Fotos: Igor Alisson e Pedro Amatuzzi – Inova Unicamp
Por Leonardo Scramin – Inova Unicamp | Um curativo convencional para feridas na pele pode apresentar algumas limitações que atrapalham a cicatrização do paciente e favorecem o risco de infecções durante o processo de tratamento de lesões. Buscando superar esses desafios, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um curativo líquido à base de resíduos vegetais que carrega compostos naturais capazes de combater microrganismos e acelerar a cicatrização, criando uma barreira de proteção contra a contaminação. A tecnologia recebeu o nome de Curaliq e já foi licenciada para a empresa S do Bem Biotecnologia, que pretende levá-la ao mercado.
“O Curaliq permite lavar, higienizar a área e reaplicar o produto de forma simples e frequente, mantendo os compostos ativos, o que é o grande interesse nesse caso: aplicar os compostos diretamente na ferida para obter a bioatividade”, explica Mauricio Ariel Rostagno, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp e um dos inventores da tecnologia.
Além de Rostagno, participaram do desenvolvimento os pesquisadores Thais Carvalho Brito Oliveira, Vitor Lacerda Sanches, Rodrigo Stein Pizani e Felipe Sanchez Bragagnolo, da FCA Unicamp; Marta Cristina Teixeira Duarte, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp; e Tânia Forster Carneiro, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp.
A proteção e licenciamento da invenção foi realizada com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp, com depósito de pedido de patente nacional junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e solicitação de proteção internacional por meio do Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT). A tecnologia também foi tema de uma matéria publicada no site da Inova Unicamp no final de 2025, que pode ser acessada na íntegra aqui.
A S do Bem Biotecnologia é uma empresa-filha da Unicamp e spin-off acadêmica, tendo sido criada para levar conhecimentos da Universidade ao mercado. A startup foi fundada por Soraya El Khatib, egressa do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e é graduada na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp) . O licenciamento ocorreu após a divulgação da matéria da tecnologia no site da Inova Unicamp, como relata El Khatib.
“Nós estamos sempre conectadas e antenadas nesse ecossistema da Universidade, pois viemos de lá e estamos constantemente buscando parcerias que façam sentido para nós. No caso do Curaliq, fiquei interessada porque trabalhamos muito com esse apelo de cicatrização. Então, chamou a atenção por ser um curativo líquido, que é uma proposta inovadora, e também pela praticidade da aplicação. Assim, logo em seguida, já contactamos a Inova para entendermos melhor como funcionava”, explica a empreendedora.
A Inova Unicamp publica constantemente matérias sobre as tecnologias da Unicamp com o objetivo de compartilhar o que está sendo desenvolvido na Universidade e aproximar pesquisadores, tecnologias disponíveis para licenciamento e empresas interessadas. Este é um exemplo concreto de como o jornalismo científico não apenas informa, mas atrai investimentos e conecta a academia ao mercado.
“Nós fizemos a pesquisa dentro do laboratório, e, a partir do momento em que a concluímos, quem nos ajudou desde o processo para o depósito da patente até o licenciamento e o contato com a S do Bem foi a Inova. A divulgação dessas matérias é fundamental e muito importante dentro desse processo para que as pessoas entendam, aproximem e valorizem mais o que é feito na Universidade”, argumenta o professor Rostagno.
A preocupação com o desenvolvimento sustentável está presente em todos os eixos da tecnologia. O Curaliq tem seu princípio ativo proveniente, principalmente, de biomassa. São compostos naturais que não foram sintetizados, ou seja, que estão presentes na própria natureza, conferindo não só avanços em termos de sustentabilidade, mas também em termos de aplicação na saúde.
“A extração por fluido supercrítico é o que existe de mais moderno hoje. Usamos o CO₂ para substituir solventes mais tóxicos, como o hexano e o éter, problemáticos do ponto de vista ambiental. Os extratos, além de naturais, são compostos com atividade comprovada, com efetividade demonstrada na prática”, explica Rostagno. “A ausência de químicos agressivos também evita o desequilíbrio da flora nativa da pele, o que nos permite controlar bactérias, como a da acne (Cutibacterium acnes)”, complementa El Khatib.
Embora tenha sido pensada inicialmente para o tratamento de feridas cutâneas superficiais, a tecnologia Curaliq tem potencial para ser adaptada a diferentes tipos de lesões, como queimaduras, acne, feridas recorrentes e situações clínicas em que há maior risco de infecção, como em pacientes idosos ou com diabetes – ampliando a gama de possibilidades de aplicação da tecnologia junto a S do Bem Biotecnologia. A empresa atualmente testa o extrato obtido a partir da artemísia – uma planta de origem asiática muito utilizada na medicina tradicional chinesa.
“Essa união entre empresa e a Universidade é muito produtiva; acabamos saindo na frente. Unimos os conhecimentos, pois cada um tem uma especialidade, um interesse e um foco. Quando somamos esses interesses e essas visões diferentes, nós obtemos um produto diferenciado, que eu acho que é o caso deste potencial produto que temos nas mãos”, enfatiza o pesquisador.
Agora os próximos passos incluem ensaios pré-clínicos, seguidos por testes clínicos em lesões humanas. Depois da etapa de testes, existe um processo de regulamentação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). “Há mercado para essa tecnologia, nós sabemos disso porque fizemos um estudo; é um mercado bastante significativo e há demanda para os diferenciais agregados ao curativo líquido”, comenta El Khatib.
A invenção contribui com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 Saúde e Bem-Estar e 12 Consumo e Produção Responsáveis, da Organização das Nações Unidas (ONU), ao alinhar saúde com inovação tecnológica, reaproveitamento de resíduos vegetais da agroindústria e responsabilidade ambiental.
Este texto foi originalmente publicado pela Inova Unicamp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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