Cidades Sustentáveis

Quedas de árvores em temporais não são razão para tratá-las como vilãs das cidades, defende pesquisador da Unesp

Compartilhar

Por Marcos do Amaral Jorge – Jornal da Unesp | Nestes tempos em que as manchetes pululam com avisos sobre 90% de possibilidade de experimentarmos um “super El Niño” ao longo dos próximos meses, abordar o Dia da Árvore, comemorado nacionalmente em 21 de setembro, implica discutir a preparação das grandes cidades para os efeitos de chuvas intensas sobre a sua vegetação. Afinal, é cada vez mais comum assistirmos pelas telas a imagens de árvores caídas interrompendo o trânsito nas vias, amassando veículos, derrubando a fiação elétrica e até mesmo provocando mortes.

Diante dos eventos extremos que impactam as metrópoles brasileiras, é comum apontar as árvores como vilãs. Na visão do engenheiro agrônomo Marcelo Ferraz, entretanto, elas são mais vítimas do que vilãs nessa história. Professor do Departamento de Agronomia e Recursos Naturais da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira (FCAVR), Ferraz é coordenador de uma pós-graduação lato sensu em Paisagismo oferecida no câmpus de Registro e especialista em arborização urbana. No semestre passado, o docente foi um dos organizadores do III Fórum Paulista de Arborização Urbana, realizado na mesma cidade.

Nesta entrevista ao Jornal da Unesp, Ferraz enfatiza a necessidade de um planejamento urbano de longo prazo que inclua o enterramento da fiação elétrica, para evitar conflitos com a vegetação, o uso de espécies nativas regionais e a valorização de profissionais qualificados para garantir que as árvores sobrevivam e proporcionem bem-estar e benefícios reais à população. Por fim, o docente também destaca o papel de políticas públicas, como o Plano Nacional de Arborização Urbana, para transformar os centros urbanos em locais mais sustentáveis e preparados para eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes.

A estimativa de um El Niño muito forte nos próximos meses aumenta a preocupação com temporais e eventos extremos na região Sudeste. Nas grandes cidades, esse cenário costuma estar associado à queda de árvores, acidentes e interrupção no fornecimento de energia. Como podemos conciliar a presença das árvores com essa infraestrutura urbana?

Marcelo Ferraz: A resposta é bem simples: planejamento. A arborização urbana hoje deixou de ser apenas uma questão estética e passou a ser uma questão de saúde pública. Ela está diretamente relacionada à regulação da temperatura, à diminuição do estresse, à redução de doenças cardíacas e à manutenção de uma boa qualidade do ar.

Ruas sombreadas estimulam a mobilidade ativa, ou seja, as pessoas a caminhar e andar de bicicleta. Ao incentivar a população a deixar os carros em casa, combatemos a obesidade, melhoramos a saúde cardiorrespiratória e reduzimos os gastos governamentais com saúde pública. Além disso, a ocupação pela população dos espaços públicos arborizados aumenta a sensação de segurança nas ruas, contribuindo para a revitalização de áreas antes abandonadas.

Para viabilizar esses benefícios, entretanto, precisamos associar a infraestrutura cinza, que contempla a engenharia tradicional construída ao redor das árvores, como canos, bueiros, calçadas ou bocas de lobo, à infraestrutura verde, formada por árvores, jardins de chuva, canteiros, praças, parques e jardins. Atualmente, as cidades brasileiras pecam por terem excesso de concreto e asfalto e pouco verde, que poderia torná-las mais resilientes. Isso pode ser feito, por exemplo, planejando canteiros drenantes para aumentar a biorretenção da água da chuva ou criando redes elétricas compatíveis com a vegetação para evitar choques elétricos.

A nossa fiação elétrica aérea é muito antiga e precisa ser revista. Uma alternativa viável e muito mais barata do que o soterramento é o uso de cabos compactos e protegidos, o que raramente vemos implementado. Ainda assim, embora essa solução seja mais barata de imediato, o soterramento dos cabos acaba se pagando no longo prazo pelos benefícios estéticos, pela facilidade de manutenção das árvores e pela redução de acidentes durante chuvas e temporais. Afinal, é o poste que deveria ser mudado de lugar, já que a árvore não tem culpa e, muitas vezes, chegou primeiro.

Pensando nos problemas típicos do período de chuvas, por que ocorrem tantas quedas de árvores nos centros urbanos brasileiros?

Marcelo Ferraz: O problema começa com a forte compactação do solo nas nossas cidades, que impede o crescimento saudável das raízes. Além disso, os berços e covas, onde as árvores são plantadas, costumam ser pequenos, sem espaço que permita uma nutrição adequada. Isso tem relação com o manejo, com o cuidado. Planta-se a árvore e ela é simplesmente abandonada, sem que se faça a manutenção correta ou a poda de condução necessária.

Outro fator crucial ocorre ainda na fase de produção: mudas mal selecionadas, que ficam tempo demais em saquinhos plásticos, com suas raízes enoveladas, e por isso acabam não se desenvolvendo de forma adequada no solo, facilitando o tombamento posterior. Por isso, o planejamento urbano exige que as secretarias de meio ambiente dos municípios trabalhem de forma integrada com as áreas de engenharia e de educação. O ideal é que as prefeituras criem seus próprios manuais técnicos e planos diretores de arborização de forma interdisciplinar, ouvindo agrônomos, biólogos, engenheiros e arquitetos.

