Vida

Algumas espécies de árvores estão piorando a qualidade do ar nas cidades

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Um novo estudo revelou que algumas árvores podem contribuir para a poluição do ar. A descoberta foi publicada na revista Scientific Advances nesta quarta-feira (19). 

O estudo sugere que algumas espécies de árvores plantadas em áreas urbanas estão piorando as emissões de ozônio. Além disso, acredita-se que o aumento da temperatura, devido ao aquecimento global, pode exacerbar a situação. 

Em geral, o ozônio é formado quando compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês), liberados por certa vegetação, veículos e indústrias químicas reagem com os óxidos de nitrogênio (NOx), que são emitidos principalmente pelo tráfego e pela indústria. Uma série de reações entre esses compostos, na presença da luz solar, resulta na emissão de ozônio. 

Inicialmente, o propósito do estudo era analisar os impactos da atividade humana na poluição por ozônio. No entanto, os especialistas ficaram surpresos ao descobrir o papel da vegetação urbana nessas emissões. 

Muitas espécies de árvores emitem VOCs: salgueiros, do gênero Salix, e choupos, do gênero Populus, plantados em muitas cidades, liberam altos níveis de isopreno, um tipo de VOC produzido como subproduto da fotossíntese. A equipe constatou que cerca de 35% das árvores em Pequim, onde o estudo foi realizado, são emissoras de isopreno.

Para chegar à essa conclusão, os pesquisadores coletaram amostras de ar de Pequim para medir a concentração de VOCs e dados de ozônio em estações de monitoramento pela cidade. Foi observado que a vegetação foi responsável por 10% de todas as emissões de VOCs da cidade entre Maio e Julho de 2021. 

Atividades humanas, como emissões veiculares e produtos químicos industriais, foram responsáveis ​​pelo restante das emissões. 

Como os VOCs não formam ozônio diretamente, a equipe precisava de outra maneira de medir a contribuição da vegetação para a poluição por ozônio na cidade. 

Para isso, eles estimaram a velocidade com que os VOCs reagem com hidroxilas na atmosfera. As hidroxilas reagem com os VOCs para formar radicais peroxila que, por sua vez, reagem com o NOx presente no ar, formando compostos que se transformam em ozônio na presença da luz solar. 

O estudo constatou que a vegetação foi responsável por 52% das substâncias químicas que levam à formação de ozônio, sendo o isopreno o principal contribuinte.

Embora as emissões totais de VOCs provenientes de atividades humanas fossem superiores às das árvores, sua contribuição para a formação de ozônio foi substancialmente menor do que a das plantas.

Os pesquisadores também analisaram espécies de árvores plantadas em 24 megacidades para estimar seu potencial de emissão de isopreno. Eles também constataram que, em uma grande proporção das cidades investigadas — incluindo Sydney e Melbourne, na Austrália —, as emissões de isopreno previstas eram superiores às de Pequim. Em Sydney, por exemplo, cerca de 65% das árvores emitem isopreno.

Ademais, existe outro problema: o aquecimento global contribui para todo o processo. 

Isso ocorre porque a produção de VOCs e de ozônio aumenta à medida que a temperatura sobe. De fato, a pesquisa mostrou que, a 35 °C, a taxa de reatividade da hidroxila com VOCs provenientes da vegetação foi sete vezes maior do que a 20 °C. Como resultado, a contribuição da vegetação para a reatividade química aumentou de 21%, a 20 °C, para 74%, a 35 °C.

Devido a esse calor adicional, uma árvore em área urbana sofre mais estresse — e produz mais VOCs do que a mesma árvore produziria em uma floresta, afirma Robyn Schofield, especialista em aerossóis da Universidade de Melbourne. 

É importante ressaltar que os pesquisadores não acreditam que a descoberta seja um argumento contra o plantio de árvores em centros urbanos. Na verdade, as árvores proporcionam inúmeros benefícios, incluindo resfriamento, armazenamento de carbono e biodiversidade. 

Contudo, a seleção de árvores deve passar a fazer parte do planejamento urbano, especialmente à medida que as mudanças climáticas elevam as temperaturas e intensificam as ondas de calor. 

E mais importante: uma parcela significativa dos compostos voláteis na atmosfera ainda provém de atividades humanas, incluindo o uso de petróleo e as indústrias de solventes. Assim, é importante concentrar esforços na redução dessas fontes de emissão.

Júlia Assef

Jornalista formada pela PUC-SP, vegetariana e fã do Elton John. Curiosa do mundo da moda e do meio ambiente.

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