Imagem de Donald Tong no Pexels
A magia do cinema e o vício em séries chegam às telas acompanhados de um custo invisível e nada glamouroso: uma montanha de resíduos e uma enxurrada de emissões de carbono. Enquanto o público se distrai com a pipoca e a trama, os bastidores da indústria audiovisual operam como uma força-tarefa entre um circo e um exército, consumindo recursos em um ritmo insustentável. O resultado dessa corrida para atender às exigências do roteiro é uma pegada ecológica que, ao contrário dos cenários, não desaparece com o “corta!”.
Dados do BAFTA Albert, organização do setor, analisaram mais de 2,5 mil produções britânicas ao longo de dois anos. O retrato é preocupante: a locomoção e o transporte de equipes e equipamentos respondem por 65% da pegada de carbono de uma produção média no Reino Unido, enquanto o consumo de energia contribui com outros 21%. Para traduzir esses números, um blockbuster americano típico, com suas 3,37 mil toneladas de CO2, emite o equivalente a um carro dando 335 voltas ao redor do planeta apenas com suas viagens e gasto energético.
O rastreio do combustível em litros e da energia em quilowatts-hora, convertidos em CO2, é o mais simples. O verdadeiro nó da questão está no carbono embutido nos materiais que dão vida à narrativa. A diversidade de fontes, tipos de materiais e o destino final deles torna complexa a conversão para a unidade padrão de impacto climático. Como o foco principal de cineastas é contar uma história, falta tempo e estrutura para um levantamento detalhado do ciclo de vida de cada item. E os números são brutais: o mesmo relatório aponta que, no período, as produções britânicas mandaram para aterros cerca de 800 mil toneladas de materiais, volume equivalente a mais da metade do estádio Melbourne Cricket Ground.
O departamento de arte, sob o comando do designer de produção, emerge como o maior gerador desse desperdício. Para construir o mundo físico do roteiro, as equipes recorrem a materiais muitas vezes incompatíveis com a sustentabilidade. Uma caverna pode ser esculpida em poliestireno e fibra de vidro; um apartamento nova-iorquino dos anos 1920, simulado com MDF e madeira importada; um beco sombrio, erguido com placas de PVC. Tudo finalizado com uma variedade de compostos químicos para alcançar a textura e a cor desejadas.
Essa escolha por materiais de baixo impacto ambiental não é fruto de desconhecimento, mas sim da pressão por eficiência total e excelência visual. A opção recai sobre o que é acessível, tem entrega garantida e funciona tecnicamente. Some-se a isso a realidade do setor: um decorador pode ser obrigado a comprar 20 luminárias idênticas de uma grande rede varejista para atender a um pedido criativo, frequentemente com frete expresso, o que eleva a pegada de carbono do produto. Ao final das gravações, o destino desses objetos é, via de regra, o lixo. Orçamento apertado, prazos exíguos, sigilo intelectual e a falta de armazenamento barato inviabilizam o reuso em outras produções.
Um exemplo positivo, no entanto, vem dos estúdios de Melbourne com a produção de All Her Fault. A série não só reduziu emissões com o uso de veículos elétricos e energia renovável, mas também inovou no tratamento de resíduos. A equipe de arte adotou uma hierarquia de decisões baseada na economia circular. Antes de comprar, a pergunta era: é possível alugar, produzir localmente, comprar de segunda mão ou optar por materiais certificados? E o descarte seguiu a mesma lógica, priorizando a doação ética e a manutenção do valor dos objetos para que voltassem ao mercado.
Na prática, a equipe de construção testou um painel produzido localmente a partir de resíduos pós-industriais, o Saveboard, em substituição aos materiais convencionais. A lógica por trás da escolha foi a possibilidade de, no fim do uso, todo o cenário ser triturado e transformado em novos painéis, independentemente da tinta ou textura aplicada. O teste deu certo e inspirou outras produções a explorar métodos circulares semelhantes.
Tecnologias para um setor audiovisual mais limpo já são uma realidade. Veículos elétricos, biocombustíveis, iluminação de LED e sistemas de rastreamento de materiais estão disponíveis e comprovam a redução de emissões. O desafio agora é a mudança de mentalidade da liderança. Para que essas práticas se disseminem, é indispensável um compromisso real com a descarbonização desde o início do projeto, com orçamentos, prazos e investimentos em infraestrutura e capacitação adequados. Se grandes estúdios já publicam compromissos de sustentabilidade, a velocidade e a profundidade das ações concretas ainda variam bastante. A transformação duradoura depende de uma diretriz firme vinda do topo, aliada ao empenho de cada chefe de departamento e membro da equipe. Incorporar a sustentabilidade na essência da produção cinematográfica não é mais uma opção, mas uma resposta necessária à urgência da crise climática.
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