Ciência & Meio Ambiente

Pesquisa com participação da Unifesp revela múltiplas camadas de contaminação no Rio Tietê

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Por DCI/Unifesp | A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) participou da Expedição Tietê 2025, levantamento técnico-científico realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, com apoio do Instituto Itaúsa, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). A iniciativa percorreu o Rio Tietê da nascente, em Salesópolis, até a foz no Rio Paraná, em Itapura, analisou 14 pontos do curso d’água e produziu um diagnóstico amplo sobre as condições ambientais da bacia. Os resultados estão disponíveis em relatório completo e em painel interativo elaborado pela SOS Mata Atlântica.

Os estudos reuniram dados sobre microplásticos, fármacos, drogas ilícitas, agrotóxicos, parâmetros microbiológicos, físico-químicos e biogeoquímicos. Os resultados, divulgados pela SOS Mata Atlântica mostram que o Tietê não apresenta trecho plenamente livre de contaminação. Embora parte da cobertura tenha destacado a presença de cocaína, agrotóxicos e microplásticos, o levantamento traz um quadro mais complexo, relacionado ao saneamento insuficiente, ao descarte inadequado de resíduos, ao uso agrícola do solo, à presença de reservatórios, à urbanização intensa e aos padrões de consumo da sociedade paulista.

Representada pelos docentes do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, Camilo Seabra e Ítalo Braga, Unifesp participou em frentes estratégicas da pesquisa, como nas análises sobre microplásticos e sobre a ocorrência de fármacos e drogas ilícitas nas amostras de água. Esses dois conjuntos de dados ajudam a compreender formas de contaminação que nem sempre são visíveis, mas que têm grande relevância para o debate ambiental, sanitário e regulatório. No estudo sobre microplásticos, os pesquisadores avaliaram a distribuição dessas partículas ao longo do Rio Tietê. Os resultados indicaram a presença de microplásticos em todos os pontos analisados, com concentrações variáveis e predominância de fibras pequenas, associadas a fontes urbanas, efluentes domésticos e industriais, lavagem de roupas sintéticas, drenagem urbana e descarte inadequado de resíduos.

A pesquisa também aponta que a distribuição dessas partículas é influenciada pela densidade populacional, pelo grau de modificação humana do território e pela dinâmica hidrológica do rio, especialmente em áreas de reservatórios e barragens. Nesse sentido, se reforça a ideia de que a questão envolve a organização das cidades, o consumo cotidiano e a infraestrutura de saneamento e gestão de resíduos, e não apenas o lixo visível. O Tietê funciona ao mesmo tempo como receptor, zona de acumulação e via de dispersão dessas partículas.

Outra frente conduzida com participação de pesquisadores da Unifesp analisou a presença de fármacos e drogas ilícitas ao longo do rio. Foram detectadas substâncias como cafeína, losartana, carbamazepina, diclofenaco, acetaminofeno, cocaína e benzoilecgonina, entre outras. A cafeína apareceu em todos os pontos de coleta e é utilizada em estudos ambientais como marcador de contaminação por esgoto doméstico. A benzoilecgonina, principal metabólito da cocaína, também foi identificada em diferentes trechos, reforçando a leitura de que o rio carrega sinais químicos da presença humana e das condições sanitárias dos territórios que atravessa.

Os dados indicam maior concentração de contaminantes em áreas próximas aos centros urbanos, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo. O ponto de Osasco apresentou os maiores valores para várias substâncias analisadas, o que evidencia a pressão exercida pela urbanização, pelo lançamento de esgoto e pela ocupação intensiva da bacia. Mesmo na nascente, onde a qualidade da água é melhor, foram identificados sinais iniciais de contaminação, o que aponta para a capilaridade dos impactos humanos sobre o sistema hídrico.

A relevância do estudo está também em mostrar que os diferentes contaminantes não devem ser analisados de forma isolada. Microplásticos podem interagir com agrotóxicos e fármacos. Segundo o pesquisador Ítalo Braga “efeitos sinérgicos ou aditivos podem emergir deste coquetel de contaminantes afetando a biota aquática e comprometendo importantes serviços ecossistêmicos prestados pelo rio Tietê à população ”.

O levantamento também mostra a importância de ampliar os parâmetros de monitoramento ambiental. Muitos dos contaminantes identificados ainda não integram de forma sistemática as redes oficiais de controle da qualidade da água, embora possam produzir efeitos ecológicos de médio e longo prazo.

Segundo Camilo Seabra, pesquisador da Unifesp, incorporar esses indicadores ao acompanhamento da bacia é uma condição importante para orientar políticas públicas mais efetivas. “O monitoramento de contaminantes emergentes permite compreender melhor as pressões que atuam sobre o rio e qualificar as estratégias de recuperação ambiental”, afirma.

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Este texto foi originalmente publicado pela Unifesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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