Durante as enchentes de 2024, redes legadas apresentaram menor falha do que tecnologias mais modernas, como 4G e 5G | Crédito: Daniel Meyer (Arquivo de Pesquisa)
Por Isabela Daudt – Jornal da UFRGS | Chovia forte, a água subia, faltava luz, a bateria do celular estava acabando e faltava sinal de internet: a espera por uma ajuda que não se sabia se viria. Em maio de 2024, a angústia pelo resgate durante as enchentes afetou tanto quem estava em áreas de risco, isolados em cima de um telhado, quanto quem tentava saber notícias de amigos ou familiares e socorrer de longe. Acontece que, em desastres, a comunicação é afetada, impactando a coordenação dos resgates. Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, a dissertação “O Papel das Redes Móveis Legadas na Resiliência da Infraestrutura: evidências da enchente no Sul do Brasil”, de Daniel Meyer, analisa a resiliência das redes de telefonia móvel em Porto Alegre e no interior durante as enchentes históricas no Estado.
A pesquisa busca, para além de avaliar os impactos na interrupção dos serviços móveis, entender como preparar as redes de telecomunicações para desastres futuros. “A conectividade é essencial para mecanismos de compartilhamento de informações, como SMS e WhatsApp”, explica Meyer sobre aquela que, muitas vezes, é a única forma de comunicação entre as pessoas que estão distantes. “Equipes de resgate, órgãos governamentais e usuários ficaram dependentes dela (da conectividade) para se comunicarem”, completa.
A pesquisa tem três questões norteadoras: (1) descobrir quais fatores causaram a interrupção dos serviços móveis; (2) entender como seria se as tecnologias legadas (qualquer software, hardware, sistema ou método de trabalho antigo que continua em uso por uma organização mesmo estando desatualizado ou fora dos padrões modernos, como as redes 2G e 3G) tivessem sido descontinuadas; e (3) mapear possíveis soluções para manter a resiliência da telefonia móvel em eventos climáticos extremos futuros.
Para a construção da pesquisa, foram utilizados dados públicos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), do Instituto de Pesquisas Hídricas (IPH/UFRGS) e o conjunto de dados privados de duas das três operadoras móveis de Porto Alegre. As empresas não autorizaram a sua identificação no trabalho de pesquisa, o que impediu a reportagem de citá-las.
Em Porto Alegre, o cruzamento de dados mostrou que 59,2% das falhas dos sites, que compreendem toda a infraestrutura de uma estação (desde a torre das antenas até os abrigos de equipamentos eletrônicos), estão relacionadas a danos causados pela água e pelas quedas de energia elétrica. No recorte do dia 14 de maio de 2024, por exemplo, 24 sites estavam inundados e 21 com queda de energia. No total, dos 305 sites, 76 estavam afetados.
De acordo com o pesquisador, houve casos de operadoras que levaram 120 dias para recuperação total das estruturas, e outras que sequer se restabeleceram. Nesse sentido, foram adotadas diferentes estratégias, como transferência de sites que estavam em áreas propícias de alagamento para outras regiões, elevação das estruturas por meio de plataformas e utilização de geradores, uma vez que a bateria anteriormente instalada não supriu as necessidades no momento de crise.
“Além do alagamento, a concessionária teve que desligar boa parte da sua estrutura por questão de risco. Mesmo em regiões que não estavam alagadas, mas faziam parte daquelas subestações, tiveram que desligar”Daniel Meyer
Já no interior do Estado, a principal causa da falha dos sites foi o rompimento de cabos ópticos que, junto com os danos causados pela água, foram responsáveis por aproximadamente 50% das interrupções. Muitos desses cabos passavam por pontes que foram levadas pela inundação. “Equipes de resgate precisavam chegar em alguns locais e a água estava tão alta que elas tinham que cortar os cabeamentos ópticos para passar com as embarcações para fazer o resgate da população”, comenta o pesquisador.
Na Capital, o 2G apresentou um índice menor de falhas durante as enchentes, de 22,06%, contra 25,47% do 5G. Por outro lado, no interior, o 5G teve um índice de falhas menor, de 4,20%, contra 5,10% do 2G. Conforme Meyer, essa diferença está relacionada à distribuição geográfica da infraestrutura, uma vez que em 2024 o 5G ainda estava em expansão no interior, com uma presença quatro vezes menor do que a mesma tecnologia em Porto Alegre. De forma geral, o pesquisador avalia que o índice médio de falhas entre as tecnologias legadas (2G e 3G) e as modernas (4G e 5G) teve um comportamento relativamente similar no contexto de indisponibilidade.
O 2G reforçou seu papel como tecnologia de suporte às comunicações essenciais em situações de emergência, apresentando maior capacidade de manter níveis mínimos de cobertura. O melhor desempenho dele na Capital em momento de desastre climático extremo abre espaço para discussões sobre os impactos da descontinuação das redes legadas na cobertura móvel.
