Água e Saneamento

O que é água supercrítica e como ela pode tratar resíduos líquidos contaminados com fármacos

Compartilhar

Por Thais Teixeira – Jornal UFG | O descarte crescente de produtos farmacêuticos é um grande problema ambiental da atualidade. Tratamentos comuns não são capazes de eliminar esses produtos, o que pode causar uma série de desequilíbrios. Um estudo conduzido pelo Programa de Pós-Graduação em Química da Universidade Federal de Goiás (UFG) analisou o tratamento de água com resíduos de fármacos por meio da tecnologia de oxidação em água supercrítica.

A pesquisadora Isabela Milhomem Dias, que desenvolveu a pesquisa no doutorado, explica que a condição supercrítica da água é alcançada em um reator químico com alta temperatura e pressão – superiores a 374 °C e 221 bar (unidade de medida de pressão). Durante esse processo, as propriedades físico-químicas da água são modificadas e ela fica em um estado que não é considerado nem sólido, nem líquido, nem gás.

“O grande diferencial da água supercrítica, comparada à ‘água comum’, é que ela tem uma característica polar; então, em água em condições ambiente, eu consigo dissolver substâncias polares. Já em condição supercrítica, ela vira completamente o oposto. Por exemplo, se eu tiver um óleo, eu consigo fazer isso ficar miscível [capaz de se misturar] na água supercrítica, e os sais, por exemplo, precipitam e não se misturam”, explica Isabela. É essa propriedade que permite que a água supercrítica seja auxiliar no tratamento de água e resíduos contaminados.

O estudo tratou água contaminada por 20 tipos diferentes de antibióticos, como amoxicilina, penicilina e sulfametoxazol. Outros tipos de medicamentos, como ansiolíticos e hormônios, também foram testados. Os resultados foram promissores: medicamentos cardiovasculares e anti-hipertensivos alcançaram a maior taxa de remoção de carbono orgânico total, chegando a 92,1%; ansiolíticos e antidepressivos apresentaram uma taxa de remoção de 85,9%; e antibióticos e efluentes industriais tiveram índices de degradação entre 60,1% e 64,1%.

O professor Christian Gonçalves Alonso, que orientou a pesquisa, explica que parte dos antibióticos consumidos pela população é eliminada pelo organismo e segue para o sistema de esgoto. Embora as estações de tratamento removam diversos contaminantes, muitas dessas moléculas persistentes não são completamente degradadas e acabam chegando a rios e outros corpos hídricos.

“A presença contínua desses resíduos pode favorecer o surgimento de microrganismos resistentes a medicamentos, além de provocar alterações na fauna e na flora ao longo do tempo”, detalha.

Apesar de o processo não ser considerado tecnicamente complexo, o alto consumo de energia ainda representa um desafio para sua aplicação em larga escala. Isso ocorre porque o sistema exige temperaturas e pressões muito elevadas, aumentando os custos operacionais.

Geração de energia a partir de resíduos

Além de limpar a água e resíduos líquidos contaminados, a tecnologia demonstrou um benefício adicional: a produção de gases com alto valor energético. Durante o processo de oxidação, houve a formação de metano (CH4) e gás de síntese rico em hidrogênio (H2).

No caso do tratamento de antibióticos, o volume de gases gerados chegou a ser três vezes maior do que a quantidade de resíduo alimentada no sistema. Esses gases podem se transformar em energia armazenável, o que é também um importante resultado. Outra característica é que o reator é de fluxo contínuo, o que permite rapidez no tratamento e processamento de grandes fluxos de efluentes.

O professor da UFG ressalta que, embora o processo tenha atendido à maioria dos limites recomendados pela legislação nacional e internacional de qualidade da água, ainda há desafios. Testes de toxicidade com microcrustáceos (Artemia salina) revelaram que algumas amostras tratadas ainda apresentavam efeitos tóxicos, o que sugere que a toxicidade das moléculas resultantes do processo é uma questão que ainda precisa ser aprimorada.

Acesse aqui a tese Tecnologia supercrítica aplicada ao tratamento de águas contaminadas por fármacos.

Descarte de medicamentos e seus impactos socioambientais

Saiba mais sobre o descarte de medicamentos e seus impactos socioambientais. Aprenda também como fazer o descarte consci…

Remédios e drogas no sangue de tubarões geram alertas para impacto humano no oceano

Grande vilão na cultura pop, o tubarão é um dos animais mais ameaçados pela ação humana. E a contaminação dos oceanos af…

Resíduos farmacológicos são encontrados em água destinada ao consumo humano

Análises em amostras de água de uma Estação de Tratamento de Água (ETA), em Jaboticabal, SP, detectaram a presença de su…

Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal UFG, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.

Saiba mais