Oceanos

Mergulho recreativo acelera impactos invisíveis sobre recifes de coral, revela pesquisa

Compartilhar

O mergulho autônomo consolidou-se como uma das principais atividades do ecoturismo marinho, aproximando milhões de pessoas dos recifes de coral todos os anos e fortalecendo a economia de comunidades costeiras. Ao mesmo tempo, uma pesquisa internacional revela um desafio crescente: grande parte dos mergulhadores provoca danos aos corais sem perceber. O estudo demonstra que a combinação entre excesso de confiança, comportamento coletivo e falhas na condução das atividades aumenta a pressão sobre ecossistemas que já enfrentam os efeitos das mudanças climáticas, da poluição e do aquecimento dos oceanos.

A pesquisa acompanhou 732 mergulhadores recreativos em destinos mundialmente conhecidos da Indonésia e das Filipinas. Durante centenas de horas de observação subaquática, pesquisadores registraram cada contato dos participantes com os recifes e, posteriormente, compararam esses registros com a percepção dos próprios mergulhadores por meio de questionários.

Os resultados revelaram uma diferença significativa entre percepção e realidade. Em média, cada mergulhador tocou ou atingiu o recife uma vez a cada quatro minutos. Mais de 40% desses contatos provocaram danos visíveis, como fragmentação de colônias de coral ou deposição de sedimentos sobre organismos vivos. A maior parte dos impactos ocorreu de forma acidental, passando despercebida pelos responsáveis.

Apesar disso, a percepção dos participantes era bastante diferente. A maioria demonstrou preocupação com a conservação ambiental e avaliou suas habilidades de controle de flutuabilidade como superiores à média. Cerca de 69% acreditavam evitar melhor do que outros mergulhadores os contatos intencionais com os recifes, enquanto 86% consideravam possuir desempenho acima da média para evitar colisões acidentais.

Quando os pesquisadores confrontaram essas respostas com as observações feitas debaixo d’água, constataram que os participantes subestimavam a frequência de contatos com os corais em quase cinco vezes. Aqueles que mais atingiam os recifes também eram justamente os que apresentavam maior confiança em suas próprias habilidades.

Esse comportamento se aproxima do chamado efeito Dunning-Kruger, fenômeno psicológico no qual indivíduos com menor competência tendem a superestimar o próprio desempenho por dificuldade em reconhecer suas limitações. No contexto da conservação marinha, esse padrão dificulta mudanças de comportamento, já que muitos visitantes deixam de perceber sua participação na degradação do ambiente.

O estudo também identificou que a influência exercida por outros mergulhadores altera o comportamento dentro da água. Sempre que um integrante do grupo tocava os corais, aumentava a probabilidade de pessoas próximas repetirem a ação, mesmo sem perceber. Esse processo, conhecido como contágio social, acaba criando padrões de comportamento considerados aceitáveis durante a atividade, embora representem riscos para os recifes.

Os momentos de maior entusiasmo dos visitantes também coincidem com períodos de maior vulnerabilidade dos corais. A observação de animais emblemáticos, como tubarões, tartarugas marinhas e arraias-manta, elevou tanto os contatos involuntários quanto os intencionais com os recifes. A atenção concentrada na fauna reduz a percepção da posição do corpo e dos equipamentos, favorecendo colisões.

Diante desse cenário, áreas conhecidas pela grande abundância de vida marinha exigem estratégias específicas de manejo. Grupos menores, distâncias adequadas para observação dos animais e orientação constante durante o mergulho reduzem significativamente os riscos aos recifes.

Os pesquisadores também verificaram que determinados equipamentos aumentam a frequência de contatos com os corais. Câmeras subaquáticas, bastões utilizados para estabilização e luvas estiveram associados a um número maior de impactos. Em alguns destinos turísticos, regras específicas já limitam o uso desses acessórios como forma de proteger os ecossistemas, embora essas medidas ainda gerem resistência entre parte da comunidade de mergulho.

O treinamento técnico aparece como uma das ferramentas mais eficientes para reduzir danos. Melhor capacitação em controle de flutuabilidade, instruções detalhadas antes da entrada na água, avaliações após o mergulho e atuação ativa de instrutores e guias contribuem para diminuir os contatos com os recifes e fortalecer práticas mais responsáveis.

Outra iniciativa apontada como promissora envolve programas de certificação ambiental voltados ao turismo marinho sustentável. Centros de mergulho participantes da certificação Green Fins apresentaram menor número de contatos intencionais com os corais, especialmente entre estabelecimentos que adotam padrões mais elevados de gestão ambiental.

Os pesquisadores destacam, porém, que certificações isoladas produzem resultados limitados. A proteção dos recifes depende de mudanças mais amplas na cultura do mergulho recreativo, incorporando conhecimento científico, educação ambiental e compreensão dos fatores psicológicos que influenciam o comportamento humano debaixo d’água. Dessa forma, o turismo marinho pode fortalecer a conservação dos recifes e contribuir para reduzir a pressão sobre um dos ecossistemas mais biodiversos e ameaçados do planeta.

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.

Saiba mais