Frequências baixas, como o 700 MHz, são muito usadas no 4G brasileiro, possibilitando um maior alcance de cobertura comparado com o espectro mais alto, como o 3,5 GHz (atualmente a principal faixa do 5G). Pesquisadores da UFRGS apontam que o país está atrasado no uso do 700 MHz para o 5G. A faixa chegou a ser vendida em 2021, mas foi devolvida, com novo leilão da Anatel previsto para 2026.
“O leilão que eles estão ofertando para ser utilizado no 5G é uma largura de banda muito baixa para a demanda de velocidade. São blocos de 5 MHz e 10 MHz. O 5G utiliza hoje 100 MHz”, explica Meyer. Conforme ele, isso não é atrativo para operadoras e usuários. O pesquisador pontua que, do modo que está sendo proposto, pode ocorrer de a frequência não ser instalada na maioria das antenas da Capital, sendo mais usada em áreas rurais distantes, locais em que a demanda por velocidade de internet ainda é menor do que nos grandes centros urbanos. Há, portanto, risco de novos eventos extremos causarem um apagão das comunicações em cidades como Porto Alegre, sem a presença das redes legadas.
Daniel Meyer reconhece o declínio inevitável das redes 2G e 3G, sobretudo em razão da baixa eficiência espectral (é a taxa de dados que pode ser transmitida em um determinado canal), dos custos operacionais e da compatibilidade limitada com dispositivos modernos. No entanto, a dissertação defende o uso estratégico das frequências baixas, como o 700 MHz em cenários extremos. Nesse sentido, é preciso que a licitação da Anatel seja repensada para evitar a exclusão digital.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) e divulgada em julho deste ano, 10,2% da população acima de 10 anos ainda não possuía celular em 2025. Esse número equivale a aproximadamente 19 milhões de pessoas, e um dos fatores relacionados é a indisponibilidade de serviços de telefonia móvel.
Outro desafio para o setor das telecomunicações é o chamado refarming. A Anatel propõe o desligamento do 2G e do 3G para 2030 e 2031, respectivamente, e o reaproveitamento desses espectros para tecnologias mais modernas como 4G e 5G. “Exige planejamento coordenado entre operadoras, fabricantes, poder público e usuários para evitar a exclusão digital de usuários ainda dependentes dessas redes”, avalia Meyer sobre o desligamento.
O estudo revelou que, durante as enchentes, muitas pessoas conseguiram se comunicar com órgãos governamentais, como a Defesa Civil, utilizando as tecnologias legadas para enviar mensagens. Até por isso, essa transição precisa ser gradual, para não deixar pessoas desconectadas. Muitos usuários, por exemplo, sequer têm condições financeiras de comprar celulares mais modernos que comportem essas frequências.
Pensar na resiliência das redes de telecomunicações passa por pensar também nos números. Entre 1899 e 2023, o Guaíba ultrapassou a cota de inundação de três metros no Cais Mauá quatro vezes. Entretanto, somente entre setembro de 2023 e maio de 2024 a cota foi superada três vezes.
A pesquisa aponta que Porto Alegre possui alta dependência de cabeamentos aéreos, superior a 90%, sendo uma infraestrutura mais vulnerável. Nesse sentido, a Lei Municipal n.º 13.402, sancionada em março de 2023, determina que todas as redes de cabeamento (como energia elétrica, telefonia, fibra óptica e TV a cabo) sejam exclusivamente subterrâneas. O objetivo é evitar que os serviços sejam interrompidos por queda de árvores e postes durante temporais e vendavais. Porém, no caso de enchentes severas, pode haver alagamentos dessas estruturas submersas, demandando maior investimento para protegê-las contra cheias.
Além disso, Meyer propõe o uso estratégico de frequências mais baixas, como 700 MHz e 850 MHz para operar no 5G (e futuramente no 6G) de forma resiliente em eventos climáticos extremos e recorrentes. “Quanto mais baixa a frequência, maior a distância de cobertura”, explica sobre a necessidade de redes móveis mais robustas.
Para trabalhos futuros, o pesquisador almeja a investigação de arquiteturas emergentes, como redes abertas e virtualizadas, que substituem estruturas fixas por redes baseadas na nuvem. Algumas vantagens são a escalabilidade, o balanceamento de carga e o uso de técnicas de inteligência artificial na gestão dessas redes. “É muito importante identificar antes as falhas e tomar uma atitude”, conclui Meyer.
Artigo: The Role of Legacy Mobile Networks in Infrastructure Resilience: Evidence from the Southern Brazil Flood (O Papel das Redes Móveis Legadas na Resiliência da Infraestrutura: evidências da enchente no Sul do Brasil, em tradução livre)
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da UFRGS, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.
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