Imagem de Erik Witsoe no Unsplash
Imagine um ano inteiro de precipitação caindo em apenas alguns dias de tempestades torrenciais. O resultado, segundo pesquisadores da Universidade Dartmouth, é desolador: a terra não consegue absorver tanta água de uma só vez, o excesso escorre pela superfície e evapora, sobrando menos umidade para aquíferos, plantações e ecossistemas. Essa nova realidade, já detectada em quase todo o planeta entre 1980 e 2022, expõe um paradoxo preocupante: mesmo com o aumento total das chuvas provocado pelo aquecimento global, a água útil para o solo está diminuindo.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores Corey Lesk e Justin Mankin usaram uma ferramenta originalmente feita para medir a desigualdade de renda: o coeficiente de Gini. Numa escala de zero (chuva igualmente distribuída todos os dias) a um (toda a precipitação anual em um único dia), eles avaliaram como as chuvas se concentravam ao longo do ano. O veredito é que a precipitação anual ficou mais concentrada tanto em climas secos quanto úmidos.
A situação mais extrema foi registrada na bacia amazônica da América do Sul, onde a chuva ficou 30% mais concentrada em tempestades pesadas e longos períodos de estiagem desde 1980. Nos Estados Unidos, a oeste do rio Mississippi e especialmente nas Montanhas Rochosas, a compactação das chuvas aumentou 20%. O estudo projeta que um aumento de apenas 2 graus Celsius na temperatura global — cenário provável do aquecimento — poderá provocar condições anormalmente secas para 27% da população mundial, anulando qualquer ganho no volume total de precipitação.
Há exceções, porém. O Ártico, o norte da Europa, o Canadá e o Sudeste Asiático apresentaram chuvas mais bem distribuídas ao longo do ano entre 1980 e 2022. No caso das regiões frias, isso provavelmente ocorre porque o aquecimento transformou neve em chuva durante mais meses. Mas os modelos climáticos indicam que essas próprias áreas podem reverter o quadro e voltar a ter chuvas esparsas e secas prolongadas conforme o aquecimento avança.
Chover de uma vez só é como tentar matar a sede da terra com um hidrante. O solo encharca, forma poças e a água evapora rapidamente, em vez de infiltrar. Isso complica a gestão de reservatórios, especialmente em regiões áridas. A Califórnia é um exemplo: gestores precisam decidir se liberam água armazenada para receber novas tempestades, sem saber quanto tempo durará o período úmido seguinte. O estudo mostra que até lugares como o nordeste dos Estados Unidos, historicamente com chuvas regulares ao longo do ano, terão de repensar a necessidade de reservatórios para enfrentar tanto enchentes quanto secas prolongadas.
O mundo em aquecimento será mais desigual também na distribuição da água. Não basta saber quanta chuva cai por ano; o que define a umidade do solo é como e quando essa chuva acontece. E a tendência, já em curso, aponta para um futuro de eventos extremos e menos água disponível para a vida.
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