Existe ainda o problema de os departamentos municipais de meio ambiente serem sobrecarregados e reunirem no mesmo setor áreas muito diferentes, como a gestão de resíduos, a manutenção de estradas rurais e a arborização. Além disso, governantes pecam por falta de visão de longo prazo: uma árvore de grande porte leva de 10 a 20 anos para se desenvolver e entregar todos os seus benefícios ambientais, exigindo políticas públicas que transcendam mandatos eleitorais.

A arborização urbana costuma ser apontada por especialistas como uma questão fundamental para a resiliência dos centros urbanos, especialmente em um cenário de mudanças climáticas. Qual a sua percepção sobre a implementação de políticas públicas que tratem desse tema?

Marcelo Ferraz: As nossas cidades estão crescendo muito rapidamente e a população já está sentindo os efeitos práticos desse movimento na forma de ilhas de calor e aumento dos alagamentos, por exemplo. No início deste ano houve a aprovação do Plano Nacional de Arborização Urbana (PlanNAU), um movimento muito importante. Ele estabelece diretrizes para os municípios baseadas na regra 3-30-300: cada cidadão deve conseguir enxergar pelo menos três árvores de seu local de trabalho ou estudo; o bairro deve possuir no mínimo 30% de cobertura arbórea; e todos devem morar ou trabalhar a até 300 metros de um parque de pelo menos um hectare. As cidades têm até 2045 para atingir essas metas.

Mas existem muitos desafios para chegar até lá. Atualmente, temos uma carência de viveiros de mudas nativas regionais no Brasil, por exemplo, pois por décadas plantaram-se espécies exóticas, priorizando principalmente a estética e ignorando a fauna local.

Mas essas carências também podem ser oportunidades, porque esse é um desafio que vai mobilizar tanto a cidade quanto o campo. A demanda por mudas nativas movimentará uma cadeia produtiva ligada à economia verde, gerando renda, emprego e impulsionando a produção de mudas. Atrás de cada área verde urbana existe um engenheiro agrônomo, um produtor e um transplantador. Uma cidade arborizada e ecologicamente equilibrada também atrai a fauna nativa e fomenta o turismo.

Quando se fala em produção no campo, com culturas de interesse comercial, existem investimentos em pesquisa e projetos muito bem estruturados. O Brasil hoje é uma potência agrícola mundial. Como está a pesquisa sobre arborização urbana? Temos conhecimento bem desenvolvido nessa área?

Marcelo Ferraz: Sim, nós temos bastante conhecimento nessa área. Mas não existe uma receita de bolo única sobre o que plantar e como. Nem tudo que é nativo do Brasil serve para qualquer região. O pau-brasil, por exemplo, é nativo da Mata Atlântica, com ocorrência do Rio de Janeiro para o norte. Plantá-lo no Cerrado, em Bauru, não é o ideal. Devemos respeitar as características dos biomas onde estamos inseridos. Temos as respostas técnicas, mas ainda falta democratizar o acesso a essas informações.

Ainda falta qualificação e valorização de profissionais como arboristas, paisagistas, engenheiros agrônomos, engenheiros florestais e biólogos. Inclusive, na própria agronomia, são raríssimas as graduações que oferecem disciplinas voltadas à arborização urbana, sendo essa uma temática restrita à pós-graduação. Atualmente, ainda não temos cursos de graduação em paisagismo no Brasil, o que gera uma lacuna: o arquiteto sabe desenhar os espaços urbanos, mas não entende de plantas; o agrônomo sabe plantar, mas não domina o desenho da cidade. O paisagista seria o elo entre essas áreas.

O senhor organizou recentemente uma edição do Fórum Paulista de Arborização Urbana, realizado na cidade de Registro, onde está o câmpus da Unesp. Qual o balanço do evento e quais os temas que despertaram mais interesse dos participantes?

Marcelo Ferraz: O evento reuniu o Fórum Paulista de Arborização Urbana e o 6º Workshop de Arborização Urbana do Vale do Ribeira e foi um sucesso. Tivemos a presença de especialistas de universidades renomadas, produtores de mudas, concessionárias de energia elétrica, profissionais de paisagismo e empresas do setor.

O foco central foi a valorização da flora nativa da Mata Atlântica, bioma que possui cerca de 90% de cobertura preservada na região de Registro. Discutimos técnicas de plantio, podas, contenção de enchentes, turismo ecológico, além de toda a cadeia econômica de fertilizantes e tratamento de resíduos. Integramos também as comunidades quilombolas e indígenas locais por meio de atividades culturais, contando com o apoio essencial de instituições como Sebrae, Sesc, Senac, Senai, Sesi e CAT. O apoio da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) chancelou o fórum e consolidou Registro como um polo de referência técnica em paisagismo e florestas urbanas.

Cientistas descobrem versões antigas e mais fortes do El Niño e La Niña

Um novo estudo da Universidade Duke mostra que a oscilação entre o El Niño e a La Niña acontece há pelo menos 250 milhõe…

Emergência climática: causas e consequências

A emergência climática está diretamente ligada ao aquecimento global, às mudanças climáticas e todas as consequências ge…

Animais na enchente: como manter os pets em segurança

Como proteger os animais na enchente? Com o agravamento das mudanças climáticas, os riscos de grandes inundações aumenta…

Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.

Bruna Chicano

Cientista ambiental, vegana, mãe da Amora e da Nina. Adora caminhar sem pressa e subir montanhas.

Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos.

Saiba mais