticos é proibida no país desde 1998. Em 2002, o risco de disseminação de doenças e de acidentes com serpentes levou o Ibama a suspender novas autorizações para criadouros venderem répteis, exóticos ou não, como pets.
A situação começou a sair do controle em dezembro de 2011, quando uma lei complementar delegou aos estados a tarefa de aprovar o funcionamento de criadouros de animais da fauna silvestre. Ao assumir a função, alguns estados passaram a permitir também a criação de espécies exóticas, alegando que a lei empregava o termo “fauna silvestre”, e não “fauna silvestre nativa”.
O argumento não encontra amparo em outras normativas do Ibama, como a lei de crimes ambientais, uma portaria de 1998 e um decreto de 2008, que definem os animais silvestres como aqueles que pertencem às espécies nativas do Brasil.
Enquanto as autoridades batiam cabeça na interpretação da lei, os governos de alguns estados passaram a distribuir licenças ambientais para criadores reproduzirem e venderem pítons, dragões-barbudos, geckos-leopardos, e assim por diante.
Paraná e Alagoas são os que mais estimularam a venda de répteis exóticos. Dos 7.674 animais registrados no Sisfauna, 4.949 foram vendidos por estabelecimentos do Paraná e 2.717 por criadouros de Alagoas. São Paulo, que tem um sistema próprio, vem logo atrás com 1.457 répteis vendidos.
No Paraná, a administração municipal de Cornélio Procópio chegou a promover um destes criadouros como um atrativo da cidade em um vídeo institucional da prefeitura. Em Alagoas, o mercado de pets exóticos virou notícia no site do Sebrae, que celebrou o “potencial econômico do segmento” no estado.
Como a importação de répteis segue proibida pelo governo federal, cria-se uma situação contraditória: criadouros legalizados vendendo animais que, muito provavelmente, entraram no país por meio do tráfico internacional. “À medida em que aparecem iguanas, pítons e outras serpentes como pets, a gente sabe que isso é tudo ilegal”, afirma Ziller, do Instituto Hórus.
Tinoco, do MPF, pondera que parte dos animais pode ter origem em plantéis autorizados no passado, com reprodução em cativeiro e transferência entre estabelecimentos. Ao mesmo tempo, ela diz que há muitas falhas no controle dos plantéis e um intenso comércio clandestino de animais.
“Quando aparece no mercado uma quantidade expressiva de animais cuja importação é proibida, é preciso saber de onde eles vieram, onde nasceram e como chegaram até o comprador,” afirma Tinoco. “Sem esse acompanhamento, um animal ilegal pode acabar sendo apresentado como se tivesse origem regular.”
Em 2020, uma ofensiva do Ibama multou e suspendeu as atividades de vários desses criadouros devido ao risco de bioinvasão. Os empresários recorreram à Justiça e o assunto passou a dividir opiniões na área técnica do Ibama: alguns servidores diziam que as licenças emitidas pelos estados eram válidas e que o Ibama não poderia multá-los; outros alegavam que os estados não poderiam ter autorizado a venda de répteis exóticos. A decisão final coube a Eduardo Bim, então presidente do Ibama, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), que determinou o cancelamento de todos os autos de infração.
Rodrigo Agostinho, que assumiu o Ibama no governo Lula, em 2023, reconheceu publicamente a gravidade da venda de répteis exóticos durante um evento em São Paulo, em 2024. Na ocasião, ele disse que era preciso “ter coragem de enfrentar esses problemas” relacionados às espécies invasoras.
Até hoje, no entanto, o Ibama não tomou uma posição definitiva sobre a legalidade das licenças emitidas pelos estados, mantendo aberta a brecha jurídica pela qual milhares de répteis exóticos continuam a ser vendidos no Brasil.
Agostinho, que deixou a presidência do Ibama em abril para concorrer às eleições como deputado federal, disse em entrevista à Mongabay que o assunto divide opiniões dentro da área técnica do Ibama e também entre o corpo técnico e a Advocacia-Geral da União, que representa juridicamente a autarquia.
“Não é algo muito simples [de resolver], mas é preciso encontrar uma solução”, ele afirmou por telefone. Para o ex-presidente do Ibama, a solução para as licenças obtidas por criadouros estaduais deve ser buscada via Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).
