Consumo e Produção

Mapa revela a origem da mineração de metais e matérias-primas presentes nos celulares

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A fabricação de um smartphone pode mobilizar mais de 200 quilos de matérias-primas para produzir um aparelho de aproximadamente 200 gramas. Grande parte da pressão ambiental associada ao celular ocorre antes mesmo de ele chegar às mãos do consumidor: cerca de 80% do impacto ambiental estimado acontece durante etapas anteriores ao uso, especialmente na extração e no processamento dos materiais.

Para tornar essa cadeia mais visível, uma nova plataforma digital chamada Mine My Phone reúne dados sobre locais de mineração espalhados pelo mundo e relaciona esses territórios aos principais metais utilizados nos smartphones. A ferramenta permite acompanhar a origem de dez grupos de matérias-primas presentes nos aparelhos: cobalto, lítio, tântalo, gálio, grafite, ouro, estanho, cobre, índio e elementos de terras raras.

A iniciativa foi desenvolvida pela Back Market em colaboração com nove especialistas internacionais. Além de localizar áreas de extração, a plataforma organiza informações de acordo com diferentes tipos de impacto, incluindo questões ambientais, sociais e geopolíticas, e reúne entrevistas com especialistas e investigações sobre condições encontradas em regiões mineradoras.

O peso escondido de um smartphone

Um telefone celular convencional reúne mais de 70 matérias-primas e mais de 50 metais. A diferença entre o peso do aparelho e a quantidade de recursos necessários para produzi-lo evidencia uma característica pouco perceptível da tecnologia: uma pequena quantidade de material refinado pode exigir a movimentação de grandes volumes de rocha e outros recursos naturais.

A mineração transforma paisagens, interfere na disponibilidade de água e pode introduzir contaminantes em ecossistemas. Em diferentes regiões produtoras, a expansão de empreendimentos também está associada ao deslocamento de comunidades e a violações de direitos humanos.

Países como Argentina, Chile, Bolívia, República Democrática do Congo, Equador e Filipinas aparecem entre os territórios relacionados à extração de matérias-primas utilizadas pela indústria tecnológica. A concentração de determinados recursos em poucas regiões acrescenta ainda uma dimensão política à cadeia de produção.

Quando um metal essencial depende de poucos países produtores ou de um número limitado de áreas de mineração, problemas ambientais, conflitos, instabilidades políticas e disputas comerciais podem repercutir em toda a cadeia global de eletrônicos.

Cobalto expõe os custos da tecnologia

O cobalto é um dos exemplos apresentados pela plataforma. O metal é utilizado em baterias de smartphones e também está presente em baterias de veículos elétricos.

A República Democrática do Congo concentra cerca de metade das reservas mundiais de cobalto. Parte significativa da produção é enviada à China, responsável por mais de 75% do refino mundial do metal, segundo os dados apresentados pela plataforma.

A extração ocorre por meio de operações industriais de grande escala e também em minas artesanais. Enquanto grandes minas utilizam máquinas pesadas para remover grandes volumes de solo e rocha, a mineração artesanal pode envolver trabalhadores que escavam manualmente, frequentemente com ferramentas rudimentares e pouca proteção.

Essa realidade também envolve crianças. A cadeia do cobalto documentada pela plataforma inclui registros de trabalho infantil, com casos envolvendo crianças a partir dos seis anos.

A perspectiva de esgotamento gradual das jazidas mais produtivas acrescenta outra preocupação. A produção de cobalto refinado pode começar a cair depois de 2030 e, até 2040, a diferença entre oferta e demanda poderá chegar a aproximadamente 50 mil toneladas por ano, segundo as projeções apresentadas no material.

Terras raras também fazem parte do aparelho

Outro grupo relevante são os elementos de terras raras, conjunto formado por 17 elementos químicos que inclui neodímio, cério e lantânio.

Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre. O desafio está na concentração geralmente baixa dos depósitos, o que dificulta a exploração econômica. Atualmente, jazidas com concentração de aproximadamente 5% desses metais estão entre aquelas consideradas financeiramente viáveis para extração.

Esses materiais integram uma cadeia de fornecimento estratégica para diversas tecnologias modernas. A concentração geográfica de recursos minerais transforma a mineração em uma questão que ultrapassa os limites ambientais e alcança comércio internacional, segurança de abastecimento e relações entre países.

