Saúde e Bem-Estar

Hiperestimulação tecnológica pode acelerar perda gradual de habilidades cognitivas

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Por Vitória Gomes – Jornal da USP | O uso desenfreado das tecnologias para realizar tarefas simples do dia a dia tem se tornado uma preocupação crescente para o desenvolvimento cognitivo. Seu uso diário pode, inclusive, impactar a aprendizagem do cérebro. Trata-se da tecnoadicção, ou seja, o uso compulsivo dos meios tecnológicos, fenômeno que acontece quando o usuário passa a desenvolver dependência comportamental devido ao uso excessivo de dispositivos digitais influenciado, muitas vezes, pelas redes sociais e inteligências artificiais.

Esse comportamento se manifesta quando o cérebro passa a ser exposto por hiperestímulos, causando a liberação do hormônio neurotransmissor chamado dopamina, responsável por causar sensação de prazer e gratificação, segundo a médica psiquiatra Cristiane Von Werne Baes, do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.

A professora ressalta que essa estimulação causada por aparelhos tecnológicos pode comprometer a qualidade das conexões humanas, gerando impactos psicológicos e sociais na vida do usuário. “As plataformas digitais são projetadas para capturar e manter a atenção do usuário por longos períodos. Isso faz com que a pessoa perca um tempo significativo que poderia estar se dedicando à convivência familiar, à amizade e ao lazer”, explica.

Além do impacto social, a saúde mental também começa a apresentar mudanças. “O uso excessivo das mídias digitais está associado ao aumento de sintomas de ansiedade, depressão, estresse, irritabilidade, sensação de solidão e isolamento”, afirma.

A lógica inserida no mercado tecnológico se configura na captação da atenção, onde os algoritmos entregam conteúdos digitais com base em dados fornecidos pelo próprio usuário. Dentro dessa estrutura, existem os modelos preditivos que funcionam como uma espécie de oráculo, prevendo eventos futuros de acordo com informações consumidas.

Os modelos preditivos de mercado são capazes de ofertar o próximo vídeo, conteúdo ou filme baseados no perfil e comportamento nas redes. Essa estratégia também se encaixa nas inteligências artificiais, fazendo com que o usuário fique cada vez mais dependente das tecnologias.

Segundo o especialista em Sociedade, Ciência e Tecnologia João Flávio de Almeida, professor da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), “toda tecnologia tem duas faces inevitáveis: ela é capaz de expandir as habilidades humanas, mas, em contrapartida, pode causar prejuízo em outros aspectos”, afirma o professor.

Ele diz que o cérebro precisa de exercício todos os dias para trabalhar. “Se ele não for exercitado, perde seu rendimento gradualmente. Por exemplo, se um estudante que tem o hábito de escrever bem passa a usar IA com bastante frequência, com o tempo ele vai desaprender a escrever e também perderá o desejo e a criatividade pela escrita. Isso é o que chamamos de decaimento cognitivo”, explica.

Cuidados

Para o usuário evitar a dependência dos meios tecnológicos e proteger a saúde mental os especialistas enfatizam a importância da educação digital e não da abolição dessas tecnologias. “A educação digital tem que começar desde cedo, ajudando as nossas crianças e os nossos jovens a compreenderem como as plataformas digitais são projetadas para capturar a nossa atenção e influenciar os nossos comportamentos”, pontua Cristiane.

Estimular o olhar crítico, incentivar a leitura na primeira infância e criar conexões verdadeiras são caminhos possíveis para reduzir o excesso no meio digital. “Precisamos cultivar hábitos conscientes e saudáveis em relação à tecnologia para que não entrem nesse ciclo vicioso de dependência digital”, conclui.

Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle. 

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

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