Um processo administrativo sobre o tema segue em andamento no Ibama. Em maio de 2025, uma manifestação técnica assinada pelo analista ambiental Roberto Cabral Borges pediu que fossem restabelecidas as suspensões aos criadouros. “A cada dia que passa, a cada reprodução e venda efetuada pelo criador, nos aproximamos mais de um desastre ambiental que poderia ter sido evitado”, Cabral escreveu.
O Ibama informou à Mongabay que “ainda não há decisão definitiva” sobre o assunto, e que “o Instituto está em processo de revisão das normas que regulamentam a introdução e o controle de espécies exóticas invasoras”. O órgão acrescentou que “as espécies exóticas invasoras são consideradas um dos maiores problemas ambientais do mundo” e que as “ações de controle e fiscalização de espécies exóticas são prioritárias para o Ibama.” Leia a íntegra da resposta aqui.
Em nota enviada à Mongabay, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) de São Paulo informou que o estado possui 19 estabelecimentos comerciais autorizados a vender répteis exóticos, além de um criadouro comercial autorizado inicialmente pelo Ibama (leia a íntegra da resposta aqui).
O estado afirma que “não autoriza novos criadouros para reprodução de répteis exóticos destinados à venda como animais de estimação” e que a venda desses animais representa um risco para as espécies nativas (leia a íntegra da resposta aqui).
O Instituto Água e Terra (IAT), que responde pelo licenciamento e fiscalização ambiental no Paraná, informou que a venda de animais de espécies exóticas como animais de estimação é regulada por uma instrução normativa de julho deste ano. A norma inclui uma lista de espécies que não podem ser comercializadas como animais de estimação (leia a íntegra da resposta aqui).
O Instituto do Meio Ambiente do Alagoas (IMA) não respondeu às tentativas de contato da Mongabay.
Nos processos judiciais, os criadouros multados pelo Ibama argumentaram que não importaram os animais de seu plantel, e que por isso não infringiram a lei. Um exemplo é a empresa Animais Brasil, de Maragogi, em Alagoas, que alegou ter recebido os animais exóticos do órgão ambiental estadual.
“Não pode o órgão estadual entregar um espécime aos cuidados do autor e depois o Ibama autuá-lo por ter recebido o animal”, argumentou a empresa no processo judicial.
De fato, o próprio Ibama entregou répteis exóticos para criadores comerciais. Dados obtidos pela Mongabay por meio da LAI mostram que Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) fizeram 77 transferências deste tipo para empresas do Paraná e de Alagoas entre 2020 e 2024. O número total de animais não foi informado e a Mongabay não conseguiu acesso aos dados dos órgãos ambientais estaduais.
Os animais exóticos chegam aos Cetas tanto pela entrega voluntária — que não acarreta punição a quem portava o animal — como por meio de apreensões feitas em operações contra o tráfico de animais.
Uma vez na mão dos agentes ambientais, esses bichos viram um problema. Os Cetas se dedicam prioritariamente à reabilitação de animais nativos, e muitos operam além da capacidade. Então o que fazer com um animal exótico, que não pode ser solto na natureza?
O envio destes répteis para os criadouros comerciais, no entanto, constitui um eficiente mecanismo de lavagem de animais oriundos do tráfico, segundo escreveu Cabral em sua manifestação técnica.
“Hoje se tornou deveras fácil esquentar répteis exóticos ilegais”, escreveu o analista ambiental. “Alguém os entrega em um Centro de Triagem de Animais Silvestres, depois os criadores informam aos órgãos ambientais que podem receber estes animais. Os animais são então mandados para estes criadores e eles passam a reproduzir e vender animais cuja entrada no Brasil é proibida.”
Em 2023, o Ibama publicou uma instrução normativa proibindo o envio de animais exóticos a criadouros comerciais e determinando que eles sejam repatriados ou entregues a criadouros conservacionistas, mantenedores ou jardins zoológicos.
Desde a adolescência, Juliana era apaixonada por animais e tinha um fascínio especial pelas serpentes. Moradora da cidade de São Paulo, ela não vislumbrava nenhuma chance de ver uma cobra de perto. “Eu ficava ansiosa para ter o contato [com o animal] e não conseguia”, conta Juliana, cujo nome verdadeiro foi omitido pela Mongabay a pedido da entrevistada.