O consumidor conhece a origem do celular?

A distância entre o consumidor e a origem das matérias-primas é outro ponto levantado pelo projeto. Uma pesquisa com 6 mil adultos do Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha e Japão mostrou que mais da metade dos participantes não conseguiu citar sequer uma matéria-prima presente em seus smartphones.

Somente um quarto declarou ter confiança para identificar os componentes materiais do aparelho. Além disso, sete em cada dez entrevistados disseram nunca ter investigado de onde vêm os materiais utilizados no celular que usam diariamente.

O levantamento também indica que informações sobre as condições de produção podem influenciar decisões de consumo. Sete em cada dez participantes afirmaram que a existência de trabalho infantil reduziria sua disposição para comprar um telefone novo, enquanto quase dois terços demonstraram interesse em conhecer as etapas de extração e processamento dos materiais.

Nesse contexto, rastrear a origem dos componentes pode aproximar o consumidor de uma cadeia produtiva que costuma permanecer invisível.

O celular precisa durar mais

A plataforma também coloca em discussão o próprio modelo de produção e descarte dos smartphones. Uma das estratégias apontadas é aumentar a vida útil dos aparelhos por meio de projetos que facilitem atualização, manutenção, reutilização e reciclagem.

Um telefone mais durável pode receber componentes mais modernos ao longo do tempo, como processadores mais rápidos ou câmeras melhores. Para isso, o projeto físico precisa permitir atualizações e os fabricantes precisam oferecer suporte de software por períodos mais longos. A proposta apresentada é garantir suporte por pelo menos dez anos.

A reparabilidade também entra nessa equação. Telas quebradas, baterias degradadas e componentes eletrônicos defeituosos poderiam ser substituídos com maior facilidade, prolongando o período de utilização do aparelho.

O conceito já aparece em modelos modulares desenvolvidos por empresas como a holandesa Fairphone, que aposta na substituição de componentes como estratégia para ampliar a vida útil dos celulares.

Reciclagem reduz a pressão sobre novas minas

Quando um smartphone chega ao fim de sua vida útil, os metais presentes em sua estrutura continuam tendo valor. Recuperá-los significa reduzir a necessidade de extrair novas matérias-primas.

A reciclagem, portanto, pode funcionar como uma extensão da própria mineração: em vez de buscar continuamente recursos em novas jazidas, parte dos materiais já extraídos pode retornar aos ciclos produtivos.

Cada grama de metal recuperada representa uma quantidade de matéria-prima que pode deixar de ser retirada de uma nova área de mineração. Para isso, os aparelhos precisam ser projetados desde o início pensando na desmontagem, separação e recuperação de seus componentes.

O problema ganha dimensão adicional quando celulares descartados seguem para sistemas inadequados de gerenciamento de resíduos. Nesses casos, materiais de alto valor podem ser perdidos, enquanto substâncias potencialmente perigosas permanecem associadas ao lixo eletrônico.

O que o mapa revela sobre o futuro dos smartphones

Ao conectar os metais presentes nos celulares aos territórios onde são extraídos, o Mine My Phone transforma uma cadeia produtiva complexa em uma informação que pode ser consultada pelo público. A ferramenta permite observar como um único aparelho reúne relações entre mineração, biodiversidade, água, direitos humanos, comércio internacional e geopolítica.

A proposta também desloca parte da discussão sobre sustentabilidade dos hábitos de uso para o próprio projeto dos produtos. Reduzir o impacto dos smartphones envolve prolongar sua vida útil, facilitar reparos e atualizações, ampliar a reutilização e recuperar os materiais quando o aparelho finalmente deixar de ser utilizado.

O smartphone mais sustentável, nesse sentido, é aquele que permanece em circulação pelo maior tempo possível. Quanto mais longa for sua vida útil e maior for a recuperação de seus materiais, menor tende a ser a necessidade de retirar novos recursos da natureza para alimentar uma cadeia tecnológica que depende de dezenas de matérias-primas.

Fonte: The Conversation

Stella Legnaioli

Jornalista, gestora ambiental, ecofeminista, vegana e livre de glúten. Aceito convites para morar em uma ecovila :)

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