Imagem de Sebastian Marx no Unsplash
A transformação dos hábitos alimentares rumo a um consumo menor de carne e laticínios coloca em risco bilhões de euros em investimentos já realizados no setor agropecuário europeu. É o que revela pesquisa publicada na revista Nature Food, conduzida por universidades de Leiden, Oxford e Viena. O estudo destaca que, sem planejamento e políticas de ajuste, ativos como estábulos, máquinas e sistemas de alimentação animal podem perder valor precocemente, tornando-se o que o mercado financeiro classifica como “ativos encalhados”.
O valor envolvido é expressivo. Cerca de 78% dos investimentos fixos na agricultura da Europa e do Reino Unido estão ligados diretamente à produção animal ou à fabricação de ração. Em termos monetários, isso representa aproximadamente 158 bilhões de euros em estruturas pecuárias, além de outros 100 bilhões em atividades de produção de alimento para rebanhos. Conforme a mudança dietética se intensifica, o montante sob risco pode variar de 61 bilhões, em cenário moderado, até 255 bilhões de euros em uma transição alimentar mais acelerada.
A dinâmica de desvalorização desses investimentos depende, em grande parte, da velocidade com que a sociedade reduz o consumo de produtos de origem animal. A agricultura hoje responde a demandas de um sistema alimentar que cientistas consideram insustentável para o clima, a biodiversidade e a saúde pública. No entanto, a reestruturação desse modelo gera um desafio econômico imediato: infraestruturas construídas para a pecuária podem ficar ociosas ou subutilizadas antes do fim de sua vida útil técnica.
Os impactos financeiros transcendem as porteiras das fazendas. Empresas de insumos, processadoras de alimentos, transportadoras e instituições financeiras que têm créditos vinculados ao setor também podem enfrentar prejuízos. À pressão da transição alimentar soma-se o agravante das mudanças climáticas, com eventos extremos como secas e quedas de produtividade que ampliam a vulnerabilidade desses investimentos.
Ainda assim, os pesquisadores apontam que a depreciação gradual de muitos equipamentos e instalações abre uma janela de oportunidade para uma transição ordenada. A conversão de antigos estábulos para a produção de proteínas vegetais, cogumelos ou greens é citada como uma possibilidade de reaproveitamento. Medidas de apoio político, como linhas de financiamento para reconversão, gestão de dívidas e programas de descarbonização da produção, são fundamentais para evitar que a transformação do sistema alimentar enfrente resistência excessiva ou estagnação.
A conclusão do estudo é clara: construir um futuro alimentar sustentável exige atenção não apenas ao que está no prato, mas também ao que já foi construído no campo. Ignorar a dimensão econômica da transição pode levar a rupturas sociais e financeiras, especialmente em comunidades rurais dependentes da cadeia animal. O caminho adiante demanda, portanto, escolhas políticas coordenadas que alinhem objetivos ambientais à proteção de ativos e empregos.
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