Aos 17 anos, quando estava cursando o primeiro semestre da faculdade de biologia, ela adotou uma jiboia (Boa constrictor), espécie nativa do Brasil. Vinte anos depois, a cobra tem mais de 2,5 metros e ainda vive em um terrário em seu apartamento em São Paulo. Mas Juliana se arrepende da decisão que tomou na juventude.
”Fui aprendendo que o comércio legalizado de animais silvestres também fomenta o comércio ilegal, então hoje em dia eu sou totalmente contra”, ela disse em uma conversa por telefone. “Mas eu não posso simplesmente soltar em qualquer lugar. É igual a um cachorro, um gato… você não pode abandonar.”
O aumento no número de brasileiros donos de pets não-convencionais, como cobras e lagartos, segue uma tendência global de consumo iniciada nos Estados Unidos, Austrália e União Europeia e que há alguns anos vem se espalhando pelas economias emergentes, como Brasil, China e Indonésia.
Nos Estados Unidos, por exemplo, estudos mostram que cerca de 50% dos pets se encaixam neste perfil, e o número de moradias norte-americanas com répteis e anfíbios mais do que dobrou entre 1994 e 2012.
O mercado de pets exóticos no Brasil também inclui outras classes de animais, como o ouriço-pigmeu-africano (Atelerix albiventris, também conhecido como hedgehog) e o pequeno marsupial petauro-do-açúcar (Petaurus breviceps, ou sugar glider), além de algumas espécies de aranhas e escorpiões.
Os répteis, no entanto, são os queridinhos dos consumidores, seja pela crença de que são silenciosos e fáceis de cuidar, seja pela vontade de chamar atenção nas redes sociais com um animal que provoca medo ou repulsa.
No Brasil, há vários perfis promovendo este tipo de consumo nas redes sociais, e parte do conteúdo é produzido por criadores que vendem legalmente répteis exóticos. O Criadouro Reptiliano, do Paraná, posta vídeos no Instagram mostrando as feridas das picadas de cobras em mãos e braços, e pedindo que os usuários adivinhem qual o tipo de cobra que deu a picada.
Já a Animais Brasil, também conhecida como Jiboias Brasil, produz conteúdos destacando as vantagens de ter esse tipo de bicho de estimação. A píton-bola, por exemplo, é apresentada como a “pet dos sonhos” por ter “temperamento de anjo”, ser de “manutenção simples” e apresentar mais de 500 mutações genéticas. “É tipo colecionar cartas de Pokémon”, afirma o criadouro na postagem. O gecko-leopardo é apresentado como o “gatinho do mundo dos répteis”, enquanto a cobra-do-leite é descrita como um “um réptil bonito, compacto e cheio de personalidade”.
Surfando nesta mesma onda de consumo, está um mercado paralelo e ilegal que opera nas redes sociais e por meio de grupos de mensagens. No Facebook, é fácil encontrar pessoas vendendo cobras-do-milho e gecko-leopardos de maneira totalmente informal.
“Hoje você consegue comprar aqui no Brasil um lagarto lá da Indonésia e ele chega pelo Correio para você”, disse Agostinho, ex-presidente do Ibama.
Grupos criminosos vendendo animais em grupos de mensagens já foram alvo de ações policiais. Em 2025, uma megaoperação da Polícia Civil do Paraná resgatou mais de mil animais, incluindo cobras-do-milho, cobras-do-leite, pítons-albinas (Python bivittatus) e axolotes (Ambystoma mexicanum) — um anfíbio nativo do México e criticamente ameaçado de extinção.
Em 2024, a Operação Ojuara, na Bahia, também desmantelou uma quadrilha que vendia animais pela internet e usava os Correios para fazer entregas. Treze cobras foram resgatadas, entre elas seis cobras-do-milho e duas pítons.
São animais que chegam ao Brasil ilegalmente por portos e aeroportos, ou cruzando clandestinamente as fronteiras com os países vizinhos na região amazônica, como apontou a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) em um relatório de 2024.
“A Renctas tem observado um crescente e constante aumento na procura por animais oriundos do continente africano, do Sudeste Asiático e da Austrália, principalmente no grupo dos animais peçonhentos”, observou a ONG.
Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.
Saiba mais