Apenas em janeiro deste ano houve um aumento de 15% nas ocorrências de sinistros em relação ao mesmo período de 2024 – Foto: Marcos Santos/USP IMagens
Por Breno Marino – Jornal da USP | Segundo dados divulgados pela SPTrans, em 2025, houve uma redução no número de passageiros de ônibus na capital paulista em relação ao ano anterior. Enquanto em 2024 a média era de 7,13 milhões de paulistanos, no ano seguinte o índice caiu para 7,05 milhões. Essas estatísticas indicam uma mudança no modo de transporte utilizado pelos habitantes de São Paulo.
O avanço do transporte individual foi um dos fatores para essa redução recente, principalmente as motocicletas. As bicicletas também têm ganhado mais espaço no panorama atual da cidade. Com custo mais acessível para as pessoas e de fácil locomoção em curtas distâncias, paulistas têm optado por esse modo de transporte no dia a dia. Contudo, o município não tem acompanhado essa tendência, apresentando problemas envolvendo ciclistas e o estado das próprias ciclovias.
De acordo com a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, apenas em janeiro deste ano houve um aumento de 15% nas ocorrências de sinistros em relação ao mesmo período de 2024. Mateus Humberto, professor no Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica (Poli) da USP, afirma que a largura das vias destinadas a ciclistas, pistas escorregadias, buracos e até falta de limpeza das ciclovias são alguns dos problemas que contribuem para esse aumento.
De acordo com a organização, cerca de 73% dos sinistros registrados em janeiro aconteceram fora das ciclovias. A baixa porcentagem destinada às faixas próprias para uso de bicicletas na capital paulista e a qualidade delas são fatores que impactam diretamente esse índice. “Não me surpreende que a maioria dos sinistros aconteça em lugares onde não haja ciclovia, que é justamente onde esse conflito com o transporte motorizado é maior. Se 1% só da infraestrutura cicloviária em São Paulo é coberta por bicicletas, se todo mundo quiser andar só por ciclovia e ciclofaixa, isso é impraticável. Em muitos bairros periféricos que andam muito de bicicleta, como é o caso de São Miguel Paulista, isso é muito evidente, as pessoas andam por onde tem que andar”, comenta o professor.
Independentemente da área em que estão os ciclistas, a convivência e respeito no trânsito deveriam ser priorizados, de acordo com Humberto. Entretanto, a presença de faixas exclusivas de qualidade para ciclistas é essencial para atender a diferentes demandas, em especial pessoas com baixa habilidade ou inseguras ao andar de bicicleta.
A queda no transporte coletivo se acentuou após a pandemia. Depois do período de distanciamento social, diversas pessoas optaram por adquirir um meio de transporte individual. Além disso, a ascensão do home office também contribuiu para a queda. Entretanto, ela não é recente. Em 2016, o número médio de passageiros de ônibus era de 9,65 milhões, enquanto em 2019 esse índice caiu para 8,88 milhões.
“Alguns pesquisadores acreditam que a pandemia foi só a última gota dessa tempestade que começou, talvez, no meio dos anos 90, começo dos anos 2000. Isso não só em São Paulo, mas no Brasil inteiro, e motivado por vários fatores, como aumentos sucessivos de tarifas, perda de poder de compra pelas famílias, ascensão dos aplicativos de automóvel e de motocicleta, mudanças de regime de trabalho, entre outros” detalha Humberto.
Nesse contexto, o uso de bicicletas se tornou uma alternativa viável para os paulistanos. Cassiano Isler, professor no Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica (Poli) da USP, comenta que o veículo é visto como modo de transporte alternativo ao automóvel e transporte público para viagens de até dez quilômetros, ou como modo intermediário em viagens mais longas, conectando os sistemas de transporte público na cadeia de viagens da pessoa.
Na teoria, quanto mais infraestruturas cicloviárias existirem na cidade, maiores serão os fatores de atração de ciclistas. Entretanto, atualmente, o público que tem sido atraído é muito específico, segundo Humberto. “A gente tem atraído, em geral, homens, brancos, adultos de uma idade fisicamente ativa e que não têm nenhum tipo de deficiência. De certa forma, a gente tem privado mulheres, crianças, pessoas idosas de circular, sendo que isso é uma realidade muito comum em países que realmente investem em uma malha cicloviária de qualidade.”
Para a minimização da ocorrência de sinistros envolvendo ciclistas e maior adequação das infraestruturas cicloviárias às atuais tendências, uma revisão do manual cicloviário atual no Estado é muito importante. Tornar as sarjetas utilizadas para drenagem urbana como áreas não cicláveis e estabelecer uma separação adequada, de 1,5 metros de acordo com a lei, entre a área destinada aos ciclistas e os veículos motorizados, são algumas medidas que devem ser adotadas, segundo os professores.
Além dessas alterações, existem outros projetos em andamento que devem ser incentivados. O Bike SP, por exemplo, é uma iniciativa que visa a dar incentivos financeiros para as pessoas que usam bicicletas para ir ao trabalho. “Essa é uma iniciativa que tem sido coordenada por vários vereadores de várias gestões e que foi aprovada, mas falta uma regulamentação e uma formalização, em termos de apoio político e financeiro, por parte da Prefeitura. Ele mede esses deslocamentos, que são feitos de bicicleta, e recompensa os usuários por meio de crédito no Bilhete Único”, comenta Humberto. Humberto ainda complementa que o projeto precisa de vários ajustes e evoluções, mas ressalta que nem um primeiro passo como esse, em termos de política pública municipal, foi dado ainda.
Outro aspecto importante para minimizar o problema é a educação no trânsito. Isler defende que a educação é essencial para que os usuários de automóveis respeitem os limites de velocidade e deem prioridade para pedestres e ciclistas, que em geral são os usuários mais vulneráveis a ocorrências de sinistros.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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