Imagem de Carlos Serrano no Unsplash
Em um cenário global marcado por alertas sobre o desmatamento para pastos, um fenômeno oposto e menos visível avança silenciosamente. Nas últimas duas décadas e meia, o número de animais de criação como bovinos, búfalos, ovinos e caprinos diminuiu cerca de 12% em regiões que concentravam 42% de todo o rebanho mundial em 1999. Publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa liderada por Osvaldo Sala, da Universidade Estadual do Arizona, e José Anadón, do Instituto Pirenaico de Ecologia, revela que o problema do sobrepastoreio, tão estudado, agora divide espaço com seu inverso: o despovoamento pecuário.
O fenômeno não se distribui de forma uniforme pelo planeta. Enquanto partes da Europa, América do Norte e Austrália, assim como áreas específicas da Ásia e África, assistem a uma redução expressiva dos rebanhos, outras regiões registram uma expansão acelerada. O caso mais marcante é o da Europa Oriental, onde as populações de gado encolheram 37%. Na direção contrária, países da África Central, Ásia Central e América do Sul viram seus rebanhos crescerem em impressionantes 40% desde o final dos anos 1990, criando um cenário global de duas velocidades.
A queda no número de animais em grandes áreas de pastagem cria um novo conjunto de desafios ecológicos e de gestão territorial. Os pesquisadores enfatizam que esse processo não representa um simples retorno das terras à sua condição natural e tampouco é automaticamente benéfico. A redução ou ausência do gado pode desencadear consequências complexas, como o crescimento descontrolado de vegetação, o que eleva o risco de incêndios florestais em certos ecossistemas. A biodiversidade pode se recuperar em alguns locais, mas entrar em declínio em outros, dependendo de como cada sistema responde à falta de herbívoros.
O abandono da atividade pastoril também influencia o ciclo da água. A perda da cobertura vegetal adequada, mantida pelo pastoreio equilibrado, pode reduzir a transpiração das plantas e aumentar o escoamento superficial da água da chuva. Contrariando a intuição, interromper o pastoreio nem sempre resulta em maior disponibilidade de água para comunidades rio abaixo. Os efeitos são altamente específicos para cada localidade e demandam estudos detalhados.
Para entender as causas dessa divergência global, os cientistas investigaram fatores sociais, econômicos e ambientais. Curiosamente, as mudanças climáticas e o comércio internacional, frequentemente apontados como forças motrizes, não explicaram os padrões geográficos observados. A chave foi encontrada na economia regional e no crescimento populacional.
Em regiões mais ricas, onde o rebanho está em queda, a produção pecuária se concentra em sistemas industriais intensivos, com alto uso de tecnologia e ração animal. A produção de carne por animal é 72% maior nessas áreas, o que permite maior eficiência com menos cabeças de gado em pastagens naturais. Já nas regiões menos desenvolvidas, que experimentam expansão dos rebanhos, predominam sistemas pecuários extensivos, baseados em pasto e voltados para a subsistência. Nessas áreas, o rápido crescimento populacional humano gera uma demanda crescente por carne, impulsionando o aumento do número de animais.
O estudo destaca que o foco quase exclusivo da ciência e das políticas públicas no sobrepastoreio levou a uma negligência das implicações do fenômeno oposto. Segundo os autores, essa reversão silenciosa oferece oportunidades que ainda não foram devidamente exploradas. A diminuição da pressão de pastejo pode permitir que ecossistemas degradados se recuperem, aumentando sua capacidade de capturar dióxido de carbono da atmosfera e contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
No entanto, o gerenciamento dessa transição exige estratégias específicas. A simples retirada dos animais pode não ser a solução ideal. Em muitos casos, a renaturalização ou a introdução de herbívoros nativos, como bisões, ou espécies alternativas, como cabras, pode ser necessária para manter o equilíbrio ecológico e as funções do ecossistema deixadas pelo gado doméstico. A restauração ativa e o manejo adaptativo surgem como caminhos para transformar o desafio do despovoamento em ganhos concretos para a biodiversidade, o clima e as comunidades locais.
Os pesquisadores fazem um apelo por uma mudança de perspectiva. Com a pecuária ocupando cerca de um quarto da superfície terrestre livre de gelo, transformações em sua extensão e intensidade têm repercussões planetárias. É necessário investir em mais pesquisas científicas para entender as consequências ecológicas específicas da redução dos rebanhos em diferentes biomas. Experimentos de campo e monitoramento de longo prazo são essenciais.
A comunidade científica e os formuladores de políticas são convidados a desenvolver abordagens regionalizadas que reconheçam as realidades distintas entre continentes e até dentro de um mesmo país. Polísticas bem desenhadas podem orientar essa transição para que atinja objetivos simultâneos de conservação ambiental, estoque de carbono e manutenção dos meios de subsistência das populações rurais. O estudo conclui que o panorama atual não é de catástrofe, mas de complexidade, exigindo um olhar mais refinado sobre como a humanidade interage com as vastas paisagens de pastagem do planeta.
Mais informações: Redução global do rebanho extensivo: uma tendência negligenciada com consequências para o sistema terrestre,
Anais da Academia Nacional de Ciências (2026).
DOI: 10.1073/pnas.2509